Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Terreiro Grande e Cristina Buarque cantam Candeia (2010; Tratore, Brasil)

Cantora e compositora nascida em São Paulo, Cristina Buarque iniciou a carreira artística em 1969, no álbum Paulo Vanzolini – onze sambas e uma capoeira. Convidada por seu irmão, o compositor Chico Buarque, Cristina participou também de seu terceiro álbum e, em 1974, lança seu primeiro álbum solo, Cristina, imprimindo desde já sua marca de pesquisadora da memória das Velhas Guardas cariocas, particularmente da Portela.  Este é o seu décimo álbum de carreira, o segundo junto ao grupo paulistano Terreiro Grande, oriundo do Grêmio Recreativo de Tradição e Pesquisa Morro das Pedras, agremiação de sambistas, fundada em 2001, que desenvolvia um projeto social na comunidade do Morro das Pedras, em São Paulo. (Bernardo Oliveira)

* # *

1. A célebre frase, segundo a qual São Paulo seria o túmulo do samba, foi cunhada por Vinícius de Moraes por ocasião de um encontro informal com seu amigo Jonnhy Alf. O apelido anglo-americano Alf (de Alfredo), indicado pelo crítico José Ramos Tinhorão como um dos exemplos da subserviência cultural da bossa nova à música americana, é empunhado justamente por aquele compositor notoriamente vinculado ao rol dos “esquecidos”, daqueles que, por uma infinidade de motivos, não foram convidados ao Carnegie Hall, mas fundamentais na constituição do que veio a se chamar bossa nova. Moraes, por sua vez, branco de origem nobre, caíra no mundo da música meio que por acaso, após enfileirar profissões como diplomata, jornalista, crítico de cinema, etc. E mesmo contribuindo de forma decisiva pelo menos na constituição do aspecto lírico do gênero, não pode ser considerado um de seus arquitetos. E no entanto, quem apressava-se em vaticinar sobre onde, como e quando nasce o samba, quem é seu dono, quem não é?… Hábito muito comum na música e na sociedade brasileira, o patrimonialismo faz parecer que o samba é de todos, e a todos é imputada a tarefa de emitir opiniões, ainda que mal fundadas, a respeito de sua “essência”. Nada contra a popularização e às aproximações culturais entre classes diferentes, mas é necessário mais cuidado com o que se diz, o que se deseja, em suma, em como se escreve a história. Quando uma cantora como Teresa Cristina é chamada de “deusa” pela grande imprensa, enquanto o grande Cláudio Camunguelo morre no esquecimento, sem nem sequer ter seu primeiro e único álbum lançado, há algo de errado… De resto, como dizia o Mestre Marçal, “quem procura o que não perdeu, quando encontra não conhece”…

2. O samba paulista tem um sotaque próprio, que pode ser automaticamente representado pelas melodias sinuosas de Adoniran Barbosa, pela interpretação única de Germano Mathias e pelas letras vernaculares de Paulo Vanzolini. Mas este é o samba paulista que ficou, não na memória institucional, nem na memória do show business, mas na memória afetiva e profunda do brasileiro. Um conjunto de fatores vem se entrelaçando de uns 20 anos para cá. Trata-se de uma troca cultural dinâmica entre o samba do Rio e de São Paulo, que na minha opinião vem favorecendo o segundo. Por isso, começo pelo tal “renascimento do samba da Lapa”. Após a década de 80, com a tradicional distensão do pagode representado pela vitalidade da geração do Cacique de Ramos, observamos, a partir do fim da década de 90, a ascensão de um conjunto de artistas e de um tipo de interpretação específica do samba carioca que grassou a reboque da revitalização turística e comercial da Lapa. Uma rápida passada sobre a sonoridade dos álbuns de artistas como Casuarina, Teresa Cristina e Diogo Nogueira, e percebemos algumas características comuns: o investimento mínimo na composição e o fortalecimento do repertório médio, constituído pelos clássicos oficiais; e, sobretudo, uma desatenção perigosa aos arranjos, incorrendo em roupagem excessivamente padronizada e sem criatividade. Em paralelo, a consolidação da geração do Cacique, com o mega estrelato de Zeca Pagodinho e Jorge Aragão e com a ascensão de Arlindo Cruz, juntamente com neosambistas como Maria Rita e Marcelo D2. Junte a este caldo os grupos de pagode romântico, sobreviventes e requentados da década de 90, e teremos, mais ou menos delineado, um mapa do samba carioca na primeira década do novo milênio.

