Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Peeesseye & Talibam! – Peeesseye & Talibam! (2010; Invada Records, Reino Unido)

Formada por Jaime Fennelly, Chris Forsyth e Fritz Welch do Peeesseye e por Kevin Shea e Matt Mottel do Talibam!, o projeto Peeesseye & Talibam! vê a primeira incursão em estúdio conjunta das bandas que compartilham gravadora e constantes noites de apresentações. A sonoridade das bandas apresentam pontos em comum, fazendo parte da cena de música de improviso norte-americana não restritas ao circuito do jazz. (M.M.)

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Já tinha ouvidos discos do Peeesseye e do Talibam! anteriormente e apesar de ter gostado bastante do álbum Boogie In The Breeze Blocks do Talibam!, sempre achei a música de ambas as bandas inacabada e deixando a desejar. Era inegável a enorme energia despendida pelas performances nos álbuns, mas nada de mais substancial parecia surgir daquilo na maior parte do tempo. Curioso então ver um projeto com a junção das duas bandas e quando falo em junção nem sou exato, pois o mais adequado para este disco é que se desse ao projeto um novo nome, dada a forma o som das duas bandas se encaixou como se nunca tivessem tocado separados.

Nem é o caso de dizer que o som das bandas é complementar, pois quando li sobre o projeto na ótima coluna Out Door! da Pitchfork, cocei a cabeça curioso com o que resultaria de tal maluquice, visto que especialmente os discos do Talibam! sempre tinham um bom teor de ‘que-porra-é-essa’, tanto fazendo dizer que a banda fazia improvisos de jazz, rock, freak-folk, free-noise ou kraut. O que parecia importar era alcançar níveis curiosos de porra-louquice (o Talibam! é frequentemente descrito como ‘Sun-Ra meets Stooges’, ou seja muita maluquice e das boas), visto que as bandas são velhas conhecidas e costumam dividir a escalação em apresentações, chegando a dividir o palco.

Dito isso, o álbum Peeesseye & Talibam! não é um novo capítulo em delírios acéfalos, mas surpreendentemente é um álbum bem controlado (à exceção de uma inserção vocal muito irritante no meio de “Everything for Everyone”). A construção das faixas parece ceder menos ao improviso que à estrutura do krautrock, apesar de não existir em lugar algum algo próximo de um motorik. Perdido em meio ao barulho parece existir um duelo entre os músicos, que às vezes descamba para um “call-and-response com sinal fraco” de efeito admirável. O melhor resultado pode ser encontrado na contundência e concisão de “A Grey Mountain of Human Shit”, que diria ser uma das melhores do ano. Se tudo isso pode parecer fácil e o mérito de muita improvisação parece residir na assimilação de quem ouve, a última faixa, “Year of the moral orgy, Grit of the ghost”, com seu groove lento com dna do fusion dos anos ’70 é uma grata surpresa tanto por evocar uma sonoridade que hoje parece impossível de repetir quanto por preservar sua personalidade e não virar necrofilia. No fim, a sugestão seria acabar com ambas as bandas e formar uma nova besta, coisas lindas seriam de esperar.

Depois de cerca de cem anos de uma escola de improvisos é cada vez mais raro que alguém traga algo novo ou único e não é isso que Peeesseye & Talibam! nos proporcionam. Em seus melhores momentos o disco nos proporciona aquilo que os melhores discos de improvisação fazem, uma audição surpreendente de sons imprevisíveis. (Marcus Martins)

