Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Psychic Ills – Astral Ocurrence (2010; The Spring Press, EUA)

Psychic Ills é uma banda de Nova Iorque formada por volta de 2003. Seus integrantes são Elizabeth Hart, Brian Tamborello, Tres Warren e Tom Gluibizzi. A música tocada pela banda varia a cada lançamento mas o estilo pode ser definido genericamente como psicodélico. A banda já tocou com nomes como Melvins, Boredoms, Indian Jewelry, Ariel Pink, entre outros. Astral Occurrence é o sexto lançamento da banda entre álbuns, singles, eps e uma coletânea. Após isso, ainda em 2010, a banda lançou outro disco, denominado Catoptric. (M.M.)

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Decidir escrever sobre este disco foi algo quase fortuito. Cheguei mesmo a me perguntar o motivo de tal escolha. Astral Occurrence é um disquinho de menos de trinta minutos que não parece ter muitas pretensões: um pouco de viagens ao modo de John Cale, mantras psicodélicos e um preguiçoso e entorpecido vagar em cada motivo, uma vontade de ficar por ali sem se pretender minimalista, apenas porque parece que não há muito mais o que fazer, lugar algum para ir que não seja dominado por toda uma turba barulhenta. Transe sem epifania.

Aí parei e pensei que isso não era pouco, tinha algo ali para valorizar. É certo que não se trata de um candidato a álbum do ano ou um disco para fundar uma nova linhagem de afetações. Tanto melhor. O Psychic Ills parece ser daquelea ocorrências pouco notadas, uma daquelas criaturas que escolhem um canto para habitar e se contentam com as sombras, talvez à espera de que alguém olhe ali e tenha surpresa ao descobrir que aquela insignificância pode lhe proporcionar algo pequeno mas singular.

Drone e psicodelia. Alguém falou que a banda soa como o Agitation Free aquecendo antes da apresentação. Me lembrou um pouco a demo tape do Velvet Underground antes do Velvet Underground & Nico sem o violino do Cale. Mas o que me parece é que eles pegaram em Astral Occurrence um minúsculo adendo de uma ponto obscuro da história da psicodelia e tomaram por uma carreira. Muito se falou no início da carreira da banda de maravilhosas possibilidades, mas a cada novo disco essa expectativa se viu mais frustrada e improvável. Discos insulares, faixas que não exatamente começam, mais parecem que em algum momento de uma longa sessão alguém ligou o gravador, deixou ligado por alguns minutos e depois desligou. Ainda assim, as faixas não exatamente terminam, cada uma das quatro faixas se comunicam, compartilham temas e preferências.

E o disco não é mais que a concretização do título: ocorrências, astrais, que sejam, mas ocorrências naquele determinado período em que foram registradas. Parece menos obra que registro e isso não implica em fortuidade estética; é mais que evidente que a banda segue escolhas bem estritas, especialmente sobre o que não fazer, o que suprimir e, claro, onde demorar.

Esses vinte e nove minutos poderiam ser vinte e nove horas, mas isso seria quase um manifesto para uma banda que diz muito pouco. Guitarra, baixo, bateria e vocais que às vezes parecem ser de alguém que estava falando durante a gravação, longe do microfone, sem se preocupar em fazer muito sentido.

Mas não se engane, tudo isso é fabricado e esse é o verdadeiro mérito da banda. De nada vale gravar em um cassete 4-track enfiado em um porão sujo, muito maior é passar essa insignificância como escolha estética, o triunfo está na consciência de que tudo isso é muito pouco e desse nada você faz seu mundo. (Marcus Martins)

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“Second Sight” merece todos os elogios possíveis. Se você ouviu os compactos recentes de U.S. Girls (Lunar Life) e Forest Swords (Rattling Cage), e se já conhece um bocadinho de Sun Araw, entenderá perfeitamente o território: uma música incrivelmente espaçosa, uma única linha melódica repetitiva e convidativa à viagem, saturação e efeitos sonoros que lembram ou até remetem ao dub porém em chave roqueira. A julgar por Astral Occurrence, os Psychic Ills são a modalidade mais jamzeiro e stoner desse pessoal todo. A música evoca espaços esfumaçados, cortesia da névoa de efeitos na voz e nos instrumentos. A repetição domina e produz um singular estado de entorpecimento. No entanto o artesanato é simples: andamento lento, bateria sumária atacando apenas tontons, uma linha de baixo exígua, um sintetizador produz um drone entre raga e John Cale (pensar na viola elétrica de “Venus in Furs”), fraseados simples mas inequivocamente ganchudos de guitarra e uma voz intermitente tão cheia de eco que é praticamente impossível entender aquilo que se ouve.

Ao ouvir Astral Occurrence, fica óbvio que a lapidação está mais no conceito do que a banda deve soar do que na execução ou na composição. Não que ela pareça desorganizada: pelo contrário, está tudo ali no local certo e sem qualquer excesso. Mas, como o Om, com quem os Psychic Ills partilham o clima viajandão e o senso de economia, existe uma sonoridade específica à qual se almeja, uma “cara” que identifica a música do grupo que passa mais pelo conceito do que pela criação individual de faixas. Mas, ainda assim, se eles saem do mediano, é pelo acerto nas faixas, ou na faixa. Astral Occurrence é basicamente “Second Sight” com uns bônus que podem não ser descartáveis, mas passam tranquilamente por música de fundo. Com “Aldebaran” e “Sun Bath” (a quarta do disco é uma reprise de “Second Sight”) o Psychic Ills não se destacaria no meio de tantas bandas de drone/jam psicodélico. A volta a “Second Sight” no final só mostra o triunfo da faixa e sua superioridade em relação ao resto. No entanto, é meio descabido rebater uma faixa contra as outras, ao menos nesse caso: os Psychic Ills têm seu próprio tempo, um tempo lento, e eles mesmos parecem despreocupados em fazer “Second Sight” em série para preencher um disco. Eles seguem obstinados seu próprio ritmo, gravando o notável e o não tão notável assim, produzindo seu mantra ideal, seu som do infinito. O resultado final é consistente, mas um de seus pedaços alcança o absoluto. (Ruy Gardnier)

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Se há uma tarefa digna do maior apreço para qualquer indivíduo que se pretenda crítico em um sentido forte, é deslindar a trama de referências que as artes trazem hoje, no sentido de descobrir quem está de fato criando, quem está macaqueando, quem está querendo enganar. Eu redobraria esta tarefa: entre os que macaqueiam e enganam há muito de positivo a ser descoberto, como a rapaziada da costa oeste americana, que vive da contribuição do Prefuse 73. Também entre os sinceros e laborosos artistas das searas mais herméticas da música há muita enganação, muito embora eles se revistam de uma aura de serieade e pesquisa que mais denuncia do que reforça seus propósitos. O Psychic Ills é uma banda da segunda modalidade. Com uma meia dúzia de lançamentos, entre álbuns e EPs, este grupo oriundo de Nova Iorque faz um som que lembra as bandas do pós-punk, notadamente o Joy Division, turbinando as levadas lentas e climáticas com elementos eletrônicos e acordes de sintetizadores do kraut. Isso de forma um tanto quanto prosaica e simplória, que chegamos até ao ponto de pesquisar mais a fundo a biografia da banda para conferir se não se tratava de um projeto ressucitado. De qualquer modo, trata-se de uma audição curta, o que pode trazer algum prazer. (Bernado Oliveira)

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Publicado às 29 de setembro de 2010 por em experimental, rock e marcado , .
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