Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Philip Jeck – An Ark For the Listener (2010; Touch, Reino Unido)

Philip Jeck é um músico experimental, artista visual e coreógrafo nascido na Inglaterra (1952). Em 1993,  venceu o prêmio Time Out com sua obra multimídia Vinyl Requiem, em parceria com Lol Sargent, que contava com 180 vitrolas Dansette, doze projetores de slides e dois projetores cinematográficos. Como músico, seus principais instrumentos são vitrolas antigas, discos velhos riscados e desgastados pelo tempo e pedais de efeitos. Fez parte do grupo Slant na virada dos anos 80 para os 90, foi membro do grupo de Jah Wobble Deep Space e faz parte do coletivo Spire Ensemble. Sua carreira solo começou em 1995, com Loopholes. Seguiram-se Surf (1999), Stoke (2002), 7 (2003), Host (2003) e Sand (2008), além de singles, coletâneas, registros ao vivo e álbuns colaborando com outros artistas, como Jacob Kierkegaard e Janek Schaefer, entre outros. An Ark For the Listener é seu sexto álbum pelo selo Touch, e as composições tiveram como inspiração a estrofe 33 do poema “The Wreck of the Deutschland”, de Gerard Manley Hopkins. (RG)

* # *

Philip Jeck é o senhor absoluto dos sons descorporificados, desmaterializados, espectrais. Cada um de seus sons, pelo próprio processo de extração, evoca imediatamente um tecido espesso de tempo passado. Fosse um desenho, seriam sombras e cintilações, não borrões abstratos, mas formas sem delineamento, volumes sem contorno e traço, sempre em movimento e vibração, em ecos e reverberações que aparecem por intermédio das manipulações de seus pedais. Ninguém faz isso melhor que Philip Jeck. Nos últimos anos, a única figura digna de ser colocada no mesmo patamar foi Leyland “The Caretaker” Kirby. An Ark For the Listener não traz nada de significativamente novo ao rol de sonoridades e procedimentos de Philip Jeck, mas mantém em alto nível todo o poder evocativo de sua arte. E dessa vez em modo ultratextural, uma vez que suas espessas nuvens de ruído favorecem mais a manutenção de atmosferas – no entanto com muita dinâmica interna – do que o senso “narrativo” do prolongamento das faixas. Jeck, claro, sempre teve um indelével traço não-linear em suas obras, mas aqui o etéreo aproxima-se do inefável e sobrevem uma intensa sensação de ambient tortuoso, aproximando por vezes An Ark For the Listener mais de Deathprod que de Fennesz, mas em certas passagens conseguindo os intensos momentos celestiais – como raios de luz surgindo através de um céu esfumaçado – pelos quais é conhecido (o final da faixa inicial “Pilot/Dark Blue Night”, por exemplo, ou os loops de bateria de “The Pilot (Among Our Shoals)”. Mas no geral as sonoridades são muito mais nebulosas e indistintas do que de costume em Jeck. Culpa-se o tema?

A inspiração de An Ark For the Listener veio de uma estrofe do fim (33 de 35) do longo poema de Gerard Manley Hopkins, “O naufrágio do Deutschland”, e de todos os motivos que parecem inspirar Jeck no poema, o que sonoramente mais sobressai é a vastidão da água. A imensidão do mar – e seu correlato, o Senhor das Marés que aparece na estrofe anterior – explica (ao que é permitido “explicar” em termos de evidência sonora) a sensação de massa indistinta e volumosa que sobressai em boa parte das faixas do disco – especialmente na propositadamente intitulada “The All of Water”. O único ponto fraco do disco é que no meio de tanta indistinção, da ausência de situações notáveis, a atenção às vezes se perde ou não acha algo muito interessante em que possa se prender (“Dark Rehearsal” especialmente). O forte continuam sendo os evocativos sons que parecem vindos de cavernas do passado. Mas há também algo original a destacar: o uso, em “The Pilot (Among Our Shoals)” e em “Chime Chime (Re-Nung)”, de suntuosas linhas de subgrave que fornecem um relevo majestoso a seus drones espectrais, ampliando a dinâmica sonora. As quatro faixas finais de An Ark For the Listener – “The All of Water” e “The Pilot”, as duas últimas das sete partes de Ark, e as duas faixas de coda, “All That’s Allowed (Released)” e “Chime Chime (Re-Nung)” – constituem o que há de mais palpavelmente exuberante, com maravilhamentos vindos seja dos acordes grandiosos reverberados da segunda, dos sininhos ziguezagueando na mixagem da direita para a esquerda e vice-versa em “Chime Chime”, dos sons massivos de “The All of Water” ou das melodias distorcidas que se unem à bateria enlouquecida em “The Pilot”.