3. Enquanto isso, o samba paulista viu crescer algumas vertentes curiosas, algumas delas solitárias, fruto de esforços esporádicos, como é de costume na história do samba. Primeiro, não se trata mais do samba falado de Adoniran e Vanzolini, mas um samba que seguiu dois ou três itinerários: cruzou a Dutra para beber o repertório parcialmente esquecido das escolas de samba; buscou na próprio cidade, e eventualmente no interior de São Paulo, outras vertentes paulistas do samba. São grupos, comunidades e eventos, que somam esforços e desenvolvem uma cena peculiar. Dos pagodes, podemos citar o litúrgico Samba da Vela, em Santo Amaro, e o pagode no Bar do Tim Maia, em São Mateus, que resgatam uma forma de pagode espontânea e, ao mesmo tempo, cuidadosa, que perde espaço no Rio para o modismo das casas de samba. Cantoras como Dona Inah, Graça Braga e Fabiana Cozza, buscam outras inflexões para o canto feminino, que foge à timbragem padrão, estabelecida por Marisa Monte, seguida por 80% das cantoras cariocas. E em relação aos grupos, o Quinteto em Branco e Preto que, ao contrário da maioria dos grupos de samba carioca, buscou equilibrar as inovações trazidas pelo Cacique de Ramos, particularmente na instrumentação, com um notório apreço pelo samba das velhas guardas, como a da Portela e da Mangueira, criando uma roupagem diferenciada para composições em parceira com Nei Lopes e Luiz Carlos da Vila. De alguma forma hoje, se pode perceber mais interesse entre os paulistas em pavimentar uma via de mão dupla, que traz o produto cultural carioca para um outro contexto, e o devolve deveras modificado. Nem sempre com inovação estilística, mas sem dúvida com um frescor diferenciado.

4. O grupo Terreiro Grande faz parte deste contexto. Mas o que mais chama atenção não é o caráter de resgate cultural e social, que inclusive deve ter atraído a cantora Cristina Buarque, uma verdadeira cantora-pesquisadora, como Beth Carvalho. Nem o fato de homenagearem um portelense tão idiossincrático como Candeia, muito menos que estejam lançando um segundo álbum, dado o perfil amador do grupo. Mas, sobretudo, que tenham restituído ao samba em formato-disco um clima de festa e celebração, um ambiente de autêntica alegria e comunhão em torno de uma roda de samba, como há tempos não observávamos entre as plagas cariocas. O formato não é novo, Candeia mesmo insistiu para que o primeiro álbum do Partido em 5 fosse gravado de forma espontânea, reportando o ouvinte ao burburinho da roda. O resultado, magistral em ambos os casos, deixa escapar os detalhes e a fluência que foram expurgadas do samba carioca. E por que? Por uma necessidade de alcançar a tal pureza, reivindicada não somente por Vinícius de Moraes, mas pela mentalidade CPC e por toda essa geração do “novo samba da Lapa”. É a pobre ideologia do “samba de raiz”, que fantasia um samba tradicional, puro, “das origens”, que por sua vez se transfunde para a produção musical, através de um cuidado exagerado para com a reprodução, mas do que com a criação. Uma sonoridade de mão única…

5. Um vocal ligeiramente “desafinado” (como o de João Gilberto?), uma platinela estridente, um coro impreciso nem sempre são sinônimos de um trabalho mal realizado, pelo menos quando se trata de música. Não que seja sempre assim, mas é inquestionável que a faxina promovida pela nova geração carioca vem sendo remediada pelo samba criado em São Paulo. Todo esse arsenal de supostas falhas e rusticidade, conferem expressão e dinamismo ao samba do Terreiro Grande. Eles apostaram na simplicidade, mas sem confundi-la com simploriedade. Investiram no próprio talento, na própria energia que emanava em suas rodas e a registraram, sublinhando mais o encontro do que o comércio.  As imperfeições foram conservadas na presente gravação, em favor de uma vitalidade que arrepia da primeira à última faixa.  O repertório, caso à parte, rivaliza com a obra-prima de Luiz Carlos da Vila, Luz da Inspiração, também dedicada a Candeia. No cômputo geral, Terreiro Grande e Cristina Buarque cantam Candeia é um álbum especial, do maior interesse para quem gosta de samba. Mesmo para aqueles que ainda conservam intacta na memória a frase de Vinícius de Moraes, e a repetem alegremente pelos pagodes da vida. (Bernardo Oliveira)

