Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Sufjan Stevens – All Delighted People EP (2010; Asthmatic Kitty/Bandcamp, EUA)

Sufjan Stevens é um cantor, compositor e multi-instrumentista americano nascido na cidade de Detroit. Lançou nove álbuns desde o ano 2000, sendo que os de maiores repercussão foram aqueles originalmente dedicados a uma série de álbuns-homenagens aos estados norte-americanos (o que depois foi desmentido). Dessa série saíram os álbuns dedicados a Michigan e Illinois (esse último foi objeto de apreciação da Camarilha), além de dois álbuns de supostas sobras de estúdio. Depois de uma sequência vertiginosa de álbuns, Stevens se retirou do centro das atenções, colocou dúvidas sobre seu desejo em continuar compondo álbuns, lançou uma caixa de canções natalinas, compôs a sinfonia The BQE em comissão para a Brooklyn Academy of Music e em 2010, sem muito alarde, lançou o falso EP All Delighted People que inicialmente foi disponibilizado no formato digital através do site Bandcamp e deve ser lançado até o fim do ano no formato físico. Stevens também prometeu o lançamento do álbum The Age of Adz em 12 de outubro. (M.M.)

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Sufjan Stevens é um fanfarrão. Promete saga de álbuns dedicados a cada um dos estados americanos; associa sua imagem ao banjo e faz disco eletrônico.; é menino católico e mesmo embalado em excesso de doçura escreveu algumas das melhores letras da última década, algumas cheias de ambivalências.; agora ele lança um EP que dura quase uma hora e já promete um novo disco para o final do ano, um disco eletrônico.

All Delighted People não traz muita coisa nova em termos de composição e mais parece um veículo para a faixa título, apresentada em duas versões fundamentais. Se juntarmos a “Original Version” e a “Classic Rock Version” temos quase vinte minutos onde nem um segundo é excessivo. Na verdade, as faixas chegam a ser pedantes dado o exibicionismo criativo que comportam. Em 2010, e na verdade em muito tempo, apenas Joanna Newsom pode competir na categoria “canção longa”. Stevens emprega passagens calmas e outras poderosas sem cair na cansada formula lento/rápido. Enquanto a letra passeia por imagens apocalípticas, referências a Paul Simon e se equilibra entre a melancolia e o desespero, a melodia constrói com simplicidade um verdadeiro épico envolto em tédio. A longa trajetória da música é povoada de rompantes de guitarra, coros, barulhos eletrônicos e tantos instrumentos que o banjo de Sufjan se assimila a uma bengala servindo de apoio na travessia de seu inferno pessoal. Mais ainda, o papel dos vocais de Stevens em momentos de contido derramamento é demonstrativo de uma crescente confiança no poder de sua voz, que ganha mias expressividade ao fugir da mera doçura. Apesar da menção ao apocalipse, uma referência mais precisa seria a de um “passeio” pelo limbo, dada a sucessão de imagens apresentadas como verdadeiras estações. A versão “Classic Rock” simplifica muitos desses mecanismos, enxuga a faixa e ganha em contundência e pegada: Sufjan está pronto para os estádios.

No entrecho até a segunda versão temos algumas faixas de Stevens em seu modo clássico, com belas e tímidas melodias ancorando canções cada vez mais delicadas e complexas. Enquanto a garotada curte Band of Horses, Arcade Fire, The National, Akron/Family, Decemberists e sei lá qual outra bandinha do momento (passei à vontade pelos arquivos de seu site indie favorito), o jogo de Sufjan está em outro nível e sua formação clássica mostra maestria em momentos como as repetições de “Arnika”, uma faixa que mais uma vez revela seu privilegiado ouvido para o emprego de jogos minimalistas.

Quando se fala sobre All Delighted People EP,  o foco das discussões sempre parece residir nas versões de “All Delighted People” ou no excesso de “Djohariah”.  As menções ao tesouro escondido, no entanto, parecem ligeiras, e eu diria que se alguém precisar ouvir apenas uma faixa de All Delighted People, escute “From The Mouth Of Gabriel”. Ali está justificada toda celebração em torno de Stevens: aqui novamente temos um minimalismo reicheano que serve de lastro a uma das mais pungentes composições de Stevens, enquanto a letra desfia sua reflexão sobre temor a Deus, Gabriel e toda sorte de dúvida e hesitação.

