Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Oval – O (2010; Thrill Jockey, EUA [Alemanha])

Oval começou como um trio formado na Alemanha por Markus Popp, Sebastian Oschatz e Frank Metzger no começo dos anos 90. O projeto ficou rapidamente famoso  por seus métodos de composição, trabalhando a partir de defeitos de leitura de CDs e criando softwares para processar e criar a música, inaugurando aquilo que viria a ser chamado de música glitch. O primeiro disco é Wohnton, de 1993, mas foi com os dois discos seguintes, Systemisch (1994) e 94diskont (1995), que o trio adquiriu reconhecimento. A partir do álbum Dok, de 1998, Oval passa a ser um projeto solo de Markus Popp. O é o sétimo álbum do Oval e quebra um silêncio de nove anos do projeto (um EP intitulado Oh antecedeu em dois meses o disco), e o título para Popp representa um novo começo de carreira.

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Só o formato do disco já aponta para a ambição da empreitada. Disco duplo, setenta faixas, durações e formatos inusitados de composição. Bom, esse último quesito já não era novidade na carreira do Oval desde que os 24 minutos de “Do While”, que abria 94diskont, fazia vários ouvintes serem vencidos pelo excesso Mas em O é o oposto, já que grande parte das faixas (e quase o disco 2 inteiro) termina antes da marca de um minuto e meio. Tudo isso, no entanto, é secundário diante da monumental guinada no modo de fazer música do Oval. Se antes o conceito e o processo estavam à frente do resto, provocando audições cerebrais e frias – ainda assim intensamente estimulantes pelas invenções de timbre e ritmo -, em O é a inspiração do compositor que toma a frente, produzindo faixas singelas, introspectivas, possivelmente frias também, mas carregadas de um lirismo até então inimaginável para aqueles que acompanhavam a música criada por Markus Popp. Tanto nas faixas miniaturizadas (consideradas como “ringtones” pelo próprio Popp) quanto nas poucas faixas mais extensas (apenas doze ultrapassam os 2min30 e nove os 3min), o diálogo com uma musicalidade mais tradicional é patente, e faz surgir um tipo de beleza franca e imediata inexistente na obra pregressa do projeto. As descobertas de timbre e ritmo permanecem o fator determinante das composições, mas numa chave de beleza muito diferente. Para arrematar a reinvenção da música do Oval, grande parte dos sons que ouvimos sugerem a familiaridade com instrumentos tradicionais, sejam as cordas processadas que evocam harpas, violões ou cítaras, sejam os sons de teclado harmonizando, sejam as baterias acústicas que surgem nas composições mais extensas interagindo com os fraseados melódicos. Os fãs, contudo, não precisam se preocupar: por trás de todo ímpeto de renovação, a música que surge em O mantém, ou mesmo amplia, o rigoroso poder de coesão e conceito sonoro que está na base do som do Oval.

Se há um grande protagonista no disco, é a força dos timbres melódicos. Falamos antes da familiaridade com sons de instrumentos de cordas, mas o que Markus Popp tira dali é absolutamente impressionante. O instinto inicial é comparar com as faixas de drukqs em que Aphex Twin trabalhou as sonoridades de piano preparado, tanto pela singeleza dos timbres encontrados quanto pela dialética familiaridade/estranhamento provocada pelos sons que evocam mas se distinguem claramente das sonoridades originais dos instrumentos. Mas a utilização desses timbres está a serviço de estratégias de composição radicalmente diferentes. As faixas de O são lentas e espaçadas, trabalhando com uma gama timbrística relativamente homogênea mas soberbamente explorada em todas suas minúcias, fazendo surgir uma sensação de pureza sonora avassaladora. Parecem, se é possível a comparação, caixinhas de música de uma outra dimensão.

É uma música exigente. Exigente na forma de demandar constante atenção às variações subreptícias, ao poder de ataque de cada célula melódica, à forma como as células interagem melódica e ritmicamente. Exigente também pelas quase duas horas de música, pelo caráter quase fragmentário das faixas e pela aparente monotonia provocada pela ausência de curvas dramáticas na passagem entre faixas. São basicamente 70 faixas que funcionam numa mesma pegada. Talvez o disco funcione melhor sendo degustado aos pedaços, às vezes cinco, duas, uma faixa por vez, dependendo da disposição do ouvinte. Pouco importa: estamos diante de uma música radicalmente singular, produzida com uma maestria ímpar e com um poder emocional sutil, mas que a cada irrupção sonora é capaz de provocar abalos subterrâneos que tiram nosso chão e nos fazem acreditar que estamos diante de alguns dos mais belos sons que já pudemos ouvir. É de fato um novo começo: a música do novo Oval brota com uma originalidade instauradora. (Ruy Gardnier)

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A música como produto de um procedimento específico, claramente proposto pelo autor, de forma a fazer parte do próprio resultado sonoro. A música composta como uma forma de iluminar o percurso, e não o ponto de chegada, que se ampara mais na sua própria construção do que nas estruturas de composição, mas que ao fazê-lo, demanda do ouvinte uma análise para além da recepção imediata. Eis o que venho considerando a “música de procedimentos”, uma modalidade que não é exatamente nova em termos de composição, mas que o incremento dos equipamentos eletrônicos e das possibilidades de manipulação de dados vem  notoriamente ampliando. Muitos são os compositores no passado que investiram nesta possibilidade, como Stockhausen, Delia Derbyshire, Pauline Oliveros, Glenn Branca, John Cage, etc. A lista é longa. Mas atualmente não se trata de uma possibilidade marcante, geralmente acompanhada por uma autoria que a reforça. Trata-se de um estado de coisas, uma situação para o qual O surge como um exemplar penetrante, que renova não somente o trabalho do autor, mas também as possiblidades de se pensar a música sob outros ângulos. Se isto é verdade, ainda assim podemos ressaltar o nome de Markus Popp entre os compositores mais instigantes dos últimos vinte anos, pois além de pioneiro na elaboração de métodos de conversão de dados não-musicais em som, tematiza estes procedimentos, tornando-os centrais em sua música.

Por outro lado, é certo que O possui toda uma aura inaugural, a começar pelo título, que segundo o próprio autor pode ser concebido como uma espécie de marco zero. O considerável espaço de tempo entre Ovalcommers, de 2001 para este O e o EP Oh, também de 2010. E, de fato, parece que O exprime uma mudança radical na obra de Popp. A duração e o fôlego de suas sententa faixas, como se o autor estivesse escrevendo a suma de sua obra, ainda que às avessas, testemunha um processo de reconstrução onde o excesso opera como motor da ruptura. Se antes a música de Oval era, em suas próprias palavras, uma música 3D, que levava em consideração um tríptico formado pela criação, o processo e a recepção, desta vez o aspecto musical se fortaceu de tal forma que é possível atribuir ao disco uma qualidade musical proeminente em relação aos álbuns anteriores – co-estendendo esta novidade ao ep Oh. E isto se comprova não somente através de informações contidas no release do disco, onde se pode verificar que Popp não criou uma plataforma de conversão, mas operou sobre um PC repleto de sons, mas também pela própria riqueza musical. São impressionantes a intrincada imprecisão das tramas polirítmicas, a mescla perfeita e bem dosada entre sons de comuns (de bateria, de teclado) e timbres inusuais – mais especificamente, cordas truncadas em pizzicato e tapping e timbres de piano que possuem algum laço com os pianos preparados de Drukqs – e, sobretudo, a manipulação dos volumes, que, juntamente com a beleza das texturas e timbres, estabelece um jogo entre tensões e distensões que imprime no álbum um caráter bastante diferenciado em relação aos primeiros álbuns do Oval. Uma mudança radical, sem dúvida, mas condizente com o teor desbravador que Popp sempre fez questão de destilar em seus álbuns. Absolutamente indispensável. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 28 de outubro de 2010 por em eletrônica e marcado , , , .
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