* # *

Samba é beleza, samba é lirismo, samba é jogo de cintura, samba é uma porção de coisas, mas para tudo isso é primeiro necessário vivacidade. O canto pode sair desafinado vez ou outra, a voz pode não soar tão maviosa, tudo bem, contanto que tenha a garra, a força de emoção, a energia telúrica da expressão – seja na ginga do samba de breque, na emotividade do samba canção, na empolgação do samba enredo e assim por diante. O pior que pode acontecer com o samba é ser correto, é parecer um dever de casa feito com capricho mas sem vigor. Ironicamente, a correção vem pautando uma boa parte do samba que é executado por aí, com excelentes alunos que abdicam do extravasamento da emoção em nome de um preciosismo que prefere não errar a realmente acertar. É o bom-mocismo atual que vende a tradição como item museológico. Nesse contexto, Terreiro Grande e Cristina Buarque Cantam Candeia aparece como uma flagrante exceção. Não que o disco seja mal executado, mal gravado, nada disso: é que, nele, em primeiro lugar vem a emoção, o desprendimento, a vibração na hora de fazer o samba existir. A atmosfera do disco nos instala com propriedade numa aura de roda de samba, de celebração. Trata-se naturalmente de uma homenagem a um grande mestre, Candeia, mas a audição torna claro que eles não estão empenhados em fazer um songbook irrepreensível nem em prestar obediência aos originais, mas em criar sua própria voz. Pode-se contraargumentar que não há nada antológico no disco, mas pouco importa: há um evidente entrosamento baseado na energia, e isso se reflete na fluidez da execução, na alegria festiva do coro quando o clima é de celebração e na melancolia da voz de Cristina Buarque entoando as canções introspectivas. A vivacidade que brota desse entrosamento remete a outras épocas do samba, quando grupos como os Originais do Samba levavam ao disco a vibração contagiante de um terreiro efusivo. No contexto do que aparece por aí, Terreiro Grande e Cristina Buarque Cantam Candeia aparece como um oásis extático no meio de um deserto repleto de boas intenções. E o repertório, eximiamente escolhido e encadeado, nos faz reviver com novo gás diversas gemas inesquecíveis de Candeia. (Ruy Gardnier)

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6 comentários em “Terreiro Grande e Cristina Buarque cantam Candeia (2010; Tratore, Brasil)

  1. Rafael Cesar
    22 de outubro de 2010

    aê, bernardo, sou seu fã, parceiro.

  2. Rafael Cesar
    23 de outubro de 2010

    permita-me dizer algo: os pagodeiros e ouvintes de tal impuro gênero, de música da ralé, mal feita, de gente que não sabe apreciar música, é que, ao longo do tempo, não permitirão morrer o samba em suas várias formas. Nas comunidades em que o pagode rola, por mais que possamos, de fato, discutir a qualidade do que se faz (como também devemos discutir a qualidade do samba da Lapa…), é nesses espaços que a memória musical, a da linguagem rítmica e corporal se mantém e tem estofo para fazer o samba continuar. Dentre os Casuarinas da vida, sinto muito, não há como, porque não há estofo. O cara pode aprender a linguagem, mas é muito diferente de viver dentro de um sistema que a reproduz e transforma nos seus mínimos e subterrâneos detalhes, nos gestos do dia-a-dia, na musicalidade da própria fala, na manutenção das construções proverbiais tão recorrentes no samba e assim por diante. Isso não faz do Casuarina e seus seguidores algo necessariamente ruim, mas, simplesmente, não tem a mesma densidade. E, quando seus seguidores, ou seus filhos, decidem que agora querem escutar outro tipo de música – eu creio que alguma hora a moda do samba dentre os “legitimados” vá arrefecer, mesmo que não totalmente -, nesse momento, não haverá “sobras” para, em lgum momento, o samba voltar. Aí, quem vai segurar o patrimônio no tempo a correr são aqueles que, dizem os da Lapa, “não ouvem o verdadeiro samba de raiz”. Esses manterão o que será a substância mínima sempre necessária onde o samba se vai apoiar e se “reanimar” em suas várias e ricas formas. sem isso, é impossível. e quem mantém isso é a galera que está indo no olimpo ouvir alcione, revelação, pixote, exalta, bom gosto – os quais, na minha opinião, produzem várias coisas interessantes, dentre um monte de porcaria, também, indubitavelmente.

    é mais ou menos isso…

  3. bernardo
    23 de outubro de 2010

    Obrigado pelos comentários, Rafael.

