Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Jean-Claude Vannier – L’Enfant assassin des mouches (1972; Suzelle, França)

Jean-Claude Vannier nasceu em Bécon-les-Bruyères, região metropolitana de Paris, em 1943. A partir dos dezoito anos, recebeu aulas de música e trabalhou como assistente de estúdio. A partir de 1968, foi arranjador, produtor e compositor para uma série de artistas pop franceses (Michèle Mercier, Sylvie Vartan, Brigitte Fontaine, Michel Polnareff etc.), em especial para Serge Gainsbourg, em trilhas sonoras, faixas compostas para Jane Birkin e no disco hoje clássico Histoire de Melody Nelson (1971), em que fez os arranjos. Lançou L’Enfant assassin des mouches, seu primeiro disco solo, em 1972. De lá aos dias de hoje, seguiu carreira como regente, arranjador, compositor de diversas trilhas sonoras para cinema e tv (entre as quais Amantes Constantes e Selvagem Inocência de Philippe Garrel), e lançou mais oito discos solo, dos quais o mais recente é o duplo En public & Fait à la maison, de 2006. No mesmo ano apresentou-se no Barbican, em Londres, executando Histoire de Melody Nelson e L’Enfant assassin des mouches com participações de Jarvis Cocker (Pulp), Brigitte Fontaine e Mick Harvey (Nick Cave and the Bad Seeds), entre outros.

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É começo dos anos 70 e o mundo é progressivo. O rock fica sinfônico, as faixas duram lados inteiros de disco e os temas ficam arcanos, migrando para oceanos topográficos, lados escuros da Lua, cortes de reis fictícios ou da história antiga. Paralelamente, na França, um jovem músico devorador de diversas influências heterôgeneas, com passagem de seis meses como músico contratado num hotel em Argel, torna-se produtor-sensação de cantores populares, aplicando arranjos excêntricos a canções destinadas às paradas de sucesso, com orquestrações de cordas à moda árabe, cravo e outros instrumentos inusitados em matéria de canção popular. Seu trabalho audacioso é percebido por Serge Gainsbourg, outro francês provocador com enorme instinto pop e um pendor por ampliar os limites da canção francesa, mesclando-a com tudo que desse na telha. Os dois tornam-se parceiros em diversos projetos, Vannier fornecendo a Gainsbourg, ao nível do arranjo, o equivalente à estética excessiva e ao mesmo tempo delicada, lírica e ao mesmo tempo safada do cantor e compositor. Saem disso alguns compactos de sucesso – para o próprio Gainsbourg, para Jane Birkin e para outros artistas –, algumas trilhas sonoras e a obra-prima Histoire de Melody Nelson. O disco é creditado apenas a Gainsbourg, mas trata-se evidentemente de um trabalho criativo a quatro mãos, em que a força de Vannier é percebida pela fusão de instrumentos da tradição clássica com uma indefectível pegada de hard rock americano, fornecendo a base instrumental e emocional para a opereta rock’n’roll de Serge G.

L’Enfant assassin des mouches, lançado um ano depois, dá continuidade às incursões de Vannier pela barbarização completa de vocabulários sonoros heterogêneos. Ao rock guitarreiro e aos arranjos de ecos eruditos, no entanto, são adicionados uma míriade de efeitos e instrumentações que evocam desde a música concreta ao noise atual, num exercício ensandecido de abrangência do registro sonoro. Se os arranjos e os repertórios-base são ecléticos, as composições não deixam por menos, e vão das melodias xarope de rock palatável que associamos a pornôs vintage ao pop sofisticado, barroco e reflexivo de um Scott Walker, passando, claro, por momentos de absoluta insanidade abstrata (o final de “Les Garde volent au secours du roi”, com estalos, voz de criancinha, barulho de pêndulo etc.). L’Enfant assassin des mouches é uma espécie de disco de rock progressivo banhado contraditoriamente tanto na vanguarda quanto no kitsch, e só poderemos nos deleitar propriamente com ele à medida que abracemos ambos num só mergulho, das melodias frívolas de music hall (“Danse de l’enfant et du roi des mouches”) aos delírios dissonantes (o fim de “L’Enfant au royaume des mouches”).

