Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Mark Hollis – Mark Hollis (1998; Polydor, EUA)

Mark Hollis é um cantor compositor britânico que depois de passar rapidamente por uma banda denominada The Reactions, fundou em 1981, junto a Paul Webb e Lee Harris, a seminal banda Talk Talk. Inicialmente associada ao movimento ‘New Romantics’ que teve como maiores representantes a banda Duran Duran, em seu período inicial a banda chegou a alcançar considerável sucesso comercial e mesmo com as experimentações posteriores, nunca deixaram de ter algum apelo, o que pareceria impossível a bandas desse estilo na atualidade. Em 1991 o Talk Talk lançou seu último álbum, Laughing Stock, que pode ser considerado a culminação de seu desenvolvimento artístico em uma trajetória que a cada passo revelava novas possibilidades. Depois deste álbum a banda se separou. Paul Webb formou com outro músico a banda .O.rang e tivemos que esperar sete anos para que Mark Hollis saísse do casulo e lançasse seu único e autointitulado álbum solo, Mark Hollis.(M.M.)

* # *

É difícil não apelar para as descrições impressionistas quando falamos de música ligada à família Talk Talk. Mark Hollis é daquelas figuras que são celebradas tanto por seu trabalho como por toda mística que o cerca, ou melhor, por toda obscuridade que cerca a brusca interrupção de sua carreira. Lembro de demonstrar interesse em seu trabalho com o Talk Talk após ouvir por diversas vezes a empolgação de um amigo com a música da banda e em seu gosto em contar a anedota (que não recordo mais com exatidão) de que em determinada sessão de gravação Hollis teria utilizado toda uma orquestra por longo período e que no resultado final do disco apenas ouvimos a afinação de um instrumento. Sei lá se a história é verídica, muito provavelmente é mais uma lenda da música pop e além do mais minha memória deve ter me traído em algum ponto, mas o que aqui importa é a referência à obsessão de Hollis com o som gravado, com o meticuloso registro do mais insignificante detalhe, mesmo que esse fosse fortuito. Isso aparentemente foi sua glória e perdição.

A verdade é que eu não deveria ter escolhido escrever sobre este disco partindo da constatação que minha admiração pelo disco não é mais puramente musical e não consigo separar completamente minha reação emocional ao disco de uma tentativa de análise.

Talvez o importante seja notar que apesar de toda meticulosidade, a produção parece buscar a todo instante a mais límpida confluência entre música, interpretação vocal e letras. Aliás, um amigo certa vez me perguntou, de forma um tanto cretina, por que eu prestava tanta atenção nas letras. A resposta é que eu nem presto tanto, mas se você ouvir um disco como Mark Hollis e ignorar o que está sendo cantado, você está perdendo metade do disco e digo isso não pelo fato da letra serem o fator mais importante, mas por que aqui a simbiose é perfeita, letra e música foram feitos para coexistir e existem um pelo outro. Não é fortuito que “The Colour of Spring” começa com quase vinte segundos de silêncio, que é quebrado pela referência ao canto de um mendigo, ao abandonar de coisas e à contemplação das cores da primavera e certa possibilidade de transformação. Isso acompanhado de um simples e pungente acompanhamento de piano, como um despojar.

“Watershed” já começa ampliando os horizontes, o arranjo é expansivo e lentamente a música vai se expandindo e instrumentos vão sendo adicionados. A letra mais uma vez sugere uma mudança de rumos, especialmente o que deixar para traz e este é um dos pontos cruciais do disco: um lento mas incontornável abandono de algo negativo por outro incerto. O arranjo, apesar dos instrumentos, pouco tem de jazzístico. A concepção da faixa é cuidadosamente estudada como um convite a algo apenas sugerido, a música nunca parece se revelar completamente. “Inside Looking Out” sugere que o desejo de abandono e mudança está bem próximo do estado de prostração, a entrada dos instrumentos sempre parece claudicante, um trompete ocasional que nunca forma uma linha melódica e mesmo a guitarra acústica que surge com força logo é abandonada. A própria interpretação de Hollis segue o padrão de iniciar os versos com potência para terminar em um sussurro incerto. Uma prece que duvida da possibilidade de ser atendida, da utilidade de ser atendida… “The Gift” é das mais expansivas e por isso das mais enganosas, sua fundação é forte mas o arranjo é fragmentário e sugere tantas coisas que ficamos incertos do que Hollis pretende afirmar e tudo apenas parece nos preparar para “A Life (1895-1915)”, a mais radical composição do disco. O arranjo é tão esparso que nem merece esse nome, e a melhor referência para o início da música seria um gracejo tipo ‘Morton Feldman go pop’. A letra, de mesma forma, poderia ter sido composta de forma aleatória passeando o dedo por algum livro existencialista. “A Life” é do tipo de música que dificilmente vai ser eleita como a favorita de alguém mas que tem uma função central no disco, um centro que se esfacela. Neste aspecto “The Daily Planet” é uma prima cheia de amargura, pois começa no mesmo fragmentar e rapidamente se transmuta em algo quase raivoso, ou pelo menos um raivoso por Mark Hollis, com direito a gaita e tudo.