    Mas o Chico Buarque, por exemplo? E o Vanzolini? E os sambistas que vieram da classe média e sabem criar dentro de uma pegada próxima do calor e da vivacidade do samba, como bem escreveu o Ruy? Na verdade, não dá para analisar este contexto de uma forma flat, como se não existissem casos específicos, para os quais teríamos que criar interpretações específicas. O problema em relação ao “samba da Lapa” não é ser marcadamente burguês, mas ser fraco em aspectos onde o samba sempre se destacou: a personalidade do canto, a peculiaridade da composição, o acompanhamento empolgante… Eu digo que nos últimos anos vejo mais empolgação nas rodas de Sampa so que no Rio.

    Mas o fato é que, por uma questão que eu não saberia explicar se não como um enorme pudor, eu omiti uma situação: existe uma turma aqui no Rio fazendo um trabalho bacana. Conheço todos eles, por isso não os cito, para que outro interessado na questão os reconheça e não dê margem para comentários maliciosos. É o pessoal do Galocantô, do qual faz parte o meu irmão Rodrigo, o Samba da Amendoeira do genial compositor e instrumentista que é o Mingo e do Rogerinho da Mangueira, João Martins, jovem compositor, filho do músico Wanderson Martins, Baiaco, Ferreira, Di Caprio, Wantuir, e uma porrada de outros compositores muito bons. Eles representam a vivacidade do samba carioca de hoje, mais do que os nomes incensados da “Nova Lapa”…

  4. Rafael Cesar
    24 de outubro de 2010

    Fala Bernardo!

    Eu estou de acordo contigo. Em nenhum momento eu falei que os músicos da classe média não poderiam fazer samba de qualidade, até porque o que faz o samba não é só o morro, certo? Desde o início, inclusive, houve algum níve de diálogo e contribuição. Por isso, eu disse no comentário: “Isso não faz do Casuarina e seus seguidores algo necessariamente ruim, mas, simplesmente, não tem a mesma densidade.” Quando eu me referi à densidade – achei que tinha ficado claro no contexto -, não era a densidade musical, a quakidade musical, mas sim o que há por trás. Eles podem fazer ótimos sambas, mas o “circuito” em que se produzem e são ouvidos é que não vai ter “densidade” para levar aquilo adiante, porque não faz parte, em sua memória social, familiar etc. daquele conjunto de outras coisas que fazem o samba. O samba não é só a música, certo? É fruto de todo um sistema cultural, digamos assim, que não é mantido pelo Casuarina – como metonímia, ok? – e o público que os escuta na Lapa. Claro, estou falando de um modo generalizado, mas que, creio, dá conta de boa parte do processo. O Chico, então, pode fazer samba da melhor qualidade, mas isso é ELE. A classe média que o escuta não tem força para segurar o samba ao longo das gerações, porque sua memória cultural, musical, suas referências apontam para outras direções. A relação dessa classe média com o samba é muitíssimo mais recente do que, historicamente, é a relação de outros grupos sociais, herdeiros “num grau maior”, digamos assim, do samba, das batucadas, das macumbas, enfim, de todo o tal sistema (eu não gosto dessa palavra, mas não encontro outra) que está por trás do samba. Já, justamente, aquele povão que lota o Olimpo e ouve os pagodes, e não ouve tanto Chico Buarque, essa turma está mais próxima às referências relacionadas ao samba e, por isso, mantém aquela musicalidade viva, a sua possibilidade de acontecer, de alguma forma, mesmo que não estejam fazendo o samba naquele momento. Sim, o “sistema” não é estático, como também não é homogêneo o público do Casuarina ou do Exaltasamba, mas, repito, de um modo geral, acho que dá pra falar nisso.

    Quanto ao bom samba da Lapa que você citou, conheço essa galera toda a que você se referiu, e também não os citei porque vejo-os como uma coisa à parte – e no post você falava da regra, do geral, né? Sem dúvda essa galera boa dialoga com aquele samba meio esvaziado da Lapa, por razões geográficas e de público, grana, absolutamente normal, mas eles têm uma outra postura, outra preocupação, eu diria, até mesmo, outra linguagem.

    Um abraço!

  5. bernardo
    25 de outubro de 2010

    De acordo! Grande abraço!

  6. Rafael Cesar
    26 de outubro de 2010

    acabei de ouvir. puta álbum, mesmo. valeu a dica. abraço pra ti também.

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