Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Actress – Splazsh (2010; Honest Jon’s records, Reino Unido)

Desde o início da década passada, o inglês Darren J. Cunningham se apresenta como DJ e produtor, ao lado de amigos como Kode 9. Cunningham debutou em 2004, lançando seu primeiro álbum homônimo como Actress, no mesmo ano em que abriu a Werk Discs, lançando nomes como Radioclit e Zomby. Quatro anos depois lançou Hazyville, agora Splazsh, pelo selo de Damon Albarn, Honest Jons. (B.O.)

* # *

Darren Cunningham não é exatamente um nome novo na seara da música eletrônica, mas desembestou a lançar eps em 2010 (dois, na verdade), e em maio deste ano, lançou seu segundo álbum, Splazsh (ou terceiro, já que o primeiro, de 2004, é um 12” com 6 faixas…). Mas ele esteve com Kode 9 em 2004, quando ambos já produziam na seara daquilo que viria a se chamar dubstep. Ocorre que, não sei por qual obra do destino, Cunningham se tornou owner do selo independente Werk Discs, responsável por lançamentos do calibre de Zomby, Lukid e Radiocrlit, e estacionou seu trabalho por quatro anos, retornando em 2008 com o intrigante Hazyville. O período como owner deve ter lhe feito muito bem, pois tanto Hazyville quanto Splazsh trazem uma sonoridade única no universo eletrônico mundial.

Splazsh tem a estranha característica de misturar pequenos aspectos de gêneros e ritmos em um todo geralmente muito expressivo, repleto de timbres protuberantes, utilização alucinada do estéreo, estruturas de composição ousadas. Rótulos como Glitch-Disco e Noise-Dub não foram suficientes para dar conta do que Cunningham preparou neste álbum. De uma forma geral, é este elemento que sobressai em seu trabalho, qual seja, a habilidade de produzir, com um certo sotaque pop, os mais improváveis amálgamas da cena eletrônica atual. Em seus álbuns, algumas faixas constituem verdadeiros desafios para rotuladores. É o caso da bizarra “Wrong Potion”, da abrasividade dos clicks and cuts com uma roupagem serialista em “Supreme Cunnilingus”, do dub atmosférico sem graves de “Hubble”, da drone-ambient na dobradinha “Futureproofing” e “Bubble Butts And Equations”, do 2-step esquizofrênico de “Get Ohn (Fairlight Mix)” e do devaneio oitentista de “Purrple Splazsh”. Sem contar a faixa final, a breve e incômoda “Casanova”, uma trama repleta de pausas estranhas, ruídos e sintetizadores.

Dito assim, parece que Cunningham se aproxima do olhar histórico do incógnito Zomby, mas somente enquanto opera claramente sobre um recorte histórico. Pois enquanto o espectro temporal de Zomby remete às primeiras raves da década de 90, Cunningham está mais atento para a cena contemporânea. E até mesmo o flerte com a música dos anos 80 tem um apelo evidente à atualidade da música eletrônica, embebida nos timbres agitados do Synthpop e da New Wave. Mas o que Zomby tem de vivacidade, Cunningham tem em esperteza e sede pelo novo. Splazsh testemunha não só seu vigor criativo, mas também o caráter inquieto de sua personalidade artistica. Estaremos diante de uma eminência parda do dubstep, que se manteve à parte para conservar liberdade criativa? Não são poucas as evidências de que isto seja verdade, basta escutar os primeiros singles de Kode 9 e o 12” de 2004 para perceber que o seu retorno em 2008 trouxe à tona possibilidades deixadas de lado pelos pioneiros do dubstep: o mesmo diálogo com os sintetizadores, o grave nem tão proeminente, os ritmos mais sequenciados, herdados do 2-Step… (Bernardo Oliveira)

* # *

O trabalho do produtor Darren Cunningham, vulgo Actress, se encontra na seara perigosa entre o convencional e o experimental. Perigosa num sentido, apenas: por tomar frequentemente a marcação pulsante e repetitiva do house e do techno como esquadro de composição, existe a possibilidade de que não se perceba até onde ele a leva, onde ele faz com que ela sutilmente se quebre, onde entra a expressão mais individual. Mas seria simplesmente fixar-se no tun-tch-tun e não ver nada além disso. Splazsh já começa com “Hubble”, uma faixa climática de andamento médio intensamente salpicada de células sonoras idiossincráticas, com marcação rítmica-melódica evocativa de Ricardo Villalobos, vozes picotadas e esguichos 8-bit condicionando a uma psicodelia sutil. A música de Actress é elegante, e aproveita o melhor do techno, o rigor, para fincar em sólidas bases seus ímpetos de experimentador. Suas audácias, no entanto, são mais ao nível da timbragem do que da estrutura, que em geral não apresenta nada de mais significativo. Mas bastam suas timbragens e seu senso de economia para transformar Splazsh numa audição incrivelmente fluida e prazerosa.

Em seu segundo disco, Actress vai a muitos lugares sem fixar-se num gênero específico. Há house mutante, como a efusiva “Always Human”; há techno robótico em “The Kettle Men”, que remete ao projeto Gescom do Autechre; e há faixas quase ambient, que podem evocar Cluster ou o primeiro Selected Ambient Works do Aphex Twin, como “Maze” e a primorosa “Bubble Butts and Equations”. Isso ajuda sobremaneira na fluidez do disco, conferindo climas distintos. A coesão sonora só não é ameaçada porque Cunningham tem um incrível senso de foco, e imprime sua marca pessoal em todos os estilos por que passeia.

Mas Splazsh não acerta sempre. Em “Purrple Splazsh”, a brincadeira com bateria eletrônica vintage e os riffs semirroqueiros de teclado remetem ao retrô bobo do Dâm-Funk sem acrescentar qualquer marca mais distintiva; ao passo que “Supreme Cunnilingus” faz umas gracinhas com glitch que hoje já parecem absurdamente datadas. Mas quando acerta, sai de baixo. Actress em seu momento mais inspirado é capaz de coisas como “Let’s Fly”, um prodígio de utilização de timbres vaporosos de teclado que variam delicadamente suas intervenções, com picotamentos, sumissos e ligeiras alterações de volume e entrada, criando a soberba sensação de um labirinto psicodélico. “Wrong Potion”, pela sobreposição de camadas e pela batida recortada, entra com propriedade em território flyinglotusiano e se sai vitoriosa em seu caos organizado. Pecadilhos à parte, Splazsh é um raro caso (talvez não tão raro, mas ainda assim digno de nota) de álbum de música eletrônica com perfeito senso de timing e encadeamento entre as faixas, e que de quebra guarda algumas das mais elegantes, inspiradas e inteligentes composições que teremos ouvido no ano. (Ruy Gardnier)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 18 de outubro de 2010 por em eletrônica, experimental e marcado , , .
%d blogueiros gostam disto: