Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Flying Lotus – Cosmogramma (2010; Warp Records, EUA)

Flying Lotus é o projeto de Steven Ellison, produtor de Los Angeles que também é dono do selo Brainfeeder. Cosmogramma é seu terceiro álbum, sendo que o anterior, Los Angeles, também foi resenhado pela Camarilha. (M.M.)

* # *

O Flying Lotus parecia ter surgido nos meados da década passada como uma resposta americana à movimentação britânica em torno do dubstep e beatmakers afins. Uma resposta não apenas por sua própria música mas também por Steven Ellison ter se tornado um fomentador de algo próximo a uma cena, sendo inclusive produtor e dono de selo. O lançamento de Los Angeles serviu como marco de tal momento, e agora o lançamento de Cosmogramma deixa claro que as pretensões do FlyLo são outras, e muito maiores.

Se o que diferenciava Steven Ellison de seus contemporâneos britânicos era a tradição do hip-hop instrumental americano, aqui fica bem evidente que a música de Ellison bebe de muito mais fontes, que vão da tão propalada homenagem a sua tia Alice Coltrane à música de nomes tão diversos como David Axelrod, DJ Shadow, Madlib e uma atenção às cordas e metais muito parecida com a do Massive Attack (“Intro/A Cosmic Drama” e “Drips/Auntie’s Harp” usam arranjos muito parecidos aos de Protection; não sei se as fontes são as mesmas).

Na parceria com Thom York, “…And The World Laughs With You”, Ellison revela talento e desprendimento para usar e manipular a seus propósitos os vocais de um medalhão, sem recalques. De mesmo modo, várias das faixas revelam facetas insuspeitas, como a pretensão free de “Arkestry”, que parece mais afeita a uma dissertação sobre batidas e timbres que às odes à vibração do baixo de seus contemporâneos. Não que Ellison despreze a pressão do instrumento, pois uma faixa tão funky quanto “Do The Astral Plane” não esquece dos momentos mais sacolejantes de Los Angeles.

O desejo de se arriscar em novos territórios e expandir seu vocabulário resulta em duas frentes: a audição é sempre surpreendente e vivaz mas também bastante irregular, não simplesmente pela variação na qualidade das faixas, mas por, em meio a tanta pujança criativa, o FlyLo ainda não ter conseguido encontrar um núcleo de onde irradiar sua técnica. Ele tenta um pouco de tudo e faz quase tudo com graça e habilidade, mas em boa parte do tempo não parece saber por que faz aquilo. A transcendência espiritual que ele sugere em algumas entrevistas me parece bem distante do resultado final e talvez falte perceber melhor que várias de suas facetas não são excludentes. Tal assertiva pode ser fundamentada com a audição das lindas colchas de retalhos que são “Recoiled” e “Dance Of The Pseudo Nymph”. A música de Ellison clama menos por reinvenção que por fusão, pela transformação das várias brincadeiras e gaiatices de produção em algo duradouro.

Talvez já esteja na hora do FlyLo mostrar a que veio. As múltiplas possibilidades demonstradas pela trinca de EPs tirados de Los Angeles, e sua mão precisa como produtor, deixaram certa expectativa que não foi completamente satisfeita. A insistência na estrutura de disco muito parecida com a de Los Angeles é uma das falhas injustificadas. Se ali tínhamos seu cartão-de-visitas, dois anos depois algo mais elaborado era de se esperar. O que em Los Angeles funcionava à perfeição, como esqueleto de um álbum exibido e pulsante, aqui já deixa a desconfiança do formulaico.

Os seus meros 26 anos e o intenso e progressivo crescimento de sua curta carreira e já robusta obra lhe dão bastante crédito. Cosmogramma ainda não é o Entroducing que Ellison parece trazer em sua música, mas talvez seja até o indício de algo maior ou pelo menos mais profícuo, uma vez que Shadow não conseguiu criar nada que ombreasse sua obra-prima, ao passo que Cosmogramma parece somente um capítulo de uma obra excitante e desafiadora. Talvez Ellison não tenha feito um álbum para figurar em listas de final de ano. Outras obras mais coesas lhe tomam a dianteira. Em todo caso, em nota pessoal, a riqueza de sua música fez de Cosmogramma o disco ao qual eu mais voltei durante o ano, até agora. (Marcus Martins)

* # *

Bastaram dois EPs para fazer de Steven Ellison o queridinho da eletrônica experimental atual. Reset e 1983, de fato, são dois disquinhos inventivos, cheios de pressão, misturando um aspecto experimental com outro acessível, fundindo de forma original as batidas de J. Dilla com as do Prefuse 73 e atualizando-as para a era do dubstep. Para muitos, o primeiro álbum, Los Angeles, foi a confirmação de seu talento. De fato, trata-se de um bom disco, ainda que se ressinta um tanto do vinhetismo, com boas faixas que poderiam ter sido melhor elaboradas mas que ficaram restritas a um carisma superficial e posicional dentro do disco. Em todo caso, a lógica do disco deu certo e Los Angeles é um prodígio de fluência interna. De 2008 pra cá, seguiram-se alguns belos singles – “Glendale Galleria” em especial –, uns bons remixes e algumas faixas ambient desprovidas de maior brilho.

