Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Pete Swanson – Feelings in America (2010; Root Strata, EUA)

Pete Swanson é um músico americano experimental que mora em Portland, Oregon. É mais conhecido por ter sido 50% do duo Yellow Swans, formado em 2001 e terminado no final de 2008 (mas com discos lançados até esse ano: Going Places, já camarilhado, e Being There). A carreira solo de Swanson foi relativamente modesta durante a existência dos Yellow Swans, com apenas alguns CD-Rs e cassetes split. A partir de 2009, lançou diversos cassetes em edição limitada (Denim Life, Challenger, Mr. Entertainment, Unlimited Options) e alguns LPs, como Where I Was e Waiting For the Ladies (esse último em parceria com Rene Hell), todos lançados às próprias custas, sem selo. Feelings in America foi lançado em setembro pela Root Strata numa edição limitada de 300 cópias. (RG)

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Ainda que fora da Camarilha pouca coisa se escreva sobre o gênero em português, o drone vive um grande período de exposição. Seja do lado dos field recordings, seja do lado do ambient, seja do lado do noise, seja do lado da jam psicodélica, essa música que se baseia primariamente em texturas, durações e atmosferas se prolifera e aquilo que já foi um gueto restrito vai ganhando mundo e as manifestações ocorrem pelo mundo todo, frequentemente com intercâmbios. À medida que o panorama vai se alargando, é natural que as exigências também aumentem, uma vez que é virtualmente impossível acompanhar a trajetória da maior parte desses artistas, uma vez que parece ser praxe do gênero lançar ao menos meia dúzia de trabalhos por ano. Mas, independente da opulência quantitativa da produção, questões brotam: privilegia-se o sentimento freeform, a pegada instintiva? ou a estrutura bem montada, complexa e tendencialmente mais fria? procura-se uma identidade sonora, ou usa-se o drone para questionar os limites estreitos da “autoralidade” como a reiteração de tiques “pessoais”? Como estamos lidando com arte, obviamente não existem respostas certas ou erradas a essas questões, e sim formulações mais ou menos coesas, premissas artísticas que não precisam aparecer em manifestos porque já estão patentes na organização das composições de cada artista (e não é uma tristeza ler manifestos presunçosos quando não se vê na obra nem décimos da mesma audácia?) Mas existem formulações coesas, centradas, e formulações frouxas, que recaem seja na morosidade da repetição sem dinâmica, seja num “ecletismo” que pretende abarcar as principais características do gênero e acaba transformando-se numa matéria amorfa e indistinta em termos artísticos. Numa aposta pessoal, eu diria que todos os que contemplam essas questões e buscam formulações radicais tendem a se destacar sonoramente.

Pete Swanson está entre estes. Ele não é fiel nem ao digital nem ao analógico, usando volta e meia um deles para intensificar o som do outro, fugindo de qualquer essencialismo estrutural em nome do essencialismo da intuição e do ouvido, buscando acima de tudo o poder emotivo do som, seja em modo abrasivo ou lírico, ou preferencialmente ambos, como no caso de Going Places. A carreira solo de Pete Swanson carrega o mistério dos Yellow Swans de criar drones robustos carregados de sentimento mas ainda assim massivos e desafiadores. Por sua configuração física de um-homem-e-seu-instrumento, pela introspecção da música, pelo caráter emotivo e ao mesmo tempo áspero das composições, cabe afirmar que Pete Swanson faz uma espécie de blues eletrônico, seu equipamento permitindo o mesmo tipo de relação visceral com o som e com o sentido que o violão e a voz do bluesman de cem anos atrás (os contextos sociais não poderiam ser mais distintos, mas a necessidade de expressão mostra claras semelhanças). Feelings in America, pelo uso ostensivo de guitarra relativamente limpa (o que aqui significa menos “sem efeitos” do que “soando com as sonoridades que habitualmente esperamos de uma guitarra”) na primeira parte de “The Fermata” e em toda “Believers”, com notas dedilhadas sustentadas por longos espaço de tempo que são a um tempo vulneráveis e algo solenes, reforça as vias de comparação. Mas mesmo quando o disco entra com vigorosas paredes de distorção, como nos 2/3 finais de “The Fermata” (lembrando as distorções garageiras de um Spacemen 3, mas com muito mais matizes), ou quando irrompem os barulhos nada “orgânicos” de “F.I.A.” (com loops evocativos como os de William Basinski), a carga emotiva é bastante imediata e se presta ao exercício. Mas o refinamento de Swanson contrasta com a espontaneidade do blues: mesmo nos momentos mais solitários de guitarra, há pequenos ruídos, há golfadas de som ambiente trabalhado que remetem não ao aqui-e-agora do momento mas ao pensado da composição e ao relevo da experiência sonora completa.