Chegamos à malhada “Djohariah”: 17 minutos onde abundam indulgência, solos de guitarra com todos os efeitos e excessos que Stevens desejou. A posição dela no disco me fez lembrar de “This Dusk Makes That Mud”, do primeiro disco do Liars, faixa que parece preencher o espaço do final do disco e também parece mais uma carta de intenções que uma composição que faça frente ao melhor da banda. Essa não é exatamente o caso de “Djohariah”, vez que ela extrapola alguns procedimentos caros a Stevens, e até por que, se você ultrapassa o desafio dos primeiros treze minutos da faixa, que não são nada sacrificantes, e escuta a entrada de um lindo beat pulsante, você para e pensa: “puta que pariu, esse cara é uma benção” e daí entram orquestrações com metais, percussão de palmas e precisos arranjos vocais. Talvez a faixa seja indulgente, ou talvez ela nos defronte com coisas mais ricas, a escolha é de quem ouve. O certo é que Stevens mostra que, apesar de já ter estabelecido sua marca, as possibilidades de suas composições são um universo em expansão. E não posso terminar de outra forma que não seja levantando as mãos. (Marcus Martins)

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E Sufjan Stevens, depois de ter sua música no nefasto Pequena Miss Sunshine, agora tem sua “Chicago” adornando um comercial do Bradesco. Podemos tomar esses dados por seu valor de face e considerá-lo como um autêntico garotinho indie com pendor para adoráveis melodiazinhas melancólicas arranjadas com instrumentos incomuns para a música pop (como Andrew Bird ou Owen Pallett) ou podemos simplesmente ouvir a música e ouvir o que ela, não sua repercussão, nos diz. Decididamente Sufjan Stevens não é um artista redutível a clichês, nem à combinação de dois ou três deles (digamos, folk fofinho + arranjos baroque pop). Trata-se de um compositor que consegue associar um enorme  e pessoal feeling a um exímio talento para a composição que bebe de arranjos clássicos tradicionais (corais, arranjos de cordas e metais), eruditos do séc. XX (minimalismo em particular), folk e indie pop. Sua música tem um indisfarçado gosto pelo grandioso, pelos momentos catárticos, que se intercalam com momentos de uma vulnerabilidade quase incômoda de tão doce e adorável. O que o salva de soar como um pastiche não são as eventuais audácias de arranjo, mas sua real entrega aliada ao talento em nos guiar pela duração até a faixa chegar em clímaxes intensamente emotivos e absolutamente naturais à estrutura das composições.

“All Delighted People”, a faixa que se repete duas vezes e que dá título a esse longo EP, parece uma suma de Sufjan Stevens em todos seus excessos. A faixa funciona como se Stevens quisesse compor uma faixa de Ys em seu próprio estilo, com senso narrativo, alternando momentos de calma e picos de intensidade. “All Delighted People” é um acerto formidável, é fácil uma das melhores composições de Stevens, usando e abusando da dramaticidade de seus elementos de arranjo prediletos (coro em especial) e alternando soberbamente doçura com impacto grandiloquente. All Delighted People EP mostra com clareza a enorme força de Sufjan Stevens em lapidar melodias marcantes, de teor emocional e ainda assim invulgar. Se em “All Delighted People” a força das melodias é amplificada pelo arranjo burilado, em “From the Mouth of Gabriel” ela aparece com toda sua força na primeira parte da faixa, em que temos praticamente piano e voz dando as cartas – a segunda parte, em oposição, é um verdadeiro evento em matéria de arranjo, com metais que parecem imitar passarinhos, pulsos rítmicos que evocam Steve Reich e um intenso momento de clímax. Sem qualquer exagero, essas duas faixas tornam qualquer disco um item absolutamente indispensável para qualquer um minimamente interessado em música – qualquer tipo de música. “The Owl and the Tanager” é voz, piano e coro, uma voz cheia de eco e Sufjan em seu modo mais delicado e emotivo, como um garotinho abandonado, com solfejos que chegam mesmo a lembrar a voz de Antony.