Cosmogramma acompanha essa lógica expansiva que vem marcando a discografia do Flying Lotus, com novas facetas e incursões sonoras até então inesperadas, fundindo jazz, house, easy listening e mesmo sonoridades próximas do universo clássico, como harpa, arranjos de cordas e côro. Existe mesmo um ecletismo doidivanas, disparatado no disco, que várias vezes abstrai-se das batidas quebradas e lentas que são a assinatura do artista para incluir drill’n’bass jazzístico à maneira de Squarepusher (“Pickled!”), indietrônica com vocais de Thom Yorke (“…And the World Laughs With You”) e diversos momentos acústicos de jazz abstrato. Seguindo uma estrutura ainda mais fragmentária que Los Angeles, Cosmogramma não só tem diversas faixas curtas, mas também diversas divisões internas nas faixas, funcionando como uma grande suíte cósmica e ambiciosa, remetendo dessa vez mais à psicodelia abrangente e experimental de um Ras G do que ao wonky de colegas como Joker.

Só que nem sempre experimentação equivale a acerto. Cosmogramma sem dúvida tem momentos sonoros incríveis, como “Computer Face/Pure”, como a já mencionada “And the World Laughs With You”, e com o final de epifania que inclui “Table Tennis”, um trip-hop psicodélico com barulhinhos de pingue-pongue ao fundo, e “Galaxy in Janaki”, um rompante de hip-hop instrumental lento em que incide uma profusão de barulhinhos dissonantes e deliciosos. Mas a ambição parece excessiva, e por vezes o disco parece ir a certos lugares apenas para forçar o ecletismo, como o house com cordas ítalo-disco de “Do the Astral Plane” ou a pegada soft rock de “MmmHmm”. As próprias incursões por sonoridades “nobres” – arranjos de cordas, jazz, harpa – parecem meio fake, como se Cosmogramma quisesse ser um What’s Goin’ On de nossa época, forçando a barra para sê-lo a fórceps. Talvez tenhamos que nos conformar que a criatividade de Flying Lotus, afinal, é extensiva mais que intensiva, e inclui desde os passos em falso até os irritantes momentos fofinhos (“Nose Art”). Se assim for, de fato, ainda bem que existem os momentos em que Steven Ellison acerta completamente, porque a existência deles já compensa fácil os descaminhos, e mantém seu Flying Lotus como um dos artistas significativos de sua época, ainda que precise de um tanto de maturidade e foco sonoro para disputar o panteão. (Ruy Gardnier)

* # *

Eu entendo perfeitamente quando alguém sugere que a música de Flying Lotus não resiste a uma comparação profunda com o Prefuse 73, muito embora eu deva observar que nem toda música deve ser fruída segundo comparações profundas. Cosmogramma não é tão diferente de Los Angeles, e de certa forma contém seus erros e acertos em igual medida: na escolha dos timbres, nos ritmos engenhosos, na bem dosada síntese entre grooves, samplers e ruídos, o disco é muito interessante; na eventual tentativa de reproduzir o bricoláge à la Prefuse aditivando-a com aspectos da “library music”, é indubitável que o disco perde força. Mas então, nada foi acrescentado? Ou pelo menos alterado?

