Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Weasel Walter Septet – Invasion (2010; ugEXPLODE, EUA)

Weasel Walter é o pseudônimo de Christopher Todd Walter, compositor e instrumentista, fundador da banda The Flying Luttenbachers, juntamente com nomes como Hal Russell, Ken Vandermark e, a partir de 2005, o guitarrista do Orthelm, Mick Barr. Desde o fim de seu grupo, em 2007, Walter participa de diversos ensembles de improvisação, entre eles o Burmese e o Behold… The Arctopus. Walter já acompanhou músicos do calibre de Evan Parker, John Butcher, Glenn Branca e Jim O’Rourke. Invasion é o primeiro álbum de seu septeto, que conta com Damon Smith, Henry Kaiser, John Lindberg, Liz Allbee, Vinny Golya e William Winant. (B.O.)

* # *

Weasel Walter não é propriamente uma agradável surpresa no ramo da improvisação. O Flying Luttenbachers, grupo que lhe conferiu notabilidade na década de 90, alternava composição e improviso com até mais instrumentos dos que hoje formam o seu septeto. Portanto, não constitui exatamente uma novidade que este Invasion traga uma hora e dez minutos de improvisação com uma formação “orquestral”. Entre aspas, pois não se trata de uma orquestra, mas da exploração contumaz de dinâmicas harmônicas plenamente identificadas com as orquestras de jazz.

“Nautilus Rising”, faixa de mais de 30 minutos, apresenta ao ouvinte uma sucessão de momentos da mais pura violência musical. Tanto nos ataques uníssonos do início, quanto na diatribe que toma conta da faixa em sua metade, o ouvinte é situado em um contexto em que fica muito difícil diferenciar o que é improviso e o que é composição. A colaboração proeminente do guitarrista Henry Kaiser, destaque absoluto do álbum, toma a faixa de forma contundente, ora colaborando para amplificar as camadas de sopros e percussões, ora para guiar o momento mais silencioso, lá pelos 20 minutos.  A faixa termina da mesma forma que começa, o que indica que a improvisação é guiada por alguma espécie de notação referente ao tipo de ataque, ou ao desenho rítmico ou melódico a ser seguido pelos músicos. O resultado é exuberante, rico, evocando vez ou outra o ensemble de Bill Dixon ou ainda Sun ra. Mas com uma pegada que se afigura por vezes de forma irônica ou circense, nunca sisuda. Tudo parece uma grande festa, uma grande galhofa.

Esta pegada irônica permanece na segunda faixa, “Flesh Strata”, onde Kaiser novamente sobressai, mas há a participação também do saxofone soprano virtuoso de Vinni Golya, que costura um solo no meio da polirrtimia destilada por Walter e William Winant, que executa a segunda bateria. Da confusão para a parcimônia bêbada de “Cleistogamy”, a menor do álbum, percebe-se a mobilidade com que o grupo aborda cada um dos temas. Mas a faixa-título já retoma o aspecto cacofônico das faixas anteriores e prepara o ouvinte para mais vinte e dois minutos de uma improvisação alucinada, mais conservadora, é bem verdade. Digo: mais parecida com algumas outras orquestras de improvisação ou com o tipo de desenvolvimento que elas tomam quando se trata de muitos instrumentos em conjunto.

Não há dúvida que o tipo de improvisação contida neste álbum extrapola o conteúdo “improvisacional” e remete o ouvinte a uma dimensão em que a composição se insinua no mesmo passo que o caráter selvagem do free jazz. Se é verdade, como venho martelando aqui na Camarilha, que a improvisação hoje requer mais consciência e planejamento do que espontaneidade, então a diferença que o septeto de Walter Weasel nos traz é a constituição de um limiar em que as texturas, as harmonias, os climas, desenvolvem um diálogo aberto entre composição e improvisação. O que já reserva a Invasion um espaço privilegiado no que de melhor se produziu na seara da improvisação em 2010. (Bernardo Oliveira)

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O maior trunfo de Invasion? A variedade de climas, situações e dinâmicas realizadas pelo hepteto, que deve-se sem dúvida ao exímio controle exercido pelo grupo nos campos da improvisação e da composição. Não é nada fácil passar de uma a outra com a extrema naturalidade com que o conjunto de Weasel Walter passa: em geral cria-se duas situações estanques, em que a passagem de um registro a outro soa artificial e voluntarista demais, e essa sensação “de proveta” destoa totalmente com a energia improvisada do jazz. Nada disso em Invasion: nota-se com alguma clareza quais situações derivam de estratégias composicionais e em quais a improvisação é livre, mas tudo soa com naturalidade, como um contínuo de feeling, coesão e de estrutura. A maior fraqueza de Invasion? O modo como as baterias de Weasel Walter e William Winant, a guitarra de Henry Kaiser e os sopros de Vinny Golya dominam as quatro faixas do disco, deixando relativamente pouco espaço para os dois contrabaixos (quase sempre tangidos, à exceção da faixa final) e para o trompete de Liz Allbee. A parcimônia é uma das chaves do sucesso de Invasion, mas muitas vezes ao longo do disco o fator “hepteto” não está lá não por conta da parcimônia, mas do predomínio do núcleo do grupo em massa sonora e em estrutura, com Walter e Kaiser sempre dominando as intervenções com mais um sopro (às vezes em uníssono ou perto disso, como na segunda faixa, “Flesh Strata”, no caso de guitarra e saxofone). Excetuando a atitude pouco exploratória dos sete do hepteto, o disco brilha com grandes intervenções da guitarra ríspida e angular de Henry Kaiser e das tentaculares mãos de Walter e Winant, com acréscimo luxuoso de uma primorosa mixagem em estéreo que faz voar pratos, tontons e caixas por 360º do espaço auditivo, amplificando a força das baterias do grupo.

O grande destaque é também a maior faixa. Em 33 minutos, “Nautillus Rising” resume as qualidades do disco inteiro, com uma primeira parte discreta e espaçosa, estruturada por irrupções periódicas de bateria e intervenções dos outros instrumentos ocupando o espaço intermediário. A gama sonora nos remete diretamente ao jazz, talvez especificamente ao jazz-punk das gerações pós-70, mas a lembrança sonora mais próxima é de Frank Zappa fase Uncle Meat ou Weasels Ripped My Flesh, com sua mistura de humor, pitadas eruditas, energia jazzística e sotaque roqueiro. Só que o humor não vem de um sentimento de ironia, mas de um prazer bonachão de fazer essa peça intrincadamente estruturada parecer – apenas parecer – com uma fanfarra em desacordo. A única faixa de livre improvisação do disco é “Invasion”, que dá título e fecha o álbum, e trata-se de uma poderosa sessão de 22min, ainda que os sete instrumentos não estabeleçam um diálogo mais marcante o suficiente para individualizar a faixa, tornando-a a mais “genérica” do disco (entre aspas porque a pressão está lá presente, não tem nada de fácil ou protocolar nas intervenções dos instrumentistas). O brilho todo próprio de Invasion será encontrado, em todo caso, nas três primeiras faixas, com especial destaque para as duas primeiras, na perfeita assimilação de dados composicionais e de espaços inusitados para a improvisação, dando a impressão não de um híbrido, mas de um gênero todo próprio. (Ruy Gardnier)

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Um comentário em “Weasel Walter Septet – Invasion (2010; ugEXPLODE, EUA)

  1. RUI
    19 de agosto de 2010

    Isto não é som para toda a gente… muito bom o post, ainda mais é o blog. parabens

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