O fato de Sufjan Stevens chamar All Delighted People de EP deve-se um pouco ao aspecto de inacabamento do disco. A própria “All Delighted People” carrega um vocal pouco preciosista, com alguns solavancos de voz – o que, por outro lado, torna a faixa mais calorosa e mesmo impactante. “Djohariah” tem momentos geniais (o começo evoca “Cowgirl in the Sand” em modo gospel), mas não justifica o tamanho de sua duração. “Enchanting Ghost” não é particularmente muito interessante. E mesmo a segunda versão de “All Delighted People”, reformatada em modo “classic rock”, é mais uma curiosidade do que uma variação absolutamente essencial da versão original. Ainda assim, quando acabamos de ouvir o EP, nasce a pregnante percepção de que o disco é bem mais que seus três grandes momentos, e que até os momentos de maior descontração e menos intensidade fornecem ao disco um clima de despretensão que cai muito bem com a parte mais ambiciosa em termos de composição. Ao fim das contas, All Delighted People EP aparece como um disco majestoso, adorável em suas auto-indulgências e absolutamente devastador quando vai para o abate. Pode não ser perfeito de cabo a rabo, como Illinoise, mas seus grandes momentos igualam aquilo que há de melhor na carreira de Sufjan Stevens. Misturar nonchalance com extremo rigor é só para os gênios; e só vê nele um garoto propaganda quem escolhe de livre e espontânea vontade ser cego. (Ruy Gardnier)

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Quando os primeiros versos de “All Delighted People” soam, a primeira coisa que vem à cabeça é o fato de que a voz de Stevens se alterou consideravelmente, está mais grave, ligeiramente rouca e anasalada. Rapidamente esta percepção se esvai para dar lugar a uma atenção compenetrada, diante da exuberância das cordas que tomam aos poucos a bela canção, cujo andamento, denso e robusto, é pontuado por um naipe de trompas. E eu paro a descrição por aqui, pois “All Delighted People” provoca a percepção justamente através de um controle proeminente das variações, dos climas, dos volumes, timbres e intenções, conduzindo o ouvinte por uma sucessão de situações musicais peculiares.  Excesso e exagero são termos que podem soar apropriados neste caso, o que não significa que a faixa seja extravagante ou excessiva. A menos que com “excesso” estejamos nos referindo mais ao zelo com que o músico controla as nuances e a alternância de dinâmicas do que propriamente na excentricidade da composição – que de fato existe, mas é absolutamente conformada à composição, e não mero adorno. “All Delighted People” é uma faixa atômica, que prolonga de forma intensa o que Stevens vem fazendo em seus discos, e já valeria a audição deste “EP”, mas não pára por ai.

“Enchanting Ghost” já demonstra um Sufjan Stevens menos “atacado”, em conformidade plena com o artista de Michigan e Illinois, mas mantendo a indefectível habilidade de forjar canções ao mesmo tempo delicadas e complexas. “Heirloom” segue uma trilha semelhante, mais ligada à tradição folk a que ele se vinculou de maneira tão pessoa – desbancando inclusive queridinhos como Bonnie “Prince” Billy. “From the Mouth of Gabriel” tem aquela pegada country, onde se destaca o banjo que Stevens retomou e incorporou a uma estrutura pop, enquanto “The Owl And The Tanager” é carregada por um tom de hino religioso, outra especialidade da casa. “Arnika” é mais uma balada bem ao estilo de um compositor como Neil Young, mas cercada de notas improváveis e aclimatada em um arranjo curiosamente celestial. A imensa “Djohariah” encerra o álbum com momentos ao mesmo tempo arrebatadores e cândidos, belos de cegar o ouvinte, que simplesmente ignora sua duração abusiva.

Enquanto a empresa americana Verizon se dedica a martelar “From The Morning”, de Nick Drake, utilizando-o como jingle publicitário, o Bradesco fez o mesmo com “Chicago”, uma das faixas mais bacanas de Illinois. Mas não há de ser nada, pois como Drake, Stevens é um dos artistas mais inteligentes de sua época, poeta espertíssimo, compositor de mão cheia, arranjador ousado, antenado. Integra o primeiro time da música pop contemporânea. Após uma relativa pausa com álbuns autorais – o último, me parece, foi mesmo Illinois, além de trilhas sonoras, discos de outtakes e um indecifrável disco de Natal – este EP mostra que ele ainda é um artista a ser acompanhado de perto. Seus singelos sessenta minutos de duração nos remete ao problema do formato sobre o qual volta e meia tratamos aqui na Camarilha. Mas deixemos esta questão de lado com uma desculpa prosaica: se este excelente EP dura uma hora, o que devemos esperar de The Age of Adz, o novo álbum previsto para meados de outubro? Boas notícias, sem dúvida. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 8 de setembro de 2010 por em folk, pop, rock e marcado , .
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