Acho que ensaiei uma resposta para esta pergunta na resenha sobre a apresentação de FlyLo no Coachella, que vem a ser  o alto nível de acessibilidade da interface musical que ele tem produzido entre duas possibilidades improváveis, a saber: a “Música” com m maiúsculo, contando com a colaboração de virtuoses, como seu primo Ravi Coltrane e o baixista extraordinaire Thundercat, cujas linhas e solos preenchem boa parte de Cosmogramma; e a colagem de samplers e reutilização das premissas do hip hop, que o levam às comparações a que me referi acima. A graça de Cosmogramma e do trabalho de FlyLo como um todo reside na exploração de possibilidades entre essas duas dimensões. Basta escutar a melancolia kraut da parceria com Thom Yorke, “…And the World Laughs with You” ou a dobradinha “Pickled” e “Nose art”, que conta com um solo de contrabaixo delirante, para conferir que mesmo lançando mão de argumentos musicais eventualmente alienígenas, FlyLo não resvala nem no revival, nem na emulação da música negra americana dos anos 60 e 70. Pelo contrário, e isso é digno de nota: como Madlib e Prefuse 73, ele oferece sua própria colagem interpretativa destes fenômenos. O melhor exemplo disto é a melhor faixa do disco, “Satelllliiiiiteee”, com participação do produtor e instrumentista Dorian Concept. Sua música tem personalidade, embora ela se abra para algumas bobagens pop (representada aqui por “Do the astral plane”, por exemplo), que podem talvez ser interpretadas como sinal de “imaturidade”. Mas na verdade ela se sobressai justamente pelo fato de que há molecagem no som de Flying Lotus, e, sobretudo, há malícia suficiente, especificamente ligada ao universo hip hop.

Mesmo que Cosmogramma indique uma tendência em explorar o primeiro dos elementos acima, ou seja, o “Musical”, incluindo solos de baixo, harpas, cordas, e outras possibilidades mais tradicionais, nada impede que a música de Flying Lotus mantenha um frescor em relação ao rap quase juvenil, como nos primeiros álbuns do A Tribe Called Quest, por exemplo. Cosmogramma é um álbum experimental, mas ao mesmo tempo leve, saboroso, que atesta e confirma o talento de Flying Lotus para algo mais que o hype. E o fato de ser ligeiramente redundante não impede que reconheçamos que reitera e consolida a posição de FlyLo como um nome fundamental da música eletrônica da atualidade. (Bernardo Oliveira)

Flying Lotus é o projeto de Steven Ellison, produtor de Los Angeles que também é dono do selo Brainfeeder. Cosmogramma é seu terceiro álbum, sendo que o anterior, Los Angeles, também foi resenhado pela Camarilha. (M.M.)

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O Flying Lotus parecia ter surgido nos meados da década passada como uma resposta americana à movimentação britânica em torno do dubstep e beatmakers afins. Uma resposta não apenas por sua própria música mais também por Steven Ellison ter se tornado um fomentador de algo próximo a uma cena, sendo inclusive produtor e dono de selo. O lançamento de Los Angeles serviu como marco de tal momento como agora o lançamento de Cosmogramma deixa claro que as pretensões do FlyLo são outras e muito maiores.

Se o que o diferenciava de seus contemporâneos britânicos era a tradição do hip-hop instrumental americano, aqui fica bem evidente que a música de Ellison bebe de muito mais fontes, que vão da tão propalada homenagem a sua tia Alice Coltrane à música de nomes tão diversos como David Axelrod, DJ Shadow, Madlib e uma atenção às cordas e metais muito parecida com a do Massive Attack (“ Intro/A Cosmic Drama” e “Drips/Auntie’s Harp” usam arranjos muito parecidos aos de Protection, não sei se as fontes são as mesmas).

Na parceria com Thom York, “…And The World Laughs With You”, Ellison revela talento e desprendimento para usar e manipular a seus propósitos os vocais de um medalhão, sem recalques. De mesmo modo, várias das faixas revelam facetas insuspeitas, como a pretensão free de “Arkestry”, que parece mais afeita a uma dissertação sobre batidas e timbres que às odes à vibração do baixo de seus contemporâneos. Não que Ellison despreze a pressão do instrumento, pois uma faixa tão funky quanto “Do The Astral Plane” não esquece dos momentos mais sacolejantes de Los Angeles.

O desejo de se arriscar em novos territórios e expandir seu vocabulário resulta em duas frentes: a audição é sempre surpreendente e vivaz mas também bastante irregular, não simplesmente pela variação na qualidade das faixas, mas por em meio a tanta pujança criativa o FlyLo ainda não ter conseguido encontrar um núcleo de onde irradiar sua técnica. Ele tenta um pouco de tudo e faz quase tudo com graça e habilidade mas em boa parte do tempo não parece saber por que faz aquilo. A transcendência espiritual que ele sugere em algumas entrevistas me parece bem distante do resultado final e talvez falte perceber melhor que várias de suas facetas não são excludentes.tal assertiva pode ser fundamentada com a audição das lindas colchas de retalhos que são “Recoiled” e “Dance Of The Pseudo Nymph”. A música de Ellison clama menos por reinvenção que por fusão, pela transformação das várias brincadeiras e gaiatices de produção em algo duradouro.