Talvez neste disco fique mais evidente a influência de alguns dos assumidos heróis de Hollis – nomes tão diversos como Otis Redding, Burt Bacharach e o Can. Vejam que todos esses nomes, mesmo os alemães inovadores, primam pela precisão de sua arte e pelo desapego a ornamentações desnecessárias, seja pela expressividade do soul de Reding, seja pelos falsos lounge cocktails de Bacharach.

A incansável atenção ao detalhe o coloca no grupo de maníacos do estúdio como Brian Wilson e Kevin Shield, mas sua atenção ao detalhe e ao resultado da gravação lhe aproxima de um Robert Ashley ou Alvin Lucier no sentido de que a própria circunstância da gravação interfere não apenas no signo como no significado. Como diz Lucier na gravação de “I Am Sitting In A Room”: What you will hear, then, are the natural resonant frequencies of the room articulated by speech. I regard this activity not so much as a demonstration of a physical fact, but more as a way to smooth out any irregularities my speech might have”. Isso pode soar tolo, e talvez seja, mas o vazio sonoro que se instala no centro do disco reflete tanto ou mais que o sentido imediato das letras e da voz de Hollis.

Ouvimos uma espécie de tradução conceitual do efeito Larsen, um feedback da solidão ou do desejo de desaparecer, ou pelo menos sair de vista, um estar na fronteira que não se decide por lugar nenhum pela consciência de que não há mais tempo ou lugar para estar. É como se a todo instante Hollis deixasse claro que não teria volta. Ao abdicar de todo o luxuoso acompanhamento do Talk Talk, ao abandonar o conforto de uma pequena celebridade Hollis se une ao seleto grupo de poetas do Não, exatamente como termina “The Daily Planet”, na melhor tradição de Bartleby ou do Walser de João César Monteiro com um fiapo de voz a escapar no lugar do grito mudo.

Muito haveria para dizer, Mark Hollis é daqueles discos que mereceriam um bom volume da série 33 1/3 da Continuum Books. O laconismo do disco é tão eloquente quanto as letras infinitas de um Decemberist nunca será. Do piano ao fagote, da guitarra à gaita, ou do trompete ao clarinete, uma verdadeira orquestra está em uso, mas o resultado final soa como o termo militar, ausente sem partir. E esta parece ser uma boa definição para esta obra-prima que precisa ser resgatada em tempos de bandinhas histéricas e circenses.

É difícil não certa frustração quando pensamos que não ouviremos mais nada de Hollis e sua ausência nem mesmo é daquelas prenhes de expectativa, como a de um Scott Walker, que mesmo em idade avançada nos deixa sempre aguardando uma última revelação. Uma lástima que AWOL, o ausente sem partir, também é aquele que nos desertou, a sensação não pode ser outra. (Marcus Martins)

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Na base da evolução da sonoridade do Talk Talk e da conflagração de Mark Hollis, único disco solo do ex-vocalista e compositor do grupo britânico, está um perigo sempre presente no pop sofisticado: a ECMização, o som preciosista/adulto/asséptico que grassou pelas searas do jazz e do pop nos idos dos anos 70-80 e que se transformou numa espécie de estética clean, inofensiva, espaçosa e artificial ao ponto da plastificação, ou seja, bastante apropriada aos anos 80. A voz hiperlírica e contida de Mark Hollis, o pianinho, o violãozinho, a bateria tocada com vassourinha, tudo isso provoca em princípio uma enorme apreensão. No entanto, à medida que se vai degustando o disco, a sintonia se estabelece com a sensibilidade das composições e as delicadas melodias de Hollis passam a fazer não pose mas sentido. É flagrante a influência de artistas com um pé no pop e outro em gêneros mais “estudados”, como Peter Gabriel, Robert Wyatt e Brian Eno. Mas ao mesmo tempo Hollis é muito diferente deles: é vulnerável como Wyatt mas em modo lírico e folky; é impostado-chique no cantar como Gabriel, mas suas composições são muito mais lentas e introspectivas, e de Eno só há de fato o espaçamento das células melódicas e um certo laconismo das composições. Amalgamando os três, o que Hollis consegue é um prodígio de imersão não hipnótica, mas de ritmo (lentíssimo), melodia (discreta, imperceptível e elegante) e disposição emocional. Um disco que começa parecendo música sofisticada genérica e que aos poucos se mostra em sua total força própria não é exatamente algo comum.

