Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Big Boi – Sir Lucious Left Foot – The Son of Chico Dusty (2010; Def Jam Records, EUA)

Antwan André Patton atende pelo nome Big Boi em sua longa carreira como rapper e produtor da dupla Outkast, através da qual lançou seis discos. Sir Lucious Left Foot The Son of Chico Dusty é seu primeiro álbum solo oficial, pois seu disco Speakerboxxx ainda é creditado à dupla. (Marcus Martins)

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Quase tudo que cerca o Outkast sempre cheirou a presepada. A música, letras e estética, o visual, as atitudes e todo o circo criado entre cada um dos lançamentos/eventos. Ou seja, eles possuem uma forma personalíssima de serem estrelas do pop e se venderam como charlatões da melhor cepa. A impressão é que o maior responsável por isso sempre foi André 3000 com suas reincarnações de Prince. Big Boi sempre foi tratado como o cara do hip-hop, o gangster. A imagem de cada um sempre foi bem independente apesar do resultado coeso de seus discos. Ocorre que se nas obras-primas Aquemini e Stankonia a fusão de seus talentos parecia incontornável. Com o lançamento de Speakerboxxx/The Love Below, as diferenças pareceram se aprofundar ou evidenciar. Andre investiu em criar sua versão de future funk, um R&B que bebia em Prince mas apontava para tantos caminhos que apagou quase por completo o belo exercício de hip-hop classicista de Big Boi.

As diferenças de personalidades entre ambos sempre foram conhecidas mas parece que o excesso de holofotes apontados para André parece ter ferido o ego de Big Boi, e mesmo que ambos tenham participado de Idlewild, o resultado foi frio, como se apesar do longo tempo gasto com a produção, ambos tenham se mantido distantes. O conflito parecia instalado.

O certo é que em meio a conflitos com a Jive Records e inúmeras postergações, a produção de Sir Lucious Left Foot The Son of Chico Dusty se arrastou de 2007 até 2010, sendo que em 2008 Big Boi deixou o mundo do hip-hop em expectativa ao lançar o magnífico single de “Royal Flush”, que nem entrou no disco. Dito tudo isso, importa mesmo falar que Lucious Left Foot parece ignorar todo o barulho em seu entorno e se afirmar como um triunfo. O disco não se arrisca em expandir o vocabulário do hip-hop mas faz algo melhor: impõe Big Boi como um dos grandes mestres do gênero. O disco parece ser a mais bem acabada realização de muitas das ideias que circulam no hip-hop. Big Boi não apenas burila aquilo que ele sempre prezou no estilo, aquilo que aprendeu com seus antecessores como parece aprender com os novatos, e acrescentar uma volta no parafuso. Enquanto Andre é o mágico, Big Boi é o artesão. Mas que não se reduza suas criações a meras curiosidades artesanais. A cuidadosa urdidura de faixas como “Shutterbugg”, “Tangerine”, “You Ain’t No DJ”, “Fo Yo Sorrows”, “Night Night” ou “The Train Part II (Sir Lucious Left Foot Save The Day)” revelam uma consciência artística evoluída e em um gênero que prima pelo narrativo, Big Boi constrói pequenos épicos de fazer inveja a seus pares. Em cada faixa de Lucious Left Foot está inscrita a história do hip-hop e a marca pessoal de Big Boi, sem presepadas.

Pensei em quais faixas usar para ilustrar o domínio técnico e o vigor da execução, mas acabei com umas doze músicas fundamentais. Cada uma das faixas funciona dentro de uma lógica própria mas todas se encaixam no contexto do disco sem atrito. Elas se sustentam com independência mas brilham ainda mais no conjunto. A forma marcial/operística de uma “General Patton” se encaixa perfeita entre o funk de “Shutterbugg” e a guitarra e suingue de “Tangerine”. Aliás, muito mais que o The Love Below do Andre 3000, Big Boi conseguiu aqui criar o talvez mais coeso disco do Outkast, competindo com Aquemini e Stankonia. Na verdade Big Boi pode ambicionar um lugar para seu disco ao lado dos melhores da gloriosa história do hip-hop. Acho que a diferença que marca Lucious Left Foot e Speakerboxx é a alegria que emana de cada uma das faixas do primeiro. Mesmo com todo o ‘drama’ da produção e do lançamento, o disco transpira uma força positiva que está muito além das usuais tolices condescendentes. A foto de Big Boi ajeitando os óculos escuros na capa do disco já deixa a dica: se aqui existir alguma marra, é marra à Romário, old school e à serviço do lúdico que envolve qualquer artista.

