Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

DJ Nate – Da Trak Genious (2010; Planet Mu, Reino Unido [EUA])

DJ Nate é Nathan Clark, um jovem produtor de 20 anos de Chicago. Milita há alguns anos na cena de Juke, um tipo de música para dançar hiperacelerada que bebe de house, r&b e hip-hop. Gênero ainda subterrâneo, o Juke existe basicamente através de festas e gravadoras de mp3, sem lançamentos físicos de CD ou vinil. Mike Paradinas, o artista por trás do projeto eletrônico μ-Ziq e dono do selo Planet Mu, encantou-se pelo gênero, ou melhor, por algo que ele considera uma variante do gênero, o Footwork. Em agosto, a Planet Mu lançou Hatas Our Motivation, um EP com cinco faixas de DJ Nate, e em setembro lançou Da Trak Genious, uma compilação com 25 faixas do artista. (RG)

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Da primeira vez que a gente ouve DJ Nate, se instala rapidamente a dúvida: gosto mesmo disso? é fantástico ou irritante? é bom porque é exótico, absolutamente alienígena, ou existe um fundo de feeling por trás disso tudo? Num segundo momento, surge talvez a questão mais pertinente: como é que os dispositivos e as estratégias sempre se repetem, com intervenções que no fundo são até meio simplórias, e mesmo assim essa música continua soando incrivelmente fresca, necessária, atual, vibrante? Esse é o dilema, e, a meu ver, um dilema intransponível: o garoto claramente tem talento para escolher seus samples e trabalhá-los, e uma enorme audácia em trabalhá-los em padrões extenuantes de repetição que provocam padrões rítmicos complexos; ainda assim, apenas somar isso tudo parece não fazer jus à intensidade da percepção quando se ouve um punhado de faixas de DJ Nate. A prova parece inefável. Mas o entusiasmo não.

DJ Nate não é um exemplo perfeito de Juke. Sua música é muito mais sincopada, selvagem, abrasiva. Se o Juke é happy hardcore, DJ Nate é Venetian Snares ou Kid606. Mas as comparações ficam por aí. Ainda que a música de Nate imponha à dança a aparência de um choque de zilhões de volts, ainda assim é uma música feita para a dança. Ainda que pareça o Eric Copeland brincando com um lote de disquinhos de r&b e pop, o objetivo é criar padrões rítmicos inusitados e complexos para as evoluções dos dançarinos. A questão aqui não é de utilitarismo, mas de diferença: a música de DJ Nate tem o frescor de soar autenticamente como vanguarda e ainda assim estar inserida num contexto de fruição, uma comunidade (se de gueto, se subterrânea, pouco importa) que estabelece para o artista os pilares da construção de sua obra. Isso dá à música de Nate uma organicidade inexistente nos trabalhos de outros experimentadores mais livres, e essa força de coesão é algo que chama a atenção em Da Trak Genious.

Já ouvimos muitas das coisas presentes nas 25 faixas de Da Trak Genious. As linhas de subgrave vêm do dub e do hip-hop, as timbragens de bateria eletrônica vêm de eletrônica old-school e mesmo os acionamentos sincopados de loops são coisas que nosso próprio funk carioca já utilizou ostensivamente. O que há de novo em DJ Nate não é nem a junção de tudo isso. É a criação de uma música estranha, ao mesmo tempo acelerada e desacelerada, ao mesmo tempo cheia de pressão e sem pegada, jamais cheia em termos de preenchimento das frequências nos ouvidos. O fato de trabalhar com samples de música pop imprime à sensação geral um clima de pirataria generalizada que só ajuda: DJ Nate é uma rádio-liquidificador que captura trechos de Marvin Gaye, de Evanescence, de John Carpenter, de muitos outros, e os retrabalha alterando a frequência indo do hipergrave ao hiperagudo e os emoldura em batidas insanas cheias de quiálteras no modelo começa-para-começa e loops de vocal que servem para intensificar a complexidade rítmica.