Em se tratando de Philip Jeck, sempre se espera a possibilidade de vir um dos discos do ano. E, ainda que à primeira vista não brote a sensação de que An Ark For the Listener seja um inegável merecedor desse posto, o disco traz belezas suficientes para manter o estatuto de Jeck como um dos inventores sonoros mais distintivos e fundamentais de nossa época. (Ruy Gardnier)

* # *

Não me parece possível que ainda hoje alguém deseje atribuir às artes um domínio insofismável, através do qual os artistas se exprimiriam com toda sua força e vigor, em sua “verdade”, por assim dizer. Um domínio fechado, inclusive, é algo que não se deseja na arte contemporânea, pois o que se percebe tanto nas artes visuais, quanto nas sonoras, é a preocupação eventualmente exagerada em sublinhar a capacidade de dialogar com elementos alienígenas, estranhos ao ponto de vista de onde cria o artista. Trata-se mais de uma pretensão que de uma conquista ou estado de coisas promissor, mas quando o nome de Philip Jeck vem à baila, a questão ganha um sentido próprio, exclusivo. Poucos artistas na atualidade são capazes de apresentar, através de sua obra e de seu pensamento, uma situação estética híbrida de forma realmente adequada as suas aspirações. Quando a estrofe de um poema serve de inspiração para a construção de uma experiência musical como a que temos em An Ark for the Listener, deve-se perguntar pelo todo da obra do artista, pois a julgar pelo resultado, trata-se de um trabalho lento, refletido. Não se trata de modismo, e a obra de Philip Jeck o confirma.

Sabe-se que Jeck é este artista interessado em traçar linhas transversais sobre o mapa conflituoso das artes contemporâneas. Ganhou notoriedade explorando e manipulando discos de vinil, dúzias, centenas ao mesmo tempo, produzindo uma espécie de happening – o que o inscreveu no contexto de artes plásticas – mais, ao mesmo tempo, uma interessantíssima fantasmagoria sonora, que se afirma através do poder evocativo das estáticas e de generosas ondas de harmônicos e ruídos belíssimos. Lançando-se igualmente sobre instrumentos musicais, apetrechos eletrônicos, mesas de som, toca-discos, aparelhos de CD, Jeck constrói sua exuberante música-acontecimento. Mas noto que, na passagem para o aparente aprisionamento do formato-álbum, seus experimentos não perdem em vigor . Pelo contrário. Justamente quando ouvimos a transposição para o álbum, percebemos que sua música, apesar de todo o caráter interrelacional, é essencialmente uma experiência sonora. Até se pode atribuir às peças contidas nesta arca a pecha de “herméticas”, porque de fato não se sobrevive à audição sem uma bula, uma prescrição histórica que orienta o ouvinte.

Tomando os seus nove “movimentos” como um todo, podemos perceber que não existem muitas diferenças entre este álbum e Sand, de 2008. Me refiro sobretudo ao caráter, repito, fantasmagórico e evocativo de seus móbiles sonoros. Como um móbile, as peças sonoras de An Ark… são dispostas de uma forma aparentemente aleatória, combinando-se umas as outras como que ao sabor do vento. Como um móbile, elas demandam do ouvinte que ele assuma uma perspectiva, compreendendo que sua experiência será sempre e inevitavelmente parcial. O fato de que não existam diferenças substanciais entre os seus últimos discos, não interdita ao ouvinte uma experiência sempre renovada, já que a cada momento ele pode ser surpreendido por um acontecimento realmente especial, que compensará sua audição com puro deleite. Como nos primeiros minutos da faixa inicial, com a súbita mudança de um clima solar para as profundezas graves mais tenebrosas. Ou na sensibilidade com que Jeck orienta as nuaces harmônicas de “The All of Water”. Ou ainda na bateria resfolegante de “The Pilot (Among our shoals)”, que encerra a primeira parte com violinos desvairados e um clima estranhamente circense. (Bernardo Oliveira)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 7 de outubro de 2010 por em experimental e marcado , , , , .
%d blogueiros gostam disto: