Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Catherine Christer Hennix – The Electric Harpsichord (2010; Die Schachtel, Itália [EUA/Holanda])

Catherine Christer Hennix é uma artista, filósofa e matemática nascida em Estocolmo em 1948, e criada entre a Suécia e os Estados Unidos. Começou a estudar música nos anos 60, demonstrando interesse pelas obras de Karlheinz Stockhausen e Iannis Xenakis, mas sua real formação começou quando conheceu o compositor minimalista LaMonte Young e o músico indiano Pandit Pran Nath em 1970 e passou a ter aulas com ambos. Suas primeiras obras em música datam do começo dos anos 70. Hennix trabalha frequentemente com o filósofo e músico Henry Flynt, e participa de seus discos Dharma Warriors e Purified by the Fire. Nascida com o sexo masculino, Hennix adicionou Catherine a seu nome em 1990, quando adotou o gênero feminino. “The Electric Harpsichord” é uma obra de 1976 e foi executada uma única vez, e, como todas as outras obras da compositora, permanecia inédita até o lançamento recente pelo selo italiano Die Schachtel, que montou uma edição de luxo com CD de 5′ e livreto com dois poemas inéditos de LaMonte Young e ensaios de Flynt e de Glenn Branca. Hennix vive em Amsterdã, onde trabalha como cientista. (RG)

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Convém evitar os grandes slogans, principalmente se eles vêm dos releases de imprensa, mas dessa vez é inevitável dada a evidência auditiva: definitivamente “The Electric Harpsichord” é a obra-prima esquecida do minimalismo americano dos anos 70. Essa peça tem tudo que se pode esperar desse tipo de música: fornece uma massa sonora impactante, é baseada em padrões repetitivos, hipnotizantes, e consegue sempre se reinventar a cada momento, criando uma impressionante dinâmica dentro de um universo restrito e preestabelecido.

“The Electric Harpsichord”, apesar do nome, não é uma composição para cravo eletrificado. É uma peça composta com três teclados em entonação justa e um gerador de ondas senoidais. Mas a peça pode ser vista como uma grande tensão entre o som suntuoso dos grandes órgãos e de sua potência infinita na manutenção das notas e a delicadeza aguda das notas do cravo, que funcionam para dar relevo aos tons criados e mantidos pelos drones, de registro mais grave. A sensação que se tem é que se está diante de uma massa colossal que nos traga por sua potência primordial e informe, mas cujos relevos nos fornecem dados para melhor nos perdermos, isto é, diferenciarmos a diferença e a repetição internas, e melhor nos desorientar diante do turbilhão que nos é proposto. Como outro grande lançamento do ano, Hover de Daniel Menche, “The Electric Harpsichord” existe no cruzamento da música erudita e do drone, da eletroacústica e da música ritualística. Ela pode ser filosófica e matematicamente justificada pelas penas de Flynt e de Hennix, mas ela é o oposto de uma obra demonstrativa, conceitual. Sua força reside, ao contrário, na intensa materialidade da composição (não é música para entendidos, e a apreciação sonora independe da compreensão dos princípios matemáticos/científicos em que ela é baseada, assim como a música de Florian Hecker ou de Maryanne Amacher; os princípios filosóficos ajudam, mas podem ser depreendidos da própria audição).

O elemento diferenciador de “The Electric Harpsichord” dentro do panorama do minimalismo americano é a fusão de sonoridades e estruturas ocidentais e orientais. A estrutura pendular fornecida pelas ondas senoidais sugere fortemente a oscilação de tons dos ragas, sem no entanto soar exotizante ou derivativo. Junto com os drones robustos e as intervenções de curta duração das notas mais agudas, cria-se um híbrido exasperante que não é mais música do Leste,do Oeste e tampouco uma fusão, mas uma terceira, ou, segundo Glenn Branca, “uma obra que existe fora de qualquer estilo ou gênero”. Que “The Electric Harpsichord” tenha demorado tanto tempo para ser lançada, e que seja a única peça de Christer Hennix à disposição nos dias atuais (aqui há o link para 3h30 de composições encadeadas da compositora, cobrindo sua carreira de 1973 a 2003, para a Rádio Nacional da Holanda em 2005, mas apenas na taxa de bits de 128kbps), parece hoje um escândalo. Pois não só o “HESE” cunhado por Hennix e Flynt – “halucinogenic/ecstatic sound environment” ou “ambiente sonoro alucinógeno/extático”, em português – está na ordem do dia como a música criada por Catherine Christer Hennix está entre as que melhor demonstram toda a intensidade que pode resultar desse tipo de investigação sonora. Que venham mais e mais lançamentos de Ms. Hennix. The Electric Harpsichord, na falta de termo melhor, é um verdadeiro acontecimento: pelo que dá a revisualizar (a história obscura do minimalismo e da antiarte americana), pelo que dá a pensar, mas sobretudo pelo que dá a ouvir. (Ruy Gardnier)

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A primeira pergunta que fiz ao conhecer o nome de Catherine Christer Hennix foi: quem é Catherine Christer Hennix? A resposta foi surpreendente. Hennix possui em seu currículo algumas parcerias que explicam parcialmente seu trabalho. LaMonte Young e Henry Flint estão entre esses parceiros e mestres, remetendo-a ao contexto do minimalismo, do drone e de todas as possibilidades de se manipular ondas sonoras, sobretudo as mais “redondas” sonoramente falando, as chamadas ondas senoidais. Há em seu trabalho toda uma preocupação filosófica em traduzir a linguagem dos sons para uma dimensão epifânica, e todo um papo místico-cabeça que, parece, ela aprende com seu guru Pandit Pran Nath, a quem dedica esta “The electric Harpsichord”.

Nesta peça, composta e executada em 1976 sob os auspícios de seu mestre La Monte Young, e em homenagem a Pandit, Hennix se utiliza de uma plataforma customizada, formada por três teclados sintonizados em “entonação justa” (just intonation), que alimentam um sistema de delays por fita cassete. O resultado é a produção abundante de ondas senoidais sobrepostas, manipuladas de forma a produzir vinte e cinco minutos de uma espessa camada sonora que, sem dúvida, conduz o ouvinte a um estado de alerta e atenção, ou de reflexão espiritual – dependendo do “espírito”, claro… Trata-se de uma obra técnica e teoricamente direcionada para a exploração de um sentido experimental, que pode ser avaliada segundo a criatividade de seu processo, e a força de sua concepção musical. Por outro lado, podemos também ressaltar que, em sendo consonante a progressão harmônica em intervalos justos, justifica-se o espanto com o resultado, ou seja, a sonoridade dissonante que perfaz toda a obra. Enfim, uma audição mais que curiosa e interessante, um belo exemplo, ainda que desconhecido, do que o frescor do minimalismo americano propiciou a certos compositores europeus. (Bernardo Oliveira)

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Um comentário em “Catherine Christer Hennix – The Electric Harpsichord (2010; Die Schachtel, Itália [EUA/Holanda])

  1. AM
    2 de novembro de 2010

    Disco lindo, Pessoal. E, diante disso, só me restam pronunciamentos sintéticos de alto valor semântico, tipo “Putaquepariu”. 🙂

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Publicado às 28 de outubro de 2010 por em clássica, experimental e marcado , , , , .
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