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Peeesseye & Talibam!: uau, o nome já parece levar a imaginação para um lugar meio selvagem, com algum senso de humor e uma boa dose de nonchalance. Mas seria de que fatura? Noise, improv, space rock? “You Tried (To Eat It)”, a primeira do disco, confirma todas as características presumidas pelo nome e situa o grupo num power rock instrumental que evoca sem muitos pudores Acid Mothers Temple e LIghtning Bolt, com tecladinhos cósmicos (mas não tão insanos quanto as diatribes de Makoto Kawabata) e forte pegada de bateria (mas não tão rigorosa quanto a dupla de Brians de Providence). A faixa começa com um teclado delicioso imitando piano elétrico mas rapidamente vira uma sessão de rock freaked-out enérgica e bem-humorada como por vezes os Boredoms conseguem fazer. A faixa de forma alguma aponta para território inexplorado. Pelo contrário, ela repisa o caminho desse rock instrumental de fio desencapado mas não extrai graça da força de novidade, e sim da pressão e da graça descompromissada. Até a primeira faixa, portanto, apenas uma banda que desempenha bem aquilo que se propõe. A coisa começa a se adensar em “Everything For Everyone”, composta a partir de um drone que lembra gaita de fole, ao qual os instrumentos melódicos desenvolvem suas intervenções pontuais enquanto as duas baterias vão ficando progressivamente mais presentes (ainda que sempre discretas). Em momentos parece um Vibracathedral Orchestra bem comportado, mas a graça não está tanto nos timbres conseguidos mas na força da interação, no equilíbrio para construir uma sonoridade una. E quando a gente pensa que eles vão se manter entre esses dois patamares, “New Vitality in the Biomass” chega para nos presentear com guitarras em feedback e texturas metálicas ou massudas de grave, com um tantinho de power electronic e vocal declamado e distorcido. Peesseye & Talibam! não contém nada de muito novo ou essencial, mas o disco cativa pelas soluções inesperadas e pela incrível propriedade que advém de cada uma das faixas, cada uma sendo uma pequena joia coerente e semilapidada para manter sempre seu quociente de beleza crua. O grupo atinge o máximo de agressividade free-jamzística em “A Grey Mountain of Human Shit” mas só revela sua melhor faceta no final, com os quase vinte minutos de “Year of the Moral Orgy/Grit of the Ghost”, que começa com deliciosas divagações de teclado, guitarra e sininhos evocando por momentos as pinceladas impressionistas de In a Silent Way. Mas, claro, o caldo engrossa ali pela metade da faixa, com a bateria fazendo o andamento disparar (só na pulsação, não no volume) e a guitarra de Chris Forsyth encontra uma maneira astuciosa de transformar seu lirismo inicial em improvisação roqueira. O único aspecto francamente tolo de Peeesseye & Talibam! é a entrada dos vocais, absolutamente desnecessários todas as vezes que aparecem, fornecendo por vezes a errônea impressão de que eles gostam de soar descuidados. Se há vocais em quase todas as faixas, felizmente eles ocupam parte restrita da duração delas. O resto dá para desfrutar com prazer e espanto pela excelente química criada pela união desses dois projetos e os instrumentos de seus cinco integrantes. (Ruy Gardnier)

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Já se tornou perceptível para o leitor da Camarilha que a prática da improvisação musical nos é muito cara. Só neste ano, mais de 10 discos de improvisação foram camarilhados, alguns bastante jazzísticos, outros mais abstratos ou noise, outros mais roqueiros, o que, aliás, parece ser o caso desta colaboração entre Peeesseye e Talibam! Mas é provável que não compartilhemos os mesmo interesses quando se trata de improvisação. Falo por mim: a graça da improvisação não está na prática do improviso como “levação de som”, como prática exclusivamente espontânea, mas no modo  e no estilo como o artista esculpe a obra, em como ele pavimenta o caminho que vai do início ao fim de seu improviso. Esta forma não deve ser totalmente aberta, sem que o compositor se valha de rédea curta para controlar e aparar. É no controle e não no delírio que reside a graça da improvisação.

O que acontece quando dois grupos, que apesar da pouca idade, já prestaram serviços indubitáveis para a cena improv novaiorquina, se unem? Pode dar certo, pode dar errado, mas não se espera nunca que não dê em nada. Não é o caso, o disco é ok, tem seus bons momentos, e até mesmo momentos muito, muito bons. Como por exemplo, na promissora introdução da faixa “You tried (to eat it)”, com o teclado super jazzístico cercado por ruídos e percussões digitais. Ou ainda “Everything For Everyone”, com sua quebradeira tensa e repleta de ruídos interessantes. Mas a irregularidade do álbum, bem como sua eventual superficialidade, pode ser creditada justamente a um tipo de entrega individual, em que cada instrumentista vai para um lado diferente, resultando em uma composição amorfa. “O improvisador é essencialmente gregário”, escreveu Derek Bailey, mas para concretizar esta essência é necessário que ele dialogue. Em diversos momentos do disco, como em “Year Of The Moral Orgy/Grit Of The Ghost” e “A Grey Mountain Of Human Shit”, percebe-se que as rédeas se soltam como se não houvesse amanhã, promovendo uma balbúrdia indistinta. Penso eu que, para uma próxima colaboração, o quinteto deveria ser mais rigoroso, e se esmerar na criação de atmosferas, como nas duas primeiras faixas. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 20 de agosto de 2010 por em experimental, improv, jazz, noise, rock e marcado , , , .
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