Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Cidadão Instigado – E o Método Túfo de Experiências (2005; Slag Records/Tratore, Brasil)

O Cidadão Instigado foi formado em Fortaleza em 1994 pelo guitarrista e compositor Fernando Catatau, quando lançou um EP sem título, sendo que apenas em 2002 lançou seu primeiro álbum, O Ciclo da Dê.Cadência. O principal compositor é o próprio Catatau, mas a banda ainda conta com Regis Damasceno, Rian Batista, Dustan Gallas e Clayton Martin, dentre muitos convidados ocasionais. Em 2005 a banda lançou E O Método Tufo de Experiências que alcançou inusitado sucesso de crítica dado o desconhecimento da banda, recebendo inclusive algumas premiações como Álbum do Ano, colocando a banda no panteão das bandas nordestinas que utilizam uma linguagem contemporânea. Catatau passou a colaborar de forma mais intensa com o trabalho de outros artistas, fazendo participações em discos do Los Hermanos, Arnaldo Antunes, Otto, Instituo e céu, entre muitos outros. Em 2009 lançou seu mais recente disco, chamado Uhuuu! (M.M.)

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Alguns discos parecem se destacar de seus contemporâneos, parecem passar ao largo do gosto comum de sua época, e nem precisam ser inovadores. E O Método Tufo de Experiências, não há nada ali que você não já tenha ouvido antes e você nunca ouviu um disco como este.

É correto falar que o Cidadão Instigado é uma banda, mas tudo que ali acontece é fruto da ambição de Fernando Catatau e mesmo sem menosprezar a participação dos outros músicos, a autoria é evidente e Catatau, mesmo nascido em Fortaleza, mais parece um produto anexo da ‘cena pernambucana’ de onde saíram nomes tão díspares quanto Chico Science, Mundo Livre S/A, a Nação Zumbi pós-Chico, Otto e Siba, para ficar apenas nos grandes exemplos. Depois de estrear de forma interessante mas bastante tímida em seu primeiro álbum, o cidadão Instigado Catatau grava seu segundo disco com auxílio de Daniel Ganjaman, ‘laboratório’ do Instituto, e o sempre excelente Maurício Takara. Dessa mistura temos um resultado brilhante, um disco que diria perfeito e de uma riqueza que passados cinco anos do lançamento ainda recompensa a audição. As faixas continuam matadoras e em constante desafio: o entrar dos solos e das experimentações sem destruir o groove como é feito ao final de “Os Urubus Só Pensam em Ti Comer” beira a maestria, e este domínio é exibido de forma inversa na obra-prima “O Pobre Dos Dentes de Ouro” que sai de ritmos latinos para um funk e descamba em solo de guitarra para unir tudo ao final na celebração que é esse disparate de ser nordestino em São Paulo e nunca pertencer àquele lugar e nem ter pátria na região abandonada. No lugar de saudosismo, revolta ou lamento temos um exercício singular entre o diário sentimental e a reprodução do que se observa à volta.

Catatau sempre trabalhou com referências ao rock setentista, ao progressivo e à Música Mais Popular Brasileira, para esquecer daqueles rótulos que envolvem a música de Roberto Carlos ao brega (claro que toda essa MMPB passou a ser cult e não existe mais quem confesse não gostar de Roberto ou não elogie Odair José com um sorriso no canto da boca).

Mas o elemento mais importante do disco não é o amalgama de influências mas a ausência de ironia no uso de toda sua matéria-prima, pois não é escolhido por ser bonitinho e cult. Faz parte de sua formação e mesmo quando existe humor (o que existe sempre, mesmo nas canções mais melancólicas), este sempre é extraído das situações pinçadas da experiência do compositor que faz parte daquele elemento. Tudo bem, se pode argumentar que o critério de ‘estive ali, fiz aquilo’ pouco serve como baliza crítica, mas também aponta para a escolha como necessária e não como capricho estético.

Nas faixas mais absurdas como a dos “Urubus” e do “Pobre dos Dentes de Ouro” ele adota um ponto de vista surreal sem nunca menosprezar seus personagens e/ou temas. Na verdade Catatau tenta conquistar a autonomia do retirante urbano e contemporâneo sem a formação ‘adequada’ mas que absorve um tanto do que está a seu redor e é refratário ao restante. Assim, o elemento sintético, eletrônico, não é mera firula, é exatidão.

Seu cartão de visitas vem na narração pós-rock “Silêncio Na Multidão” e no confronto de “Apenas Um Incômodo”. O próprio Catatau já falou que todo o projeto parte da noção do nome da banda, o sujeito que busca identidade e leva consigo toda sua bagagem sem simplesmente sucumbir ao preconceito mas também sem pertencer completamente àquele lugar como “Apenas Um Incômodo” faz questão de deixar bem evidente. Todas estas faixas que parecem refletir experiências do próprio Catatau, que viveu desterrado em São Paulo,mas também absorveu todo um novo mundo de possibilidades. Suas letras são perpassadas por uma profunda solidão (nem o dadaísmo prescinde do estar só), porém nunca de modo passivo, sendo às vezes amarga, às vezes agressiva e umas algumas vezes melancólica, como na própria “Silêncio Na Multidão” e de forma explícita em “Chora, Malê”, apesar da catarse no final da faixa.

