Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Sir Victor Uwaifo – Guitar Boy Super Star 1970-76 (2008; Soundway, Nigéria [Reino Unido])

Sir Victor Uwaifo (1941 – ) é um músico nigeriano, que além de compositor, cantor e instrumentista, também é escritor, escultor, inventor, filósofo, político e poeta. Responsável pela criação e difusão de uma série de hits e ritmos da música nigeriana pré-Fela Kuti, como “Guitar Boy and Mamiwater” e “Joromi” (que dá nome ao gênero inventado por ele mesmo), guitarrista extraordinaire que acompanhou grandes mestres do Highlife, como Victor Olaiya e ET Mensah, Uwaifo é um dos guitarristas mais importantes (e excêntricos) da música nigeriana. (B.O.)

* # *

1. O problema
Qual o estatuto e o valor das compilações de música africana e oriental que invadiram a cena de uns oito anos para cá? Críticos e audiófilos criticam a prática de se comprar os fonogramas e editá-los à revelia dos contextos culturais e especificidades técnicas que envolvem álbuns e compactos. De forma algum esta questão atinge a grandeza de Uwaifo, e mesmo de Omar Souleyman e Orchestre Poly-Rythmo, mas concordo que é importante situar de que forma nos chegam essas obras. No entanto, é comum perceber que a discografia não só dos artistas nigerianos, mas africanos em geral, constitui um desconsolador bambual de referências, muitas vezes incompreensíveis, que denota relações artísticas, sociais, de fundo mercadológico e técnico, produzindo uma aura de indistinção e mistério. De forma que, apesar de considerar válidas as ressalvas e aflições dos críticos, audiófilos e colecionadores, sobretudo no que diz respeito às questões de fundo técnico – quando, por exemplo, ocorre discrepância na qualidade de gravação entre as faixas – não vejo com maus olhos essas coletâneas arbitrárias lançadas por selos como o Sublime Frequencies e o Soundway. Primeiro porque, além dos nomes citados acima, muitos outros artistas nos foram apresentados por estes selos. Basta lembrar as recorrentes sonegações culturais perpetradas pela indústria fonográfica brasileira durante a década de oitenta para considerar pelo menos o interesse desses empresários em divulgar a música africana. Depois, como se trata de fãs e apreciadores, cabe destacar que eles se dedicam a compilar o que há de melhor, não somente no que diz respeito aos aspectos técnicos, mas também estéticos. Ou seja: há um valor imanente a essas coletâneas, de forma que elas não são mera referência, aperitivo vago, pelo contrário.

2. O contexto
Fela Kuti não caiu do céu, não é um milagre. Muito menos a eclosão de uma mente genial que cresceu inesperadamente de um solo desolado pelas vicissitudes da colonização inglesa. Muito pelo contrário, Fela é produto de uma cultura musical riquíssima, que inclusive não se traduz somente por manifestações nigerianas, mas por artistas de outros países que foram acolhidos pelos nigerianos de diversas maneiras. Nomes como o serra-leonês Geraldo Pino, que causou uma forte impressão em Fela Kuti, os nigerianos Ginger Johnson e Victor Olaiya e o ganense ET Mensah são alguns exemplos da qualidade força musical que representou a Nigéria como principal enclave cultural da música africana, catalisando Apala, Fuji, Igbo, Hausa, Yorubá, Juju e outros tantos ritmos e gêneros. “Sir” Victor Uwaifo (consta que o Sir é apócrifo) é um personagem muito particular neste universo, responsável por pelo menos dois gêneros realmente diversos no contexto nigeriano, o ekassa e o joromi, ajudando a expandir o primeiro e a construir o segundo. Mas, para além das suas qualidades multitasker – confira aqui as mil habilidades de Uwaifo – o homem é um músico da maior importância, que não se responsabilizou somente por gêneros específicos, mas criou uma miríade de ritmos e canções que, ouvindo hoje, nos faz perguntar quantos anos ainda serão necessários para que a música da Nigéria pare de nos provar todo dia o seu poder de criação.

