Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Phonophani – Kreken (2010; Rune Grammofon, Noruega)

Kreken é o quarto álbum do projeto Phonophani, capitaneado pelo compositor e instrumentista norueguês Espen Sommer Eide. Desde o fim do século passado, Eide vem trabalhando de diversas formas na síntese de sons acústicos e eletrônicos, destacando-se na cena eletrônica experimental norueguesa. Com Dag-Are Haugan formou o Alog, banda de post-rock experimental que no ano passado lançou um split com o Astral Social Club. O próprio Phonophani participou de splits com Vibracathedral Orchestra e ISAN, além de contar com a colaboração de Maja Ratkje em seu penúltimo álbum, Oak or Rock, de 2009. (B.O.)

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Não é exatamente o ecletismo errante o que mais me fascina nos trabalhos de Espen Sommer Eide. Ele já transitou com destacada desenvoltura pela ambient, pelos clicks and cuts, pela música abstrata e diversas outras formas de exploração da música eletrônica, até mesmo na seara do post rock do Alog, projeto que divide com seu conterrâneo, o guitarrista e vocalista Dag-Are Haugan. Também não se destaca pela abundância, não é um Machinefabriek da vida, que produz doze álbuns por ano, pelo contrário: tanto no Alog como sob o pseudônimo Phonophani a discografia de Sommer Eide é parcimoniosa. E mesmo que se possa enaltecer o pulso firme com que conduz seus trabalhos, que passam da ambient mais etérea ao noise fragmentário como num passe de mágica, sem grandes sobressaltos, esta ainda não é a característica que faz de Kreken um álbum do maior interesse.

O tom pastoral das composições se equilibra com uma dinâmica cadenciada, mesmo quando se escondem por trás de uma timbragem abrasiva e deliberadamente manipulada. Às vezes, o tom da composição é mais abstrato, mas algumas qualidades aparentemente distantes se insinuam, como em “Nold”, ao mesmo tempo abstrata e ambient, mas que não esconde as modulações evocativamente melódicas. “Vuku” conta uma trama harmônica formada com sons de gameboy, levemente desencontradas, mas que aos poucos sugerem uma surpreendente estabilidade de composição. “Kvaale II” retoma o tema minimalista da primeira parte, lançando mão de percussões com sons de madeira. “Mendel” e “Tuv” são faixas mais cerebrais, a primeira explorando sínteses entre vozes e sons eletrônicos, a segunda mantendo um forte diálogo com a música de Brian Eno.

Kreken carrega o nítido interesse de Sommer Eide em borrar as fronteiras entre as concepções tradicionais de “acústico” e “eletrônico”. De um ponto de vista exclusivamente estético, os pianos preparados de John Cage também realizam essa crítica, produzindo um tipo de manipulação que altera não exatamente o som, mas o seu sentido, quero dizer, a forma mais rasteira com que eles são compreendidos e escutados. Sommer Eide trabalha de forma muito sutil essas ambiguidades, e a partir de “Gubijinso”, o álbum dá uma guinada para faixas mais abrasivas e barulhentas, como a intrigante “Blafat” e seu jogo de pratos e vozes, ou ainda os sinos rebuscados de “Neverdal”, todas trabalhadas sob uma indefinição acentuada entre o que se trata de timbre gerado eletrônica ou acusticamente.

Qual seria, então, a característica principal de Kreken se não o intenso equilíbrio entre o brilho estranho dos seus timbres e o paradoxo de suas composições, abstratas e melodiosas ao mesmo tempo? Esta força vem a ser, me parece, o fruto de uma pesquisa extremamente acurada que passa pela composição e pela extração de sonoridades que muitas vezes surpreende o ouvinte não através de saltos e sobressaltos, mas com uma assustadora naturalidade. Talvez esta mesma naturalidade corresponda àquilo que mais estranha o ouvido em Kreken, álbum que pode ser classificado como um verdadeiro objeto não-identificado na música lançada em 2010. (Bernardo Oliveira)

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Um tremendo mistério perpassa a música do Phonophani. Num primeiro momento, ela pode evocar aqueles músicos que tentam evocar o (falso, a meu ver) modernismo de alguns artistas da Type, misturando os lirismos eruditos de um Satie com clicks e cuts de eletrônica contemporânea. E de fato há muito disso na música de Espen Sommer Eide. No entanto, é uma música que não se deixa explicar de modo tão fácil. O artista faz uso extensivo, de fato, dessa fusão de procedimentos, e consegue por meio deles atingir intensos ápices emocionais em modo intimista, mas ele não recai em nenhum lirismo plácido proveniente de fórmulas precisas. Mas o mundo que ele evoca é um universo próprio, recheado de estranhamentos que não se tornam mais claros na passagem de uma faixa a outra. Pelo contrário, as faixas deixam transparecer uma mesma sensibilidade, uma mesma disposição de espírito, mas se articulam segundo estratégias diferentes e sobretudo com sonoridades muito diversas. É o primeiro encanto de um disco como Kreken: tentar entender como essas sons surgem, como se articulam, se o sonzinho x vem de um instrumento processado ou se é exclusivamente sintético, se o sonzinho y é no fundo familiar ou totalmente extraterreno. Mas rapidamente o espanto vai logo além, na forma como as composições se desenrolam num todo orgânico e improvável. As faixas são pausadas, e cada som criado tem o tempo necessário para que a atenção possa ser focada nele, na forma como ele se desenvolve com as outras sonoridades, na maneira como ele progride (ou não) ao longo da composição. O silêncio é um parceiro constante. Mas a audição não recai em qualquer morosidade de “modern classical”. Se Kreken parece alguma coisa, parece o Harappian Night Recordings realizando composições bem mais organizadas com paletas sonoras de um Múm do começo e de um Oval.

O site da Rune Grammofon afirma, de forma um tanto audaciosa em se tratando de um selo norueguês, que Espen Sommer Eide é talvez o músico mais inventivo e original de eletrônica da Noruega. E credita parte do diferencial de Kreken (em relação aos outros do Phonophani, no caso) à instrumentação e às afinações da música folk do país. Ainda que nosso conhecimento das tradições musicais da Escandinávia não nos credenciem a dar pitaco na questão, alguns momentos de Kreken de fato parecem pertencer a um folk transmutado, retorcido, orgânico o suficiente para provocar uma adesão calorosa por parte do ouvinte, mas ao mesmo tempo outros jogam – e isso talvez sejam o mais fenomenal do disco – nossa imaginação para o espaço sideral, mas mantendo sempre esse intenso poder emocional, como se fossem canções de trabalho de um mundo distante. A forma como as sonoridades de instrumentos associados à tradição clássica são reconfiguradas imprimem a Kreken um forte e sombrio poder espectral. E a aparente calma pastoral, etérea, só nos faz desarmar a atenção para que os elementos disruptores se mostrem em toda sua carnalidade, atiçando o entusiasmo e fazendo ver às claras todo poder de timbre e organização do artista. Evocar sensações contraditórias, fazendo do mais abstrato o mais concreto e vice-versa, não é uma característica dos grandes criadores? (Ruy Gardnier)

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Publicado às 31 de agosto de 2010 por em ambient, eletrônica, experimental e marcado , , , , .
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