Hoje, com certa distância, ouvindo outros discos do Cidadão Instigado, inclusive o ótimo Uhuuu! é indiscutível que a mão de seus parceiros é ao menos em parte responsável pelo vigor do disco. Ouvir uma parceria dar certo de tal forma é motivo para grande alívio. Pensando historicamente, a música brasileira é das mais ricas em profícuas de colaborações, talvez apenas perdendo para o jazz americano, mas aí o colaborar parece residir no dna do gênero. Enfim, uma história tão rica foi reduzida nos últimos anos a ‘participações especiais’ e discos da Ana Carolina e Seu Jorge. Importa que mesmo sendo a criatura de Catatau, o disco é resultado daquela banda formada para aquela gravação e o espírito criativo de Ganjaman e Takara está impresso de forma indelével no que ouvimos, o disco é tanto a solução criativa para o universo imaginado por Catatau quanto a fusão perfeita de criatividades tão diversas quanto a do próprio Catatau e a de seus amigos que nunca tentam fazer suas intervenções aparecer mais que o cidadão, apenas o tornam mais instigado. Mesmo que as composições sejam todas de Catatau, e seja dele a autoria do disco, pois não esperaria de outra pessoa achados como toda a letra de “Noite Daquelas”(“Me da um tempo, eu vou ali no balcão e volto logo / Voltei!”, ou “Lá se vem três amigos meus, massa!!

Vou dividir um pouco da minha loucura com alguém” e tantos outros trechos que dava para citar a letra completa). E a produção complementa isso maravilhosamente. Uma faixa tão tradicional como “Te Encontro Logo…” usa sons de ondas, uma levada praiana, efeitos de sintetizadores e ao final poderíamos jurar que ouvimos apenas mais um daqueles derramamentos bregas nordestinos com defeito de fabricação, uma vez que “Te encontra logo com a distância antes dela te dizer que já é tarde demais” não cabe bem nas esperanças do sujeito. Em cinco minutos e meio está resumido todo um universo de possibilidades. A capacidade de citar livremente suas influências e usar com toda sinceridade lugares comuns como “Certas coisas acontecem na vida” logo na partida de uma faixa diz muito da herança nordestina de canções ‘bregas’ que tem um início ‘moral’ e também do desprendimento de Catatau. Catatau nunca se resume ao nordestino vítima do preconceito e do deslocamento, transformando o primeiro em arma e o segundo em estranhamento.

Em outro extremo, uma faixa como “Os Urubus Só Pensam em Te Comer” merecia sua própria dissertação. Na verdade ela não precisava nada, basta tocar para o efeito ser imediato. É das maiores coisas que se fez no Brasil na última década, ou em qualquer lugar e é curioso que a própria letra escrita por Catatau fuja da narrativa das experiências do Cidadão e não se adequem de forma alguma à alegoria corriqueira. Aqui, Dadá vive e se transforma na apoteose e na tragédia. As vacas são abatidas dançando para melhor alimentar os urubus.

Catatau nunca fará um disco igual a esse, e nem precisa. Aqui ele pegou um microcosmo tratado sempre como cliché e elevou o cliché à categoria de verdade sem qualquer ironia e aí mostrou as contradições de tal redução quando tratou esses próprios clichés como reflexo de sua experiência. Setecentos compositores nordestinos sensíveis estão nesse momento querendo compor uma musiquinha piegas como “O Tempo”. Não conseguirão. Que discaço. Importa muito o sujeito ficar lindo. (Marcus Martins)

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Durante a década de 90, quando a dinâmica da criação musical passou a se modificar velozmente, a reboque das inovações tecnológicas, alguns artista investiam em uma vertiginosa combinação de estilos, gêneros, aportes poéticos, etc. Quando escutávamos um Mr. Bungle, por exemplo, ficava no ar uma sensação de que Residents, Zappa, Nino Rota e Slayer foram misturados em um liquidificador e servidos como uma experiência radical – o que nem sempre dava certo. Hoje parece óbvia a ideia segundo a qual nem todo experimentalismo é profundo e legítimo, nem toda música comercial é vazia e evanescente. Mas durante essa transição, a realidade é que, em primeiro lugar, os movimentos da música mundial, antes relegados a seus respectivos contextos, passaram a emergir gradualmente para o mundo: o dub, o kraut, a música africana, etc; e em segundo lugar, passou a ficar mais evidente a ideia de que toda a música popular é fruto de misturas, tornando-se esta consciência cada vez  mais aguçada, cada vez mais evidente e propositalmente evidenciada. Deste bambual ultra-diversificado surge a música dos anos 2000. Para alguns, uma prerrogativa para exercitar a liberdade de criar, com todo o material disponível, nexos improváveis, nos quais a própria improbabilidade das misturas acaba por falar mais alto do que o resultado propriamente dito. Este é o caso deste álbum do Cidadão Instigado, O método Túfo de Experiências.

Nem toda faixa que se distribui entre gêneros variados e eventalmente discrepantes pode ser considerada necessariamente sob o rótulo “experimental”, ainda mais se o resultado se parece com um bolo de noiva montado com ingênua intencionalidade. Nem toda letra que se vale de prerrogativas da escrita automática e da psicodelia, exprimindo sensações e observações cotidianas misturadas a palavras estranhas (como “vaca” e “urubu”, por exemplo), pode ser considerada experimental. Nem toda mudança abrupta entre faixas testemunha eloquência formal, nem todo timbre estranho é suficiente para conferir valor a uma canção. E mesmo o talento indubitável de Fernando Catatau, responsável por boas produções de outros artistas e por álbuns do Cidadão Instigado bem mais afiados que este (o primeiro, EP, de 1999, e O Ciclo da Decadência, de 2002) consegue salvar o disco. Porque, no fim das contas, o método túfo de experiências é um método “wanna be”, suas experiências não parecem orgânicas, mas montadas segundo um quebra-cabeça mal articulado, um sacolão de referências e alusões embebidas em um pronunciado virtuosismo, cujo sentido pode se ver ao longe: uma ode à liberdade, mas a uma liberdade juvenil, deslumbrada diante do grande playground musical deste século. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 22 de outubro de 2010 por em MPB e marcado , , .
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