3. O artista
Como as faixas de Guitar Boy Super Star 1970-76 podem comprovar, Uwaifo é o tipo de artista que sintetiza o suingue da música negra americana com os ritmos nigerianos, como a ekassa. Até aí, nenhuma novidade, mas no seu caso pode-se perceber que a síntese se caracteriza por um enfoque acentuado na música regional. Uma profusão de ritmos colore as dezenove faixas do álbum com suas texturas percussivas carregadas por pratos, tambores, blocks, etc. Reparem no “jongo” carregado de “Talking Instruments (Ekassa 8)”, no highlife turbinado de “Osalobua Rekpama” ou no pré-bangra “Do Lelezi (Ekassa 22)”. Uma outra característica impressionante da música de Uwaifo é a guitarra que ele empunha de maneira extremamente peculiar, ora solando com uma pegada rítmica (como em “Igboroho (Ekassa 5)”, ora funcionando como acompanhamento para o arranjo (como em “Edenederio (Ekassa 40)”, entre outras). E, por fim, o poder de suas canções, que carregam de forma ambígua um sentimento de doce melancolia muito afinado com o highlife, mas acentuado pela força e a energia dos instrumentistas e dos arranjos.

4. O disco
O caso de Uwaifo é curioso, pois poderíamos indicar seu disco de 77, 5 days a week love, ou ainda o excelente Jackpot de 80, dois álbuns deliberadamente pensados como tal, projetados, arquitetados. Mas não. Penso que é possível cogitar o fato de que o recorte desta coletânea da Soundway conjuga de fato o melhor que produziu Victor Uwaifo, um álbum que pode ser considerado uma obra-prima da compilação. (Bernardo Oliveira)

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Parte do fascínio de escrever na Camarilha diz respeito ao formato: a cada semana, ter que ouvir repetidamente dois discos, em geral sem qualquer relação um com o outro. E acontece de, por vezes, os discos amplificarem diferenças uns nos outros. É o caso com Phonophani e Sir Victor Uwaifo. Uma audição, eu diria, potencializa a outra. Há padrões rítmicos muito interessantes no Phonophani, mas ali a força maior está no desenvolvimento melódico. Há em Sir Victor Uwaifo belíssimas melodias, belos ganchos de metais, deliciosas invenções melódicas na guitarra, mas o que ganha o coração é o ritmo. O norueguês baseia-se na tradição popular, mas é vastamente experimental, ao passo que o nigeriano claramente experimenta com formatos, mas se inscreve numa tradição popular, de música de dança. A pegada do Phonophani é algo a que o ouvinte precisa chegar, mas a de Sir Victor Uwaifo está lá, é a primeira coisa que se percebe, é um requisito de sua produção. Se o som do Phonophani dá asas à imaginação para sobrevoar universos desconhecidos, o de Sir Victor Uwaifo nos ancora com força física num tempo e num espaço, e faz a imaginação dançar ao som do suíngue híbrido e da inspirada guitarra de seu demiurgo. Mas da mesma forma que o Phonophani se apropria de um universo para transfigurá-lo, Sir Victor Uwaifo também funde sons de dentro e de fora de modo a constituir algo único. O Phonophani cria um idioleto – como os gênios idiossincráticos, de Hermeto Pascoal a Asa-Chang & Junray –, ao passo que Victor Uwaifo bebe do soul e do rock’n’roll americano para revitalizar os gêneros de seu país.

Guitar Boy Super Star 1970-76 compila uma parte da carreira de Victor Uwaifo após seu sucesso inicial em meados dos anos 60, num segundo momento de sua carreira, em que o compositor e guitarrista “retirou” um gênero, a ekassa, de suas funções ritualísticas e transformou em gênero pop. O resultado, inesperadamente, lembra um pouco a música das antilhas – son, rumba, calipso, salsa –, mas com uma pegada pop que remete à música americana (há mesmo uma citação a “Tequila”, dos Champs, em “Agho”, um dos “não-ekassa” presentes no disco) mas com estrutura e instrumentação que associamos diretamente à música africana. Nem todas as faixas são igualmente ganchudas, mas quando Uwaifo descobre um gancho, ele explora todas as suas potencialidades. Trata-se de um guitarrista fantástico, da mesma linhagem que fez Jimi Hendrix, Lúcio Maia, John Frusciante: ele sabe empunhar uma guitarra e tirar fraseados que são a um só tempo rítmicos e oníricos, cheios de aventura mas de pegada imediata. Sua música é efusiva e sensual, baseada em ganchos de coro, guitarra ou naipe de metais, e mesmo quando seu instrumento entra num monólogo idiossincrático (“Igboroho”, por exemplo), a interação rítmica é contagiante. É música de vibração, de feeling, mas em modo totalmente diverso da música de outro nigeriano muito mais famoso, Fela Kuti. Àqueles interessados em conhecer música da Nigéria que mescla sons tradicionais ao pop em configurações diferentes das do afrobeat, a descoberta de Sir Victor Uwaifo se faz absolutamente necessária. (Ruy Gardnier)

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Informação

Publicado às 2 de setembro de 2010 por em ekassa, Música da Nigéria e marcado .
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