Se tivermos um disco de hip-hop em 2010 que supere Sir Lucious Left Foot –The Son of Chico Dusty, será a glória. Talvez apenas Have One On Me e The Way Out criem um universo musical mais impregnante e rico que o de Big Boi. O que não é pouco, aliás, é do caralho. (Marcus Martins)

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Curioso como são as coisas. Quando, em 2003, o OutKast lançou um disco duplo como um combo de dois discos solo, o sucesso da soberba “Hey Ya” e a versatilidade de The Love Below levaram os apressados a classificar André 3000 como o motorzinho propulsor de criatividade da dupla. A Big Boi caberia a pecha de ser o cultor monolítico do southern hip-hop, o fator roots de autenticidade mas de escopo restrito com seu Speakerboxxx. Gostaria muito de saber o que esses apressados acharam de Sir Lucious Left Foot. Não que o disco seja um prodígio de ecletismo ou um disco que fuja em sua essência daquilo que Big Boi já fez com o OutKast. SLLF é um disco totalmente ancorado no universo sonoro do hip-hop sulista, com sua mistura poderosa de r&b, suingue funkadelickiano e dos bumbos hipersexy e balançantes herdados do Miami Bass dos anos 80. O que há de especial aqui é que Big Boi explora diversas das potencialidades de um gênero que conhece como ninguém e extrai uma incrível coleção de canções que têm pegada imediata, com refrões ganchudos, atmosfera festiva, raps cheios de flow malemolente e uma das produções de hip-hop mais esmeradas e focadas em anos (desde Late Registration?), com loops melódicos virtuosamente variados, batidas cheias de pressão e estratégias composicionais distintas para tornar cada faixa do álbum individual, com seu clima particular. E, diga-se de passagem, fazer de quase todas as faixas um possível single. É desse nível o acerto de Sir Lucious Left Foot: The Son of Chico Dusty, o primeiro álbum solo oficial de Big Boi. Se ainda contarmos com o fato de que o grande disco pop do primeiro semestre foi de Janelle Monáe, uma apadrinhada (ainda que com estilo e talentos próprios, irredutíveis à família OutKast), dá pra dizer que pelo menos em 2010 os 50% do OutKast que importam são os de Big Boi.

Tomemos, por exemplo, três faixas ao acaso, não necessariamente as melhores (em todo caso, três prediletas): “Tangerine”, “General Patton” e “Hustle Blood”. A primeira é um rap sobre strippers, com levada sexy, em andamento médio, com uma batida com loop de tambores que parece um Timbaland filtrado ao gosto dirty south. O charme instrumental da faixa, no entanto, é uma melodia de guitarra nada sexy, hiperclimática, que no entanto empresta uma atmosfera arcana e inusitada à faixa. “General Patton”, por sua vez, é baseada em coro de orquestra e num naipe de metais entoando uma melodia pomposa, semi-militarista, à qual se acrescem contratempos sintéticos em modo hiperativo para coroar a força da dinastia OutKast e intimidar seus opositores. A faixa consegue o feito de ser épica, grandiosa, e mesmo assim manter o clima festivo, em estado de ironia latente em relação ao acompanhamento “operístico” da produção. “Hustle Blood” é um r&b lento de refrão sensual (cortesia de Jamie Foxx) que em mãos erradas seria um amontoado de sacarose, mas que graças à produção elegante e à melodia espaçada consegue atingir um charme incomum nas produções do gênero. Não só as três são absolutamente bem-talhadas como faixas pop: elas o fazem sem recorrer a expedientes semelhantes, e até o estilo de vocalização de Big Boi se modifica para colar melhor à atmosfera de cada composição. Obviamente, isso imprime ao disco um frescor notável e fornece a devida sensação de variedade necessária num disco longo (64min com as duas faixas bônus). Há muito mais destaques em Sir Lucious Left Foot: a deliciosa melodia de teclado e a pegada P-Funk de “Turns Me On”, a divina participação de Janelle Monáe em “Be Still”, os hinos festivos que são “Shutterbug” e “Shine Blockas”, os synths e o refrão de “Follow Us”, a presença de George Clinton em “Fo Yo Sorrows”… Inúmeros elementos que discretamente vão compondo um dos discos pop mais coesos, bem dosados e cheios de hits dos últimos anos, um disco de festa e curtição que no entanto mostra em cada um de seus detalhes o laborioso trabalho de 30 cabeças somadas na produção e nas colaborações vocais e uma cabeça para organizar isso tudo num conjunto focado e pertinente. “Sir Lucious Left Foot” é um dos apelidos pelos quais Big Boi é conhecido (como também Daddy Fat Sax, Hot Tub Tony e General Patton). Segundo o próprio BB, Lucious é a “versão crescida de Big Boi”. O título é apropriado, então: Sir Lucious Left Foot: The Son of Chico Dusty é o disco da maturidade, o disco em que todos os elementos chegam à perfeição e passam a fazer sentido juntos. Maturidade, diga-se, musical. Porque a molecagem, essa parte constitutiva da música hedonista de Big Boi e de seu OutKast, esperamos que ele nunca perca. (Ruy Gardnier)

