Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Daniel Menche – Hover (2010; Touch, Reino Unido [EUA])

Daniel Menche (n. 1969) é um músico americano de Portland, Oregon. Começou sua carreira no começo dos anos 90, e seu primeiro disco é Incineration, de 1993, lançado pelo selo Soleilmoon. Sua música é frequentemente situada no âmbito do noise e do experimental. Acumula uma discografia que conta com cerca de 70 títulos, entre álbuns, cassetes, compactos e CD-Rs. Já lançou discos em parceria com Kevin Drumm (Gauntlet), Andrew Liles (The Progeny of Flies) e Kiyoshi Mizutani (Garden), entre outros. Hover é o segundo lançamento de Menche pela gravadora londrina Touch, e foi disponibilizado apenas em versão MP3. O depoimento de Menche sobre seu disco pode ser encontrado aqui. (RG)

* # *

A rigor, Hover é composto de duas faixas, “Hover” e “As Is”. No entanto, é apenas o hábito que nos leva a considerar dessa forma, uma vez que nos acostumamos a tratar com isonomia as faixas de um mesmo álbum. “As Is”, porém, é apenas o que em termos de DVD seria um extra, como um making of ou uma seleção de cenas não incluídas num filme: trata-se do bruto da experiência que originou “Hover”, com um coral de trinta crianças da escola em que Daniel Menche trabalha (como bibliotecário) sendo orientado a entoar as vogais uma a uma, e depois um pot-pourri de vogais, cada estudante cantando junto vogais diferentes. Mas é um extra realmente impressionante, pois, depois da inebriante experiência de ouvir a faixa-título, admiramos ainda mais o resultado final que Menche atingiu, e percebemos o notável senso de coesão no aproveitamento de todos os seis sons que estão na base da composição. O que há de essencial em Hover, contudo, é a faixa-título, uma experiência acachapante de intensidade sonora e riqueza de variações que revela-se como uma das audições mais surpreendentes que terão aparecido este ano na seara drone/eletroacústica/experimental esse ano.

Descrever “Hover” é relativamente simples. É uma profusão de sons de coro sendo meticulosamente picotados, estendidos, passados de um canal para outro e transformados em robustas texturas sonoras que ondulam de forma exuberante e um tanto assustadora. Às vozes, é adicionado um órgão Hammond para fazer o papel das vozes de barítono. O que Menche consegue com isso, no entanto, escapa à descrição. Desde o começo da audição, o ouvinte é tragado num oceano de vozes com dimensões colossais e noturnas, as variações funcionando como verdadeiros fluxos marítimos com padões rítmicos, enorme senso espacial e forte carga emocional. As vozes do coro, ao mesmo tempo suntuosas e frágeis, fornecem uma poderosa carnalidade aos drones, e a inevitável semelhança timbrística com os coros de música erudita provoca uma sensação de solenidade que impregna a composição. Essa percepção de solenidade, no entanto, é quebrada pela forma como as vozes são picotadas e separadas pelas assimétricas aparições nas caixas acústicas, dando a impressão de uma complexa colagem ultramoderna que traduz em termos texturais as experiências com voz de Asa-Chang & Junray (e Prefuse 73 em menor medida).

Apesar de Daniel Menche estar apropriadamente associado ao noise mais abrasivo (porém sempre muito metódico e perfeccionista, às antípodas dos turbilhões improv de um Masami Akita), o que se ouve em “Hover” é uma música imersiva, extremamente envolvente, que só retém do noise o caráter massivo e de alto volume da experiência sonora. Os graves do Hammond evocam um pouco os artistas de drone doom, mas o resultado aqui é mais espectral do que propriamente nebuloso ou soturno, e a rica gama de variações garante um dinamismo constante, muito longe da eventual morosidade do gênero. “Hover” é uma peça absolutamente individuada no panorama de drone/eletroacústico atual, e se lembra um artista ou outro, seria uma estapafúrdia junção de Philip Jeck, Eleh, Kevin Drumm e Gyorgi Ligeti filtrados pela vulnerabilidade da outsider music (ecos da Langley Schools Music Project). Aqueles que terão a felicidade de se deparar com “Hover” poderão testemunhar a força e a beleza das sonoridades em separado e da composição como um todo. É bom assim. (Ruy Gardnier)

* # *

A obra de Daniel Menche possui a notável particularidade de dialogar com sons naturais, mas revestindo-os de uma intencionalidade latente, quase que mastigada para o ouvinte. E como intencionalidade rima com artificialidade, percebe-se esta inclinação na acentuação dos timbres, dos farfalhares, explosões, incinerações, quebras, dobras e afins, que se agitam na superfície sonora de suas peças. Esta faceta bem conhecida de sua produção musical pode ser devidamente conferida e apreciada nas duas faixas de Hover, inclusive a que batiza o álbum. Em seus dezoito minutos, podemos escutar o produto de um desenvolvimento que se iniciou nas aulas de coral que Menche ministra em Portland, Oregon, quando gravou e manipulou as vozes de seus alunos emitindo as vogais A-E-I-O-U. Menche adicionou um órgão Hammond para suprir o grave que falta as vozes pueris, mas de tal forma que a peça se encaixa perfeitamente no rol das sonoridades “orgânicas”, dinâmica comum a todos os seus trabalhos. “Hover” não chega a empolgar, mas apresenta dinâmicas sonoras muito interessantes. Seu interesse, no entanto, se amplia ainda mas pela inclusão da faixa seguinte, “As is”. À primeira vista, um mero sample, um gadget sonoro retirado da matéria prima para a obra com a duração maior, “As is”, no entanto, parece mais do que isso. Sua inclusão faz pensar que o álbum em questão denota ou uma anomalia no corpus générale, ou uma exacerbação das premissas originais. Em “As is”, a intencionalidade é como que escancarada para em seguida constituir um trabalho autônomo, uma experiência na qual acaso, composição e happening se unem para formar um acontecimento musical dos mais relevantes do ano. É evidente que uma incômoda discrepância se revela entre o produto final, “Hover”, e sua matéria prima, “As is”, mas talvez não devéssemos apostar neste jogo de causalidade entre obra e matéria-prima. De outra forma, considero que a vivacidade de “As is” revela, em primeiro lugar, um aspecto de jogo: não se trata tanto de reportar aos ouvintes a experiência pregressa, mas de inserí-los no movimento de criação da obra. Também podemos destacar que “As is” pode ser compreendida como uma obra de field recording, mas também como uma improvisação dirigida, composta para a voz humana. Durante o século XX, compositores como Stockhausen, Xenakis e Penderecki buscaram criar outras atmosferas e possibilidades formais para a composição vocal, mas o que ocorre aqui é algo da ordem da composição que dialoga com outras ordens, mais especificamente a ordem do improviso. Esta é a riqueza que faz de “As is” um evento musical tão adorável quanto “Brothersport” ou “Enfants”, de Villalobos, duas obras que aliam experimentação e um certo grau de doçura juvenil, por assim dizer. Não somente porque trabalha com vozes pueris, mas porque insere esta voz em uma obra impregnada de diferença, sobretudo se compararmos com o contexto atual da composição contemporânea. (Bernardo Oliveira)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 25 de agosto de 2010 por em experimental e marcado , .
%d blogueiros gostam disto: