Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Sir Richard Bishop – The Freak of Araby (2009; Drag City, EUA)

O guitarrista/violonista americano Sir Richard Bishop, também conhecido como Rick Bishop, nasceu em Phoenix, Arizona (EUA). Com seu irmão Alan Bishop e Charlie Gosher, Bishop fazia parte do lendário trio americano Sun City Girls, notável por sua irreverência anárquica e pelo flerte com diversas tradições musicais não-ocidentais. Em 1998, lançou seu primeiro disco solo, Salvador Kali, pela gravadora Revenant, do violonista John Fahey. A partir de 2003 deslanchou sua carreira como artista solo, lançando por vezes mais de um álbum por ano. Em 2007, além de Polytheistic Fragments, lançou também While My Guitar Violently Bleeds. Junto com The Freak of Araby, lançou uma série de CDRs contendo apresentações, extras, etc. (RG/BO)

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Quando tento puxar pela memória os álbuns de Sir Richard Bishop, não me lembro de LP tão comportado e apolíneo como The Freak of Araby. Não é nem de longe o disco mais irreverente do autor, nem mesmo o mais experimental. Mas o que impressiona na música que esse sujeito produz, bem como a de projetos em que ele está direta ou indiretamente envolvido, é a capacidade de expressar paradoxos e sínteses inusitadas sem deslumbramentos de catedrático. O cara é competente, mas nunca se vale dessas credenciais para destilar auto-indulgência, nunca arrefece o cuidado com seus temas, arranjos e composições. The Freak of Araby é um disco exemplar nesse sentido. Como guitarrista, Bishop é virtuoso, mas tem a humildade de executar notas simples quando a música pede. Ele é bem humorado, por vezes até jocoso, mas nunca palhaço. Ele mistura a música africana e oriental a um vocabulário essencialmente roqueiro, sem que pareça uma apropriação ingênua e oportunista. E tudo isso, como afirmei acima, em um álbum que, na comparação, perde para While My Guitar Violently Bleeds e Polytheistic Fragments em termos de experimentação.

O que sobressai em The Freak of Araby é o talento de melodista e compositor, mais que o de experimentador anárquico e irônico. Dez temas arranjados com simplicidade, utilizando percussão, contrabaixo, além da guitarra e da participação de músicos árabes, mas repleto de detalhes e dinâmicas de arranjo e um estilo de aproximação com a música árabe bastante semelhante ao do genial Sun City Girls. Por vezes, esta aproximação soa fake, mas aí que está o barato: é porque Bishop consegue se equilibrar admiravelmente na corda bamba da referência e da apropriação, que uma faixa como “Solenzara” pode ser vista como um produto curioso e interessante e não somente como um pastiche que mistura os maneirismos árabes com uma levada de bolero. O mesmo podemos afirmar de “The Pillars Of Baalbek”, “Kaddak El Mayass” (que mistura escalas árabes com um clima de faroeste) e a soturna e misteriosa “Enta Omri”. O caráter fake com que ele se utiliza das escalas árabes acaba adquirindo um aspecto curioso, como se ele assumisse que sua aproximação com esta música é apenas folclórica – que de fato é – e a partir daí estivesse liberado para trabalhar diversas possibilidades abertas por essa tradição musical. Este procedimento, sem dúvida, é uma marca do trabalho de Bishop.

As últimas duas faixas trazem sonoridades mais afinadas com a discografia de Bishop, não são constituídas apenas por temas, mas comportam climas, improvisações com efeitos e percussões. São igualmente apreciáveis e não destoam em nada do álbum, o que não é de se admirar: se Bishop e The Freak of Araby possuem virtudes, elas são as mesmas, comportam diferenças e tensões aparentemente antagônicas, sintetizadas com força criativa e sotaque próprio. (Bernardo Oliveira)

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Rick Bishop, antes de se autodenominar “Sir”, era associado – com toda propriedade, diga-se – ao vandalismo sônico, às colagens dadaístas, à expressão automática assemelhada à escrita surrealista, transformando absolutamente todo tipo de recorte sonoro em objeto de interesse. Uma parte desse “todo tipo de recorte sonoro” envolve extensivas pesquisas por sonoridades dos recantos mais distantes do globo, sem distinção de curiosidade entre música autóctone e música pop alimentada de influências estrangeiras. Essas pesquisas, aplicadas às sonoridades e eventualmente ao repertório do Sun City Girls (incluindo uma versão de “Lambada”, do Kaoma, com letra inventada, em Torch of the Mystics), davam ao conjunto dos irmãos Bishop uma sonoridade ainda mais alienígena, idiossincrática e doidivanas, como se a banda fosse uma multiantena reenviando zilhões de vibrações contraditórias simultaneamente.

Aqueles que ouvem Rick Bishop em carreira solo certamente perceberão a guinada. É um homem e seu violão, jamais abrasivo, às antípodas da filosofia anything goes de seu antigo grupo. Mesmo nos discos menos calminhos, como While My Guitar Violently Bleeds ou o compacto Plays Sun City Girls, “intenso”, “coeso” e “introspectivo” seriam adjetivos muito mais adequados que “catártico” e “delirante”. Doravante renomeado Sir Richard Bishop, ele é um compositor de melodias luminosas, fluidas e espaçosas, bebendo tanto de folk americano quanto de tradições de tocar violão vindas de outras culturas. Polytheistic Fragments, tanto no conceito quanto na realização, parece ser a realização máxima do artista até aqui, juntando raga, raízes americanas, free form e convertendo tudo em beleza límpida e clareza de construção. The Freak of Araby segue a mesma trajetória, só que agora focado no violão árabe, em especial no estilo de Omar Khorshid, considerado o maior violonista do mundo árabe. O resultado, no entanto, não é nem um songbook nem uma reinvenção, mas o vibrante espaço para a negociação de um diálogo entre o estilo polivalente de Bishop e as escalas, os modos e os fraseados da música árabe.

Das onze faixas, cinco são de Bishop e cinco são do repertório tradicional árabe, e a primeira forma de perceber o sucesso do projeto é que tudo se ouve na mesma fluidez, como se fosse uma coisa só. A segunda forma é notar como, sem o pandeirinho típico do acompanhamento árabe, quase todas as faixas estariam muito à vontade em Polytheistic Fragments, porque contêm o mesmo tipo de limpidez melódica sem excessos ou firulas, uma atenção estrita ao desenvolvimento e à melodia de cada peça, apostando mais no feeling que no freakout. Ao mesmo tempo reverente e desprendido, The Freak of Araby revela uma vivacidade absolutamente incomum num disco de homenagem, com fraseados vibrantes e solares, variações delicadas e uma atmosfera geral de celebração não do passado, mas da força da música em soar viva, vital, desrespeitando quaisquer fronteiras de tempo, espaço e mesmo contexto em nome de uma unidade maior que é a da inspiração e a da intercomunicabilidade da expressão. The Freak of Araby é uma prova exponencial disso e, para além de toda e qualquer coisa, é uma audição formidável, imprescindível. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 24 de setembro de 2010 por em Uncategorized e marcado , , , .
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