Talvez já esteja na hora do FlyLo mostrar a que veio, as múltiplas possibilidades demonstradas pela trinca de eps tirados de Los Angeles, e sua mão precisa como produtor deixou certa expectativa que não foi completamente satisfeita. A insistência no formato do disco muito parecido com o de Los Angeles é uma das falhas injustificadas. Se ali tínhamos seu cartão-de-visitas, três anos depois algo mais elaborado era de se esperar. O que em Los Angeles funcionava à perfeição como esqueleto de um álbum exibido e pulsante, aqui já deixa a desconfiança do formulaico.

Os seus meros 26 anos e o intenso e progressivo crescimento de sua curta carreira e já robusta obra lhe dão bastante crédito. Cosmogramma ainda não é o Entroducing que Ellison parece trazer em sua música, mas talvez seja até o indício de algo maior ou pelo menos mais profícuo, vez que Shadow não conseguiu criar nada que ombreasse sua obra-prima e Cosmogramma parece um capítulo de uma obra excitante e desafiadora. Talvez Ellison não tenha feito um álbum para figurar em listas de final de ano, outras obras mais coesas lhe tomam a dianteira, mas a riqueza de sua música fez de Cosmogramma o disco ao qual eu mais voltei durante o ano. (Marcus Martins)

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Bastaram dois EPs para fazer de Steven Ellison o queridinho da eletrônica experimental atual. Reset e 1983, de fato, são dois disquinhos inventivos, cheios de pressão, misturando um aspecto experimental com outro acessível, fundindo de forma original as batidas de J. Dilla com as do Prefuse 73 e atualizando-as para a era do dubstep. Para muitos, o primeiro álbum, Los Angeles, foi a confirmação de seu talento. De fato, trata-se de um bom disco, ainda que se ressinta um tanto do vinhetismo, com boas faixas que poderiam ter sido melhor elaboradas mas que ficaram restritas a um carisma superficial e posicional dentro do disco. Em todo caso, a lógica do disco deu certo e Los Angeles é um prodígio de fluência interna. De 2008 pra cá, seguiram-se alguns belos singles – “Glendale Galleria” em especial –, uns bons remixes e algumas faixas ambient desprovidas de maior brilho.

Cosmogramma acompanha essa lógica expansiva que vem marcando a discografia do Flying Lotus, com novas facetas e incursões sonoras até então inesperadas, fundindo jazz, house, easy listening e mesmo sonoridades próximas do universo clássico, como harpa, arranjos de cordas e côro. Existe mesmo um ecletismo doidivanas, disparatado no disco, que várias vezes abstrai-se das batidas quebradas e lentas que são a assinatura do artista para incluir drill’n’bass jazzístico à maneira de Squarepusher (“Pickled!”), indietrônica com vocais de Thom Yorke (“…And the World Laughs With You”) e diversos momentos acústicos de jazz abstrato. Seguindo uma estrutura ainda mais fragmentária que Los Angeles, Cosmogramma não só tem diversas faixas curtas, mas também diversas divisões internas nas faixas, funcionando como uma grande suíte cósmica e ambiciosa, remetendo dessa vez mais à psicodelia abrangente e experimental de um Ras G do que ao wonky de colegas como Joker.

Só que nem sempre experimentação equivale a acerto. Cosmogramma sem dúvida tem momentos sonoros incríveis, como “Computer Face/Pure”, como a já mencionada “And the World Laughs With You”, e com o final de epifania que inclui “Table Tennis”, um trip-hop psicodélico com barulhinhos de pingue-pongue ao fundo, e “Galaxy in Janaki”, um rompante de hip-hop instrumental lento em que incide uma profusão de barulhinhos dissonantes e deliciosos. Mas a ambição parece excessiva, e por vezes o disco parece ir a certos lugares apenas para forçar o ecletismo, como o house com cordas ítalo-disco de “Do the Astral Plane” ou a pegada soft rock de “MmmHmm”. As próprias incursões por sonoridades “nobres” – arranjos de cordas, jazz, harpa – parecem meio fake, como se Cosmogramma quisesse ser um What’s Goin’ On de nossa época, forçando a barra para sê-lo a fórceps. Talvez tenhamos que nos conformar que a criatividade de Flying Lotus, afinal, é extensiva mais que intensiva, e inclui desde os passos em falso até os irritantes momentos fofinhos (“Nose Art”). Se assim for, de fato, ainda bem que existem os momentos em que Steven Ellison acerta completamente, porque a existência deles já compensa fácil os descaminhos, e mantém seu Flying Lotus como um dos artistas significativos de sua época, ainda que precise de um tanto de maturidade e foco sonoro para disputar o panteão. (Ruy Gardnier)

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Informação

Publicado em 29 de julho de 2010 por em eletrônica, experimental, hip-hop.
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