Apesar da voz de Mark Hollis não estar onipresente no disco, é necessário adesão a ela para entrar no clima do disco. Seu jeito de cantar lembra um pouco o de David Sylvian pela dramaticidade um tanto solene e pelo timbre distintivo (ainda que Sylvian seja mais dark/objetivo, Hollis mais lírico/sofredor). Mas as comparações param por aí. Hollis sabe absolutamente o que quer de seus instrumentos, e o “experimental” não surge como afetação mas como resultado de uma busca. As flautas, clarinetas e fagotes dissonantes entram como elementos que distilam uma beleza alienígena, reforçando a sensação de isolamento e alienação provocada pelo canto angustiado de Hollis que jamais é encampado pela instrumentação, fria e indiferente. É uma voz arriscada, que talvez irrite por um aspecto choroso, mas assimilá-la certamente compensa: ganha-se o sentimento do disco inteiro através dela.

Um outro aspecto bastante peculiar de Mark Hollis é a similaridade relativa da sonoridade do disco com algumas coisas do então nascente post-rock. Esse rock que não roqueia, esse progressivo sem progressão, esse culto pela erudição e pela economia, tudo isso é tranquilamente encontrável em artistas de toda uma outra geração, como Jim O’Rourke em carreira solo (Insignificance em especial), mas também em Bark Psychosis ou no Gastr del Sol do próprio O’Rourke, também um grupo que primava pelo pop de câmara. Que o disco de Hollis tenha aparecido no momento de florescimento de um subgênero com o qual sua sonoridade tem muito a ver é apenas uma das peças que o deus das coincidências artísticas vive nos pregando.

O grande desafio à percepção em Mark Hollis é entender sua aridez. O espaçamento entre as notas, a lentidão das composições não são beletrismo mas pura aridez. É um disco em que cada silêncio conta, em si mesmo e também para sublinhar a força de cada célula sonora, sempre discreta, que aparece. O resultado é a instalação do ouvinte num permanente estado de suspensão, que tolera movimentos internos mais para o pop, mais rapidinhos (“The Gift”) ou mais para a música de câmara do século XX (“A Life (1895-1915)”) e culmina na linda ascese de “The Daily Planet”. É no fundo o exato oposto da ECMização: é música com feeling, real entrega e a criação de uma indelével e única atmosfera. (Ruy Gardnier)

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A primeira coisa que se pensa quando o primeiro e único álbum de Mark Hollis começa a tocar é que, de fato, se ele tinha guardado consigo uma perspectiva musical tão fora do contexto que promoveu o Talk Talk, então poucos trabalhos solo foram tão necessários e urgentes como este gravado em 1998. Passaram-se dezesseis anos, desde o primeiro álbum do seu grupo de origem, até que este álbum homônimo surgisse. O clima soturno, reforçado pelo piano marcado, preciosamente timbrado, que abre o disco com a faixa “The Colour of Spring”, já revela ao ouvinte a perspectiva soturna, silenciosa e extremamente acurada do álbum. Já na faixa seguinte, “Watershed”, percebemos o teor modal das canções, que se desenvolvem no espaço rarefeito do tom, e variam entre o grave e o agudo como à moda de uma improvisação vocal. O trumpete elegante, que poderia perfeitamente passar como uma intervenção farofeira, se esmera nos intervalos menores e nas escalas levemente “arabizadas”. Mais uma vez o piano marcado de “Inside Looking Out” devolve ao ouvinte aquela sensação de desolação que é a marca do álbum. “Left no life no more/for me to shine”, sussurra o outro espevitado cantor de uma das bandas mais farofas da new wave. Surpresa é pouco, neste caso.

Sobre uma camada percussiva regular, carregada de pratos de bateria, “The Gift” se parece com algumas faixas do Radiohead. Quando eclode “A Life (1895 – 1915)”, a faixa mais impressionante do álbum, já estou completamente convencido que se trata de um grande disco. Esta faixa, repleta de momentos sublimes, conta com acordes de flautas e clarinetes, momentos mais agitados, contando com um naipe de percussões, etc. Uma coisa que chama a atenção é o fato de que o álbum tem uma “cara”, uma assinatura: as percussões são semelhantes, sempre se amparam nas ressonâncias advindas dos pratos; os acordes espaçados, marcam as canções e valorizam o silêncio; as melodias são, como escrevi acima, modais, variam sobre um mesmo tom. As faixas que finalizam o disco são igualmente belas e obedecem o mesmo preceito, com destaque para “The Daily Planet”. Um disco inspirado, enxuto, coeso e absolutamente necessário de um artista que até então se apresentava como mais um pop star passageiro. (Bernardo Oliveira)

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Um comentário em “Mark Hollis – Mark Hollis (1998; Polydor, EUA)

  1. Bernardo
    24 de agosto de 2010

    O aspecto técnico da gravação desse disco é interessante, eles deixaram um par de microfones stereo parados no estúdio, e gravaram cada take e overdub nestes mesmos dois microfones, sem mexer em nada, acertando o som apenas pela posição dos músicos no espaço. Por exemplo, se um elemento deveria aparecer a direita do ouvinte, o músico era situado do lado direito da sala, e gravado sem mexer nos microfones. Mais detalhes:

    http://users.cybercity.dk/~bcc11425/IntWWpb1198.html

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Publicado às 20 de agosto de 2010 por em experimental, folk, pós-rock e marcado , , .
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