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Não dá para fingir, apenas por uma questão de pragmatismo, que este é o primeiro disco solo de Big Boi. Não é. Em Speakerboxxx ele já demonstra muitas das habilidades como rapper e produtor que fazem boa parte da graça deste Sir Lucious… Também não dá para fingir que toda a estratégia de lançamento, com a aparição esperta ao lado de Janelle Monáe e o refrão emo do hit, “Follow Us”,  não turbinou o disco para além do seu verdadeiro estatuto. Não é que Sir Lucious… não seja um disco muito, muito saboroso e eventualmente surpreendente. Mas também não dá para deixar de reparar que um certo nível de “vagabundagem” – um suingue fácil, um teclado estratégico, um coro exagerado – perpassa o disco inteiro. Em algumas faixas, essa inclinação para o óbvio funciona, ora sob uma execução vigorosa e precisa, ora sob um refrão pegajoso que não sai nem da cabeça, nem do mp3 player, mais geralmente por conta de uma ironia, uma irreverência que casa muito bem com o estereótipo do rapper norte-americano.  No entanto, não raro temos a sensação de que algumas linhas fogem do esquadro, e algo acaba por se repetir mais como farsa, do que como convicção. Mas o que intriga mesmo é, por exemplo, “Night Night”, que se posiciona bem no meio das duas possibilidades. Dois sujeitos discutem, um deles preso por porte de cocaína, corta para guitarrinhas mela cueca estilo anos 80, teclados de igreja, gravão estilo funk carioca e, de repente, por obra da divina providência, surge uma batida muito bem dosada no grave e marcada no aro da caixa que redime e transforma toda a parafernália de pre-sets comuns em algo além. Conforme a faixa vai evoluindo, percebemos uma série de detalhes que, a princípio, seriam incompatíveis com o lugar comum da introdução, como a estranha participação da cantora americana Loi, e do rapper B.o.B.. É nesta corda bamba entre a vulgata do rap e sua exploração criativa, que se situa o hip hop de Big Boi. Funciona muito bem em “Tangerine”, “Follow Us”, “You Ain’t No DJ”, “Turns Me On”, mas tropeça em “Shine Blockas”, “Daddy Fat Sax”, “Theme song”. Depois de algumas audições, no entanto, é inevitável reconhecer que mesmo o exagero pop das faixas listadas acima podem funcionar como “guilty pleasure” ou como poderoso estimulante para as pistas de dança. Soul e flow o rapaz tem de sobra, e Sir Lucious… confirma seu talento mais do que o revela, como os marketeiros querem nos fazer crer. (Bernardo Oliveira)

Ps.: Por onde anda Andre 3000?

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Informação

Publicado em 30 de julho de 2010 por em hip-hop, rap.
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