Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Kemialliset Ystävät – Ullakkopalo (2010; Fonal, Finlândia)

Kemialliset Ystävät é uma banda finlandesa formada em 1995 pelo multi-artista Jan Anderzén, que é seu único membro fixo. Sob o nome de Kemialliset Ystävät, Anderzén já lançou dezenas de discos, entre sete polegadas, CD-R’s e álbuns, sendo que os últimos foram na maior parte das vezes editados pelo respeitado selo Fonal. Muitos dos colaboradores de seus álbuns são músicos do próprio selo. Ullakkopalo foi lançado em 2010 após um hiato de três anos. (MM)

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É tão fácil ser condescendente com algo que foge do familiar quanto é fácil menosprezar essa estranheza e impor classificações grosseiras apenas para resguardar nosso conforto. O selo finlandês Fonal vem sendo vítima e beneficiário disso. De um lado, temos o elogio fácil à música insular e esquisitinha: olha como ouço esse som que ninguém entende. Logo inventam categorias exóticas, e no caso do Fonal é indispensável a menção às florestas e blábláblá. Do outro lado, a preguiça de ouvir com atenção e dar o devido valor leva a se descartar uma forma peculiar de encarar a composição como exotismo ou “experimento”, além de colocarem no mesmo balaio artistas de música tão diversa quanto Kemialliset Ystävät, Islaja, Es ou Paavoharju. O benefício vem ao se ficar refém de um selo de música experimental, com o argumento de que nada que se lança ali é ruim porque é um experimento…

O caso do grupo Kemialliset Ystävät fica ainda mais complicado quando partimos da informação de que no cerne de suas composições está tanto um desejo de experimentar quanto de empregar uma sonoridade que remete a canções infantis; a surpresa das brincadeiras da infância e a sensação de descoberta que os jogos infantis proporcionam talvez sejam boas descrições para a música do projeto. Uma sensação de assombro pelas coisas mais simples parece ser um mote para a banda: tentar criar um equivalente sonoro para aquele momento em que presenciamos uma criança descobrir com assombro algo que já não nos traz qualquer encanto.

A música pode ser acusada de apelar para o exotismo, mas isso aponta muito mais para a necessidade de conforto dos fãs do eterno retorno dos trovadores folk que do exotismo alheio. Alguém poderia dizer que se você limpasse as faixas de todos os seus elementos bizarros, sobrariam canções simplórias, mas na verdade não sobraria nada, pois o que se chama de excesso é a própria razão de ser da música e esta junção de elementos acústicos, analógicos, digitais ou de qualquer natureza não é meramente aleatória ou “empilhada”, mas a mais exata tradução de uma estética.

A banda é fruto de Jan Anderzén, uma espécie de dadaísta das colagens sonoras, e se o resultado sempre soa como fruto de um coletivo dada a profusão de matrizes sonoras, neste novo álbum, Ullakkopalo, a interferência de elementos externos é determinante para o resultado do que ouvimos. Além dos usuais amigos químicos (uma tradução para o nome da banda), Anderzén cercou-se de alguns amigos de fora da floresta. Assim, mesmo que de forma indistinta, tempo a participação no álbum de Jussi Lehtisalo do Circle, Neil Campbell do Astral Social Club, e C Spencer Yeh do Burning Star Core. Lehtisalo é famoso pela peculiaridade do metal do Circle, mas sempre envereda em seus outros projetos por terrenos mais experimentais, ao passo que Campbell e Yeh são conhecidos da casa por seus projetos barulhentos e pelo pendor às colaborações mais inusitadas, em especial dentro do universo do noise. Ou seja, Anderzén cercou-se de músicos que costumam trabalhar de forma mais estruturada, apesar do gosto de Yeh pela música concreta, que o delírio do Kemialliset Ystävät. A contribuição desses músicos não alterou os procedimentos da banda. Os três anos desde o último álbum não foram suficientes para introduzir nenhuma mudança radical, mas ouvimos uma expansão do alcance das faixas. Se muitas vezes em discos anteriores as diatribes de Anderzén dominavam, agora a estrutura das faixas não apenas cria uma fundação como dialoga com seus floreios. Variações de tom, volume, intensidade tem um papel fundamental no sucesso das faixas. Linhas melódicas conseguem ser desenvolvidas para depois se dissolverem, sumirem e voltarem com tanta naturalidade quanto um devaneio percussivo ou uma das abstrações ao sintetizador tão caras à banda.

As colaborações sempre são pontos nevrais nos discos de Anderzén, já que ele não é conhecido como um exímio instrumentista e sim como um singular produtor que precisa de colaboradores para dar corpo a suas ideias e possibilitar suas colagens sem que ele fique sempre dependente de encontrar um sample adequado (o que acontece com seu verdadeiro projeto solo, Tomutonttu, que é bastante dependente de samples). E talvez daí venha sua principal qualidade. Apesar do aparente caos das faixas, uma audição cuidadosa revela uma intrigante construção, daquelas que apenas são possíveis com os mais raros materiais, os sons mais inusitados que não servem ao propósito de causar espanto, mas de proporcionar uma experiência única ao se moldar com todas as outras peças. Isso não quer dizer que o disco seja redutível a uma estrutura determinada, mas que a possibilidade de uso de cada som e as colisões entre eles é tudo menos aleatória. Gostando ou não dos discos do Kemialliset Ystävät, você nunca vai ouvir nada parecido; e ainda assim a todo momento ouvimos algo familiar.

