Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Lee “Scratch” Perry – Sound System Scratch (Lee Perrys Dub Plate Mixes 1973 To 1979) (2010; Pressure Sounds, Reino Unido [Jamaica])

Lee Perry nasceu Rainford Hugh Perry, na cidade de Kendal, Jamaica, em 1936. Mudou-se para Kingston na juventude e foi dançarino e assistente de estúdio, ganhando progressiva atenção dos produtores jamaicanos. Em meados dos anos 60, inicia sua carreira como cantor e produtor, criando seu próprio conjunto instrumental (The Upsetters, com infinitas formações) e revelando uma série de artistas como Bob Marley & the Wailers, Junior Murvin, Max Romeo, entre muitos outros. Esteve na origem do reggae no final dos anos 60 e no fenômeno do dub no começo dos 70, sendo pioneiro de uma infinidade de práticas de estúdio. É reconhecido como um dos maiores experimentadores sonoros dos anos 70 e visto como um dos originadores da utilização do estúdio como um grande instrumento musical. Continua lançando discos até hoje, e seu último álbum é Revelation (Megawave, 2010). Sound System Scratch é uma compilação com diversas gravações inéditas, existentes anteriormente apenas no formato não-comercial dos discos de acetato, o dub plate.

* # *

O período após 1973 é um momento crucial na carreira de Lee Perry. É a hora em que ele monta o estúdio Black Ark no quintal de sua casa e deixa de experimentar com hora marcada nos estúdios dos outros. Ainda que, claro, o estilo inconfundível e a ostensiva prática de versões (aproveitamentos da base rítmica das faixas acrescidas de variações, vocais e/ou instrumentais) já estivessem em curso antes, o surgimento do Black Ark é o ponto de partida para a incansável e doidivanas curiosidade de Lee Perry atingir alturas estratosféricas. Sound System Scratch contém um pouquinho de tudo, desde a gaita envolvente de Augustus Pablo em “Lama Lava Mix One”, apenas um take diferente da faixa, até preciosidades que refazem a linha cronológica da bateria eletrônica no reggae, como “Chim Cherie”, de longe o maior destaque em termos historiográficos da coletânea. Não se espere perfeição técnica, som límpido e tampouco consistência curatorial: Sound System Scratch é um baú de preciosidades imperfeitas, experimentos fascinantes, ritmos insinuantes e nacos da enorme versatilidade criativa de Perry, que espantam tanto pela utilização criativa da mesa de som, pela quebra absoluta dos padrões de audibilidade vigentes à época (instrumentos soando bizarramente metálicos, equilíbrio de graves, médios e agudos desavergonhadamente violentado) quanto pela intensa beleza de timbres do resultado final.

Perry é um homem de ideias. Sua particularidade de não-músico faz com que a genialidade de suas composições apareça não nas estruturas, sempre simples, mas em dois aspectos que ele trabalha como um obstinado: um, a atmosfera geral de cada faixa (algo que ele eleva, sabe-se, a termos quase metafísicos de afinidade eletiva); dois, os detalhes que preenchem cada composição, sejam eles inserções alucinadas (sons de animais, coisas quebrando e barulhos quetais), uso de mesa de som (entrada e saída de canais, equalização criativa) e de efeitos (eco, reverb), ou adições percussivas que intensificam a pegada rítmica. Por conta dessa sensibilidade tão particular, as inúmeras versões dos mesmos riddims (as bases) acabam tendo sempre uma individualidade, e cada corte final ganha um interesse especial.

Falar sobre um disco de dub, e especificamente um disco de dubs e versões de Lee Perry, fica incompleto se não nos referirmos aos detalhes. Como produtor popular à procura eterna de hits, Perry sabia identificar um gancho delicioso quando via um, e trabalhá-lo de modo a intensificar seu poder emocional. Em Sound System Scratch a prova (para quem precisasse) vem dos dubs de “Bucky Skank” e “Big Neck Police” (essa última feita na mesma base da clássica “Dreadlocks in Moonlight”, com coro adicionado), respectivamente “Jucky Skank” e “Big Neck Cut”, com melodias pulsantes e vivazes de apelo imediato. Ambos os dubs trabalham ostensivamente com o procedimento costumeiro do gênero de retirar os vocais e reinseri-los apenas como pinceladas, mas o destaque é para o resto do tratamento: em “Jucky Skank”, a fabulosa guitarra rítmica que passa em primeiro plano e é adornada pelos atabaques, em “Big Neck Cut” os ecos volumosos do coro, os aparecimentos e desaparecimentos da guitarra, os ecos infinitos de alguns pulsos sonoros. “Locks in the Dublight” e “Moonlight Version” são ambas feitas em cima de “Dreadlocks in Moonlight”, com a guitarra passando por um filtro que a faz soar como um wah-wah do espaço sideral. “The Rightful Organiser” é uma versão econômica e abafada de “Dub Organiser”, quase unicamente baixo, efeitos sonoros e a voz de Perry zombando de Augustus Pablo e  de outros que pegaram seus riddims para lançar versões próprias (“Upsetter make it better”, ele diz). Vale menção também a duas faixas instrumentais dos Upsetters que aqui vêm juntas com seu próprio dub, “Zeal of the Lord” e “Groove Rider”. E afora o pioneirismo na utilização de bateria eletrônica em “Chim Cherie”, é fundamental lembrar que a faixa é muito mais que uma simples curiosidade, com um riff de teclado absolutamente contagiante e uma sonoridade geral única.