Em certos momentos do disco, somos associados a instantes que nos remetem à grandiloquência do pior progressivo, em especial os momentos em que o rock ganha arranjos de cordas ou coro. No entanto, é preciso notar que a sensibilidade de Vannier é totalmente diferente. Ela é excessiva e decadentista, certamente, mas ela jamais assume ares de auto-importância ou de beletrismo. Cabe sempre lembrar que a “trama” do disco é a historinha de uma criança que mata moscas, e que qualquer magnificação dramática já carrega consigo um quê de galhofa. Não, em todo caso, que L’Enfant assassin des mouches seja um disco paródico. O humor está lá, mas o objetivo das músicas é emocionar e surpreender em modo de adesão do espectador, não de distanciamento irônico. A sensibilidade que Vannier pede é um tour de force pela extrema heterogeneidade dos registros sonoros que emprega, pelas atmosferas que pretende atingir com eles e pelas bruscas modificações de clima (como se passa com essa cara dura dos barulhos de vespeiro em “L’Enfant au royaume des mouches” para os pianinhos e o quarteto de cordas de “Danse des mouches noires gardes du roi”?), mas quando se acede, o prazer da descoberta é enorme. É como ouvir (“ouver”) uma colagem modernista com retalhos de fotonovela e Rothko em que os dois mutuamente se excluem mas sugerem ao longe um equilíbrio possível. Esse tour de force, evidentemente, compensa demais.

Cabe dizer que é um disco que carrega as marcas de seu tempo, do pop vagabundo de seu tempo, mas que parece inconcebível em 1972, por sua ênfase disruptora mas não iconoclasta que pode evocar Van Dyke Parks e seu Song Cycle. E também é um disco sem igual, mesmo na discografia de Vannier. Seja por seu fôlego barbarizante, por seu lirismo doidivanas ou pela incrível doçura aliada aos bolsões de “não música”, L’Enfant assassin des mouches é um disco delicioso de, mais que ouvir, carregar consigo. (Ruy Gardnier)

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Não sei bem o que leva a alguns setores da crítica musical a destilar ira e raiva contra o rock progressivo, suas boas intenções e tentativas de esgarçar o espectro musical do rock. Claro que muitas vezes deu errado, por excesso ou falta de inspiração, mas o espírito é mais que positivo. Inclusive, não é à toa que muitas das correntes que vão auxiliar no desenvolvimento do rock progressivo, vão desembocar lá na frente, no punk e no new wave. Me refiro a Brian Eno, David Bowie, Robert Fripp, e, mais recentemente, o revival kraut, que finalmente produziu a ressalva de que Can, Harmonia e Neu! eram diferentes do Yes e do Genesis. Mas o fato é que, como em qualquer outro gênero, o rock progressivo também produziu a sua vulgata, e uma infinidade de grupos como o Rick Wakeman, Eloy, o Grobschnitt e mesmo alguns disco do Genesis, chafurdaram em infindáveis rococós melódicos e sinfônicos, o que muitas vezes parecia uma tentativa nefasta de reescrever Mozart com os instrumentos do rock. Tavez resida aí o principal elemento da implicância…

Escutando o primeiro álbum solo de Vannier tem-se a impressão de que muitas das piores prerrogativas do rock progressivo foram reunidas em um só álbum: as frases melódicas executadas em uníssono por uma orquestra, sobre o quarteto formado por baixo-guitarra-bateria-violões, viradas de bateria infinitas, prelúdios, variações estapafúrdias, mellotrons fazendo coro angelical, e, sobretudo, um ar de experimentalismo auto-declarado que mais parece produto do laboratório de Dexter do que música propriamente. É como se  esta música laboratorial fosse construída como uma colcha de retalhos, de idéias que o compositor vai aos poucos desenvolvendo em seu bloco de notas, para enfurná-las dentro de um álbum, à forceps. O resultado não poderia ser diferente: um bolo de noiva, um imenso e abrangente foco de sonoridades, timbres e ritmos que impressiona pelo volume, mas aborrece pela solução estética propriamente dita. Funcionou muito bem com Serge Gainsbourg, um cara que sabia dar forma as suas tentativas de criar um rock com sotaque francês e o fez de forma brilhante com a ajuda de Vannier. Mas com as rédeas soltas, esse selvagem promoveu um verdadeiro desastre, mas um desastre absolutamente condizente com a época e suas aspirações. Um disco interessante, mas que prescreveu. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 4 de agosto de 2010 por em Uncategorized e marcado , .
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