Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Marnie Stern – Marnie Stern (2010; Kill Rock Stars, EUA)

Marnie Stern é uma compositora, guitarrista e cantora americana (Nova York, 1976). Lançou seu primeiro disco, In Advance of the Broken Arm, em 2007. No ano seguinte veio This Is It and I Am It and You Are It and So Is That and He Is It and She Is It and It Is It and That Is That. Marnie Stern, lançado em outubro, é seu terceiro álbum, e nele Stern tocou guitarra, baixo e teclados, sendo acompanhada por Zach Hill (Hella, Diamond Watch Wrists, Wavves) na bateria e por Matt Flegel no baixo. (RG)

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Marnie Stern está no meio do fogo cruzado. Uma parte de sua inspiração é evidentemente direcionada para canções pop; já outra adora burilações de instrumentista e situações de impacto bem à maneira do rock mais enérgico e tecnicamente habilidoso. Só que, ao contrário do hard rock, em que o exibicionismo técnico é extrovertido e conduz ao posismo, o subgênero em que Stern parcialmente se inscreve, o math rock (basta ver suas influências confessas, Hella, U.S. Maple, Orthrelm), é essencialmente introvertido, quando não entrópico. O choque é óbvio, e se reflete na música: suas composições têm uma enorme pinta de hits abortados, com potenciais refrões ganchudos que nunca chegam lá; com um vocal naturalmente sedutor que nunca é usado de modo a transformar a cantora em diva ou princesinha. Mas vê-se rapidamente que isso não é defeito ou falta de habilidade em trabalhar o material. E não se pode pedir de um artista aquilo que ele não quer ser. Se sua música soa como um híbrido, é porque ela é feita assim, e quando a sensibilidade do ouvinte se ajusta à música é possível notar a enorme mestria de Marnie Stern em conciliar o aspecto “testosterônico” do power rock ‒ seus riffs pesados, a criação de tensões instrumentais ‒ com uma certa doçura (no timbre de voz, na entonação) que em nada dilui a pegada das faixas.

Sem qualquer exagero, é possível comparar Marnie Stern (assim como os discos anteriores da artista) à primeira parte da carreira de PJ Harvey. É certo que a sra. Polly Jean é muito mais habilidosa na confecção de hits, mas o tipo de pegada roqueira é o mesmo, apenas mais bluesy e impositiva no caso de Harvey e mais jogada para o math e ligeiramente banhada em doçura com Stern. Mas a ênfase de Marnie Stern, como já vimos, não é em estruturar canções certeiras e ganchudas. É em criar intensos momentos sônicos, seja na imediaticidade de seus onipresentes momentos de fingertapping, seja na construção de expectativas e em suas explosivas resoluções (outro tipo de prática bastante comum em hard rock, aliás). E é por esses momentos sônicos, pela indelével força que faz com que ainda possamos confiar no impacto de um poderoso riff de guitarra numa época em que quase todo rock soa previsível e diluído, que vale celebrar a música de Marnie Stern. Essa força pode ser sentida com mais clareza nas faixas mais diretas, como “Her Confidence” e “For Ash”, mas ela está presente no disco inteiro, dosada com outros elementos que adensam o caldo sonoro e conceitual, tornando-o menos rock na estrutura, mas bem mais rock na atitude e na sonoridade geral. Marnie Stern mostra que não é a época nem a “melhor idade” do rock que faz com que ele deixe de produzir nomes interessantes: é a ausência de artistas que assumam suas idiossincrasias e trabalhem-nas para a criação de sonoridades distintivas e originais. E sobre isso a srta. Stern (e seu baterista, com trabalho notabilíssimo nesse disco, Zach Hill, que aliás tem disco novo na praça, Face Tat) tem muito a ensinar. (Ruy Gardnier)

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Antes de mais nada, o humor, a ironia. A faixa “Female Guitar Players Are The New Black” mostra que a gatíssima Marnie Stern não está só destilando virtuosismo, mas aludindo a um estilo e a uma visão particular do rock. Alterna virtuosismo, altas doses de polirritmia (cortesia de seu baterista, Zach Hill) com sons mais comuns, de tal forma que, no duro, não sei bem o que pensar a respeito de seu trabalho. No álbum anterior, aquele com o título enorme, ela salpicou as faixas com famigeradas tapping guitars, às vezes resvalando no hard rock mais comum, às vezes resultando em sonoridades de fato bem diferentes do que estamos acostumados a ouvir na seara do rock. Neste álbum homônimo, Stern consegue resultados mais eficazes, enfileirando uma série de pancadas complexas em termos rítmicos e melódicos, barulhentas e pontuadas por seu vocal juvenil, à semelhança de um Perry Farrell. Sublinho novamente a sensação de estranheza absoluta diante da combinação estapafúrdia de clichês do metal com uma pegada hard rock e sons dissonantes. Sem dúvida a moça destila caráter e personalidade, através de faixas como a suingada “Her Confidence”, o frevo elétrico estilo Dodô e Osmar de “Gimme” e a introdução acachapante “For Ash”, que de cara cria uma sintonia com o ouvinte. Imagino que se ele consegue admirar esta faixa, é quase certo que chegue até o final do álbum. E, apesar de manifestar alguma reticência com relação às guitarrinhas meio ordinárias, garanto que lá no final há recompensa. Stern, sem dúvida, é uma artista a ser levada em consideração no rock de hoje. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 22 de outubro de 2010 por em rock e marcado , , .
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