Vindas de cópias de má fidelidade, as faixas em geral apresentam uma leitura com chiados dos agudos, em geral pratos de bateria (o que, por outro lado, torna-se um charme, como em “Dub Plate Pressure”, em que o prato de condução parece um prato de comida de tão metalizado que soa). Mas esse é o único senão de um disco totalmente obrigatório para os que acompanham a carreira de Lee Perry ou para quem se interessa pela história da criação sonora via estúdio – pela qual o dub passa como um capítulo decisivo –, além de ser uma belíssima audição para curiosos em geral. São vinte faixas que deixam pedindo mais… (Ruy Gardnier)

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Está longe de ser uma novidade que Lee Perry não é bem o arquiteto primordial, mas aquele que apresentou uma visão tão particular do dub que se tornou sua referência máxima. Técnico virtuose e comparsa dos grandes engenheiros jamaicanos dos anos 50 e 60, como King Tubby e “Coxsone” Dodd, Perry soube aliar técnica e criatividade como nenhum outro, mesmo se compararmos com os artistas que foram influenciados por ele, e que, também como ele, alteraram  consideravelmente o gênero. Duas questões básicas orientam esse veredito. Primeiro, ele foi o primeiro a promover e sublinhar o trabalho em estúdio de uma concepção meramente documental para outra, essencialmente criativa. Entretanto, quando alguém se refere a essa tal criatividade, acaba isolando os aspectos ligados à mesa de som e esquecendo de citar que Perry contribuiu também com uma concepção musical híbrida, que une tradições musicais jamaicanas e americanas, particularmente o soul e a percussão Nyabingui. A presente coletânea, que traz uma série de faixas inéditas em disco, executadas apenas por sound systems jamaicanos, testemunha um momento curioso na trajetória de Perry, quando as inovações técnicas se encontram perfeitamente integradas a uma modificação profunda no modo de se compor e tocar o reggae. Basta dizer que os irmãos Carlton e Aston Barrett, respectivamente bateria e baixo dos Wailers, desenvolveram a pegada “rock steady” característica do reggae da década de 70, nas sessões realizadas com Perry. Para que seu irmão pudesse “funkear” mais no baixo, Carlton ralentou o ritmo, intensificando certas notas e arrefecendo outras.

Os álbuns que coincidem com o período em que ele finaliza o Black Ark, testemunham, de fato, que “quanto mais confortável Perry se sentia em seu novo estúdio, mais estratificado e excêntrico se tornava seu som” (Veal, 2007). Álbuns como Cloak and Dagger e Kung-Fu meets the Dragon trazem não somente sua confirmação plena, como também remetem ao seu processo criativo, notadamente a tendência em adicionar camadas e excertos à exaustão, ao invés de trabalhar, como seu mestre King Tubby, segundo uma técnica minimalista, que consistia em calar certos canais e alterar os instrumentos por vias eletrônicas – o dub “clássico”, com ênfase no baixo e na bateria. Perry criava suas faixas através de uma miríade de interferências, inserções e efeitos, enquanto Tubby, Dodd, entre outros, se pautavam na economia e no minimalismo, preservando a faixa de interferências muito radicais, do ponto de vista da estrutura. Por vezes, suas faixas eram comparadas a colagens sonoras, tamanha a impressão de algo estruturalmente planejado e, sobretudo, inusitado. Muito desse espanto vinha do fato de que a maioria das inserções, mesmo as mais ruidosas, não sobressaíam somente por sua pronunciada artificialidade, mas sobretudo pelo caráter rítmico que Perry imprime até mesmo sobre os instrumentos harmônicos. É esta a maior qualidade de sua música, plenamente contemplada nesta coletânea: decretar o fim de categorias como o acústico e o eletrônico, o harmônico e o ruído, o ritmo e a melodia. Nenhum desses conceitos fazem sentido na obra de Perry de forma isolada, como uma palavra de ordem, um conceito inegociável. A música de Lee Perry, e ainda mais neste período, se realiza na indistinção entre o que é melodia e o que é ruído, na região limítrofe entre o noise e a música. Estas características se acentuam admiravelmente no período do Black Ark.

Pois é bem deste período as faixas que integram a presente compilação, compostas e gravadas entre 1973 e 1979, até que a loucura o acometesse de forma súbita e inesperada, levando-o a escrever palavras incompreensíveis por todo o estúdio, e ateando fogo na “arca negra”. Nem todos os riddins desta coletânea foram lançados oficialmente, portanto trata-se de material “novíssimo”, que testemunha a fase mais criativa de Perry. O que me parece muito curioso é que após cristalizar seu som, nos idos de 1976, radicalizando experiências que havia iniciado sob o olhar relativamente distante de King Tubby, Perry encabeçou alguns hits, como “Polices and Thieves” (com Junior Murvin) e “War Inna Babylon” (com Max Romeo), entre outros. Mas esta Sound System Scratch traz o que de mais experimental e radical ele produziu no Black Ark, motivo suficiente para que saudemos e comemoremos esta coletânea como o acontecimento mais importante do ano na seara do dub. Mesmo se considerarmo Revelation, seu último e ótimo álbum. (Bernardo Oliveira)

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Um comentário em “Lee “Scratch” Perry – Sound System Scratch (Lee Perrys Dub Plate Mixes 1973 To 1979) (2010; Pressure Sounds, Reino Unido [Jamaica])

  1. naco
    8 de maio de 2012

    valeu big up

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Publicado às 15 de setembro de 2010 por em dub, reggae e marcado , .
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