A maior contribuição do Kemialliset Ystävät é a expansão do vocabulário das experimentações de uma forma peculiar que consiste no uso de sons muitas vezes delicados e que parecem provenientes de brinquedos, e na forma como ele os coloca num contexto de estranheza, trazendo de volta o susto. Como aqueles brinquedos de criança que, no lugar de as enternecer, enche-as de inexplicável pavor. Ora, fazer isso sem soar como a versão musical de Jean-Pierre Jeunet não é pouca coisa. (Marcus Martins)

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A impressão que tenho toda vez que me deparo com um álbum ou um dos incontáveis cdr’s produzidos pelo finlandês Jan Anderzén, sob o pseudônimo Kemialliset Ystävät, é a de escutar uma versão extendida daquelas faixas bem delirantes dos Mutantes, sendo a estrutura da canção retirada para dar lugar somente ao arranjo. Em outras palavras, é como se os diversos aspectos pitorescos que envolvem a canção – a música de circo, os teclados espaciais, os sons “concretos” – se descolassem e dessem as mãos uns aos outros, formando um continuum  de gadgets musicais, à semelhança de um Focus Group, por exemplo. Cabe notar, porém, que a diferença entre o Focus Group e não somente o Kemialliset Ystävät, mas o também finlandês Paavoharju, é que eles são infinitamente mais interessantes no ato de escolher timbres e excertos, no modo como manipulam a library music, na forma de lidar com a qualidade fragmentária de suas composições. Às vezes lembra o White Noise, às vezes o primeiro disco de John Frusciante, Niandra Lades and Usually Just a T-Shirt, isto é, álbuns em que a noção de sonho desempenha um papel fundamental.

Reconheço que afirmar que o trabalho de Anderzén é mais interessante que o do Focus Group não é lá muito auspicioso, mas não se pode esconder que em alguns momentos o Ystävät surpreende. Não é o caso de se citar uma faixa ou outra, pois cada faixa comporta um série de outras faixas, mas de destacar uma inteligência invulgar no controle do caráter de profusão sonora que é a grande característica do disco. Do início ao fim somos bombardeados por instrumentos convencionais, sons eletrônicos, samples, vozes alteradas, library music, noise, percussões estapafúrdias, sons naturais, et cetera, combinados de forma indubitavelmente musical, isto é, de forma a criar um sentido. E o sentido de  Ullakkopalo é o excesso em uma dimensão ludo-onírica, capaz de conduzir o ouvinte a um estado de completo devaneio ou mesmo de um atenção compenetrada sobre os aspectos técnicos. Em ambas as possibilidades, Ullakkopalo é um disco do maior interesse. (Bernardo Oliveira)

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Para começo de conversa, vamos dizer que o universo do Kemialliset Ystävät é fascinante. Embora contenha atrativos exotizantes, essa fascinação não brota deles – a saber, a procedência da Finlândia e os sons que evocam coisas lúdicas, graciosas, infantis como caixinhas de músicas – mas do complexo entrelaçamento de melodias de timbre estranho, de uma estranheza que parece sempre desafiadora mas nunca posuda, e da criação de um universo sonoro coeso e robusto que inequivocamente pertence só a eles. Definir a excentricidade desse som é quase impossível: imagine os Flaming Lips sem a âncora das canções e do vocabulário do indie, querendo fazer um disco que remeta a The Books e Residents; em todo caso, isso é só um começo. É uma música psicodélica, que pode trazer riffs de guitarra evocativos, linhas cósmicas de sintetizador, e fazê-las flutuar sobre harpas de boca processadas, blips e blops de eletrônica analógica, inusitados instrumentos de cordas e daí por diante. Essa psicodelia, no entanto, não se perde na indulgência do espaço extensivo – a saber, as infinitas jams –, mas se farta na mudança de climas, numa lógica de vinhetas cumulativas centradas menos na progressão do que na manutenção de certos padrões, rítmicos ou melódicos, enquanto apenas uma linha se desenvolve (solando ou desaparecendo e reaparecendo).

Ullakkopalo, assim como os outros discos do Kemialliset Ystävät que ouvi (certamente menos da metade da discografia do projeto), tem pontos fortes e fracos bastante definidos. A principal força é a riqueza e distinção do universo sonoro, um manancial de sons e atmosferas de que eles se aproveitam com variações sempre precisas e imaginativas, jamais dando a impressão de que estamos ouvindo a mesma ladainha. Por conta disso, a audição do disco é fluida e nada cansativa, impressionando seja pelos aspectos surrealistas seja pelo precioso trabalho de timbres e arranjo do grupo, deliciosamente infantis mas nunca o suficiente para recair no pitoresco (ouviu, Pato Fu?). O ponto fraco, talvez um corolário do próprio modo de composição do grupo, é a ausência de faixas mais marcantes, dessas que se instalam determinantemente em nossas percepções. É uma música de audição ao mesmo tempo doce e audaciosa, mas cujo aspecto “laboratório de experimentação” provoca mais a empatia do que a entrega intensa que suscitam as obras-primas. Mas isso é só uma observação pontual, e exterior ao disco: no mundo inventado pelo Kemialliset Ystävät, eles são senhores absolutos e mestres de seus sons, e é sempre um privilégio poder adentrar por algumas audições, entra ano sai ano, num disco deles. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 7 de setembro de 2010 por em experimental e marcado , , .
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