Feelings in America é um grande exemplo do uso do drone formulado com personalidade distinta e talento ímpar. Em vez de querer dosar bocadinhos e acabar soando como todo mundo (algo que se pode dizer do disco de Jefre Cantu-Ledesma camarilhado na semana passada, ele mesmo co-diretor do selo que lança agora este disco), Pete Swanson vai como uma torrente e deixa uma marca quase táctil de poder evocativo do som, capaz de enternecer pela carga emotiva e de espantar pela dimensão massiva do volume e do timbre. Excelente saber que o legado dos Yellow Swans continua vivo, produtivo e igualmente exuberante através da carreira solo do homem que carrega os cisnes no sobrenome. (Ruy Gardnier)

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O que faz de Peter Swanson um nome a ser observado de perto na seara do drone, já descrevemos nos textos referentes a um dos álbuns do ano, Going Places, de seu projeto mais conhecido, o Yellow Swans. Trata-se de uma consciência aguçada a respeito da qualidade do drone enquanto expressão musical que se pauta, sobretudo, no controle e na economia. Swanson e seu parceiro Gabriel Mindel Saloman se destacam na exploração máxima de uma ou duas notas musicais, combinado a elementos do noise e, eventualmente, lançando mão da eletroacústica e até mesmo de sonoridades mais familiares, como sons de guitarra. Alguns detalhes, no entanto, reforçam esta qualidade: o pulso firme, o controle do clima e da progressão, geralmente rumo ao caos. Parece simples, como pode fazer supor o Jefre Cantu-Ledesma da semana passada, mas não é.

Feelings in America traz três novas faixas de Swanson, cada uma com um trunfo diferente, manifestando um nível alto de argumentação musical e uma retórica que não esbarra nunca na falta do que dizer, nunca é prolixo, nunca excessivo, mas preciso, arrojado e, sobretudo, de uma beleza que só  pode ser apreciada sob uma pressão psicológica adquirida e cultivada. O modo como Swanson aos poucos constrói “The Fermata”, a primeira faixa, é particularmente exemplar desta retórica: uma guitarra que emite algumas notas esparsas, que se transformam em acordes, que por sua vezes se multiplicam e se misturam a outros sons de guitarras distorcidas, formando um crescendo envolvente. Não é preciso dizer que estes passos culminam em uma barulheira acachapante, mas a experiência propriamente dita não é tão óbvia quanto parece. São as nuances sonoras que se espalham sobre a duração da faixa que estimulam o ouvinte a prosseguir. Com “F.I.A.”, a faixa mais rica do álbum, é diferente, pois nela se trabalha mais a duração que o crescendo. Trata-se de texturas criadas a partir de diversos timbres de guitarra, distorcidas, acordes climáticos, etc. Aos poucos percebemos que é no limite entre o controle e a eclosão da surpresa. “Believers”, que encerra o álbum com sua linha melódica simpática e repetitiva, assemelha-se à faixa anterior, mas tem a contribuição proeminente dos teclados, o que faz uma diferença e tanto, pois a sonoridade fica mais fria, por assim dizer. Pode-se dizer de ambas que constituem uma espécie de noise de baixa densidade, que trabalha os timbres no registro do noise, mas controla o volume parcimoniosamente. Junto a Kevin Drumm, Swanson é o que parece melhor operar sob essa premissa.

Fellings in America é o tipo de disco que chama a atenção do ouvinte não somente para si próprio, mas também para o artista e para a cena. É que tanto no drone como nas diversas manifestações do noise, poucos nomes se destacam por uma assinatura própria. Possivelmente nenhum artista na atualidade manifesta um equilíbrio tão perfeito entre dinâmica, associação entre timbres diferenciados e progressão controlada quanto os trabalhos que envolvem o nome de Peter Swanson. Kevin Drumm, talvez. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 6 de outubro de 2010 por em experimental, noise e marcado , , , , .
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