Dada a profusão de ideias geniais e a relativa homogeneidade de procedimentos das faixas de DJ Nate, fica difícil selecionar faixas de destaque. Cada uma, a seu modo, traz seu charme e revela uma faceta. Num conjunto de 25 faixas e 70 minutos, o grau de redundância é relativamente pouco para um artista que emprega um número relativamente pequeno de procedimentos. A preferência, nesse caso, vai para as faixas que parecem explorar um maior número de possibilidades internas à escolha dos samples, repicotando por sobre o sample, recolocando-o em frequências radicalmente distintas, e nesse caso ficaríamos inevitavalmente com “Hatas Our Motivation”, com a polifonia de “A+ Mayhem” e com o trabalho extended de “Poetry”, única das faixas a ultrapassar a marca dos quatro minutos (a maioria se resolve entre 2’30” e 3′). Pode ser só a originalidade desse som diante do que vemos no horizonte, ou pode de fato ser o surgimento de uma sensibilidade absolutamente única. Essa decisão pode ficar pro futuro, já que não precisamos desse tipo de escolha para desfrutar a música nesse momento. O principal é que poucos discos se ouvem de maneira tão vital, tão urgente, tão “isso pertence a meu tempo” quanto esse Da Trak Genious atualmente. (Ruy Gardnier)

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O frescor do Juke não pode ser comparado com o frescor do artista que encabeça esse álbum. São coisas diferentes que merecem tratamentos diferentes. Da mesma forma como somente tempos depois nos apercebemos da peculiaridade de Burial em relação ao dubstep, que não impediu que ele emergisse circunscrito a esse contexto, o mesmo ocorre com DJ Nate: ele não se reduz ao juke e isto fica evidente quando, embevecidos pela novidade, acabamos correndo atrás de outros artistas que operam na mesma seara. E, de fato, Nate é especial. Se podemos caracterizar o juke como uma música orientada para o footworkin’, a dança característica do gênero, e se, como shangaan e o bubu africanos, essa dança requer uma aceleração radical dos patterns (chegando às vezes a 160 BPMs), cabe então compreender em que sentido a música de Nate se diferencia da grande maioria dos produtores do gênero. A velocidade é comum a todos, mas Nate se destaca por alguns motivos.

Enquanto a maioria dos produtores do juke apostam na regularidade do ritmo, na equalização quase respeitosa do baixo, da bateria e dos samplers, Nate esbanja talento na estratificação e destaque parcial destes elementos. Em vários momentos percebemos que ele cria um jogo super frio e estratégico de adição e subtração de graves, vozes e percussões, predicando diversas vezes aos sons mais melódicos a orientação do ritmo. Ao mesmo tempo, Nate se esmera em criar fluxos de repetição que dialogam de forma admirável dentro das faixas, notadamente com as vozes, criando uma atmosfera que poderíamos batizar provisoriamente de serial – sim, pois num certo sentido, as faixas de Da Trak Genious são constituídas por estes fluxos, combinados virtuosamente, segundo a dinâmica de adição-subtração apontada acima. Uma outra característica curiosa é que, mais que qualquer outro produtor do juke ou de seu primo-irmão, o guetto house, o trabalho de Nate é permeável às diversas inflexões do R&B e até mesmo do Miami, não no ritmo, como era de se esperar, mas nos aspectos melódicos e harmônicos. Vozes, coros, refrões são marcados por esta característica que confere um sabor estranho às faixas, como se estivessemos diante de um minimalismo juvenil e, apesar da pouca idade, maduro e assertivo.

Assim como cultuamos hoje álbuns como Timeless e Burial, penso que Da Trak Genious é uma espécie de marco inicial, não de um gênero, mas de um artista. Tem-se a certeza deste pioneirismo, bem como de sua contundência, assim que começa “Back Up Kid”, com sua introdução especialmente lenta e adocicada, rachada ao meio por uma saraivada de graves, lembrando o wonky em alguns aspectos. Na sequência, a sonoridade mais seca e sombria de “U Ain’t Workin Wit Nuthin” mostra que a paleta de Nate é mais heterogênea do que seu minimalismo pode fazer supor. Natural que a partir da décima música nos perguntemos até onde é possível chegar diante de tanta testosterona, alimentada pelo caráter ensandecido das repetições. Justamente quando entram faixas tão saborosas como “3 Peat” e seu vocal subaquático, a frenética “Let Me Show U Girl” e a versão inacreditavelmente dessensualizada de “Sexual Healing”. Todas preenchendo os ouvidos e a mente de uma tenebrosa perturbação, que se transforma em delírio puro calcado em repetições abusivas, percussões eletrônicas extremamente sintéticas e uma vitalidade de fazer inveja ao mundo dos “critical beats”. E tudo isso concebido pela cabeça de um pirralho de 20 anos, cujo epíteto “promissor” não parece fazer justiça a sua criatividade. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 16 de setembro de 2010 por em eletrônica e marcado , , , , .
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