Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Jefre Cantu-Ledesma – Love Is A Stream (2010; Type Records, EUA)

Jefre Cantu-Ledesma é um multi-instrumentista e produtor americano, que além de lançar discos sob seu próprio nome, faz parte de bandas/projetos como Tarantel, The Alps, Colophon, The Holy See e Sea Zombies. Lançou obras por selos como Temporary Residence, Spekk, Digitalis, Students of Decay e Root Strata, do qual é co-fundador e por onde criou um espaço precioso para as experimentações com ruído, lançando discos de artistas como Yellow Swans, Grouper e My Cat is An Alien. Love Is A Stream pode ser considerado seu segundo álbum sob seu próprio nome, sendo The Garden of Forking Paths, lançado pelo selo Spekk, o primeiro. (M.M.)

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Às vezes alguns discos nos acertam em cheio. Eu já conhecia boa parte da obra de Jefre Cantu-Ledesma, tanto seus discos solo como sua participação em grupos como Tarantel e The Alps, e apesar de gostar especialmente de alguns discos solo como The Garden of Forking Paths, não posso dizer que se tratava de alguém que me causasse grande expectativa.

Assim, ouvir esse Love Is A Stream sem preparo foi um choque. Não diria que foi audição reveladora, mas a maturidade alcançada por Cantu-Ledesma neste disco é impressionante. Se pensarmos em outro bom disco dele como o Love Loops, de seu projeto Colophon, é fácil perceber que aqui ele abandonou diversos clichés da música experimental como a muleta dos field recordings e investiu pesado no burilar de sua máquina de ruídos.

No disco ouvimos o que se fez de melhor no noise-ambient na última década e ainda assim sobra bastante espaço para a demonstração de uma personalidade que se impõe e marca seu nome na melhor companhia de um Fennesz ou Tim Hecker.

As faixas têm estrutura parecida e consistem de camadas de ruído sobrepostas a melodias que funcionam como guia e centro das faixas. Podemos dizer que certo romantismo aflora em meio à massa de ruído e que se trata de um álbum conceitual no sentido de que Cantu-Ledesma busca através dos sons que criou o reflexo de um estado de espírito específico, pois se trata da representação de um amor turbulento: o amor ao som e em especial o amor àquele som aparentemente feio e que muitos desqualificam como barulho. Ele se dedica ao ruído que, sobreposto à melodia, lhe dá consistência e estatura; apesar de a corromper, a relação é entrópica e o resultado é uma terceira criatura.

O disco é uma verdadeira ode à capacidade de saturação emocional do ruído, bem ao gosto de outro grande disco de ruídos sentimentais que ouvimos em 2010, o Going Places do Yellow Swans. Mas, diferentemente de Going Places, a estrutura de Love Is A Stream é bem simples e se repete por todo o disco. Os elementos se sobrepõem e se embaralham, algo como uma mistura do Stars of the Lid com Kevin Drumm, estreitando o escopo do primeiro e aparando as arestas do segundo.

Um dos resultados disso é a criação de uma paisagem emocional de contínua excitação. Se o amor aqui é turbulento, ele está refletido na tensão entre os elementos e sua projeção sem apelar para os clichés do pós-rock, ou mesmo do shoegaze ao qual esse tipo de noise é constantemente associado.

Ouvindo o disco, lembrei da penúltima cena de Síndromes e um Século de Apichatpong Weerasethakul, em que a câmera passeia por corredores de um hospital até chegar em uma sala em obras, e aos poucos se aproxima de um tubo, uma espécie de aspirador-de-pó. Toda a cena é acompanhada por uma trilha perturbadora de crescente ruído que empresta a tudo o que vemos uma aura de mistério e principalmente de estranhamento que na música atual apenas o noise parece nos proporcionar, e acredito ser o que Cantu-Ledesma busca em toda sua obra, seja na densidade de Love Is A Stream, seja na fugacidade dos Love Loops de seu projeto Colophon.

Love Is A Stream é dos melhores discos do ano porque ele resiste a classificações simplistas e se preocupa menos em se mostrar inovador que criar uma obra sólida e de profunda ressonância. Uma celebração à capacidade de molde e criação do noise. (Marcus Martins)

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Love Is a Stream é lançado pela Type Records, e tem parte da cara desse selo. A saber, uma mistura do ousado contemporâneo com a solenidade do repertório sonoro do passado. Frequentemente isso se configura numa melancolia boba pós-Satie com algum auxílio luxuoso de computador (paredes de distorção, glitch, escolha sua modernidade). Em Love Is a Stream a ambivalência está presente na aplicação de acordes luminosos que concedem à música um aspecto “celestial” e na saturação de sintetizador que confere um aspecto de noise ao projeto. O resultado é francamente mais convincente do que Goldmund, Peter Broderick ou Rafael Anton Irisarri, mas ainda assim soa um tanto paradoxal, ao mesmo tempo edificante e abrasiva, autoimportante e singela, dura e mole.

O maior problema desse disco de Jefre Cantu-Ledesma, no entanto, não é esse. Mal ou bem, vários artistas já conseguiram muito bem fundir o abrasivo com o sentimental, criando audições emocionalmente calorosas e também sonoramente espantosas. O que mais incomoda é que em nenhum momento temos a sensação de estar ouvindo algo realmente singular. Em alguns momentos parece Fennesz, em outros parece Yellow Swans, em outros evoca Philip Jeck e em geral soa como Tim Hecker. Cantu-Ledesma até faz tudo isso com algum talento, contudo sempre para atingir as bordas da singularidade, jamais para ultrapassá-las. Love Is a Stream jamais chega a incomodar, mas suas doze faixas tampouco deixam qualquer marca pregnante: os clímaxes de saturação, as variações singelas, os efeitos vaporosos aliados aos melódicos já soam absolutamente digeridos e sem qualquer poder de surpresa. OK: seria então Cantu-Ledesma alguém que se apropria desses sons já estabelecidos mas os organiza e orquestra com um maior poder composicional ou de inspiração, à maneira do mestre? A falta de singularidada das composições responde em negativa. Love Is a Stream é morno toda vida e fornece a ligeiramente incômoda sensação de um eterno banho maria, minimizando o poder da música ambiente e domesticando o barulho em algo que não é um, nem outro, nem uma proveitosa fusão de ambos. (Ruy Gardnier)

2 comentários em “Jefre Cantu-Ledesma – Love Is A Stream (2010; Type Records, EUA)

  1. jorge
    11 de outubro de 2010

    Felicitacións polo blog!
    Recomendo “Shining Skull Breath” editado por Students of Decay tamén baixo o nome de Jefre. Máis na linha noise deste Love is A stream e se cadra máis noise. Na minha opinión entre mellor da súa carreira.
    Saúdos!

  2. gimu
    19 de outubro de 2010

    ola 🙂
    que legal seu texto! eu adoro o going places do yellow swans tambem. eu sou muito fã da type.
    deixei aí o end. do meu flog. sempre deixo algum la algum disco do qual tenha gostado, com link.
    abraço!

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Publicado às 1 de outubro de 2010 por em ambient, noise e marcado , , .
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