Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Brian Eno (com Leo Abrahams e Jon Hopkins) – Small Craft on a Milk Sea (2010; Warp, Reino Unido)

O inglês Brian Peter George St John Le Baptiste de la Salle Eno é conhecido por suas proezas, que lhe renderam o reconhecimento como um dos artistas mais influentes e versáteis da segunda metade do século XX. Fez parte do Roxy Music, misturando sintetizadores, androginia e filosofia ao rock’n’roll. Como músico e produtor, colaborou com uma ampla gama de artistas como Harmonia, Talking Heads, David Byrne, David Bowie, U2, Cluster, Robert Wyatt, King Crimson e Coldplay. Gravou discos solo importantes, através dos quais criou a Ambient Music.  Não se restringiu à música, atuando também nas artes visuas, tecnologia, educação, ciência e política. Recentemente teve sua biografia escrita por David Sheppard, On Some Faraway Beach: The Life and Times of Brian Eno. Small Craft on a Milk Sea, seu vigésimo quarto álbum solo, foi elaborado a partir de sessões de improviso com outros dois músicos-produtores: Jon Hopkins (programação e teclados) e Leo Abrahams (guitarras e computadores). Hopkins trabalhou com Four Tet e Massive Attack, e Abrahams com Grace Jones e Paul Simon. (B.O.)

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Não basta repetir que desde a década de 70, poucos artistas foram tão influentes como este inglês que carrega a nobreza no nome e nos modos refinados. Muito menos insistir que parte desta influência não se justifica tanto na sonoridade, mas na postura – caso contrário, seus discos não seriam tão peculiares… em termos de sonoridade. Cada álbum solo de Brian Eno carrega ao mesmo tempo o espectro de suas notáveis colaborações, mas, sobretudo, algum maneirismo, algum elemento que lhe é próprio, que constitui sua notória idiossincrasia. A princípio, basta tomar a variedade de climas, ambientes e paisagens que definiriam estratégias marcantes para seus próximos álbuns e também na colaboração com David Bowie, basicamente o genial Taking Tiger Mountain (By Strategy), de 1974, e a ambient clássica em Discreet Music. Depois vieram os seus “clássicos”, respectivamente Another Green World e Before and After Science, discos mais lapidados e teoricamente elaborados, e por isso mesmo mais regulares e intensos que as experiências desbragadas e irregulares dos primeiros. Daí vieram os álbuns com Bowie, Talking Heads e David Byrne, a colaboração com Harold Budd e com mavericks do progressivo experimental e do Kraut, como Cluster, Harmonia, King Crimson e Robert Fripp. Alguns desses discos, notadamente os da virada da década de 80 para a de 90, bambearam na construção conceitual, recaindo vez ou outra naquele tipo de armadilha estética que, vá lá, só é comum entre os gênios, mas que não deixa de ser uma armadilha: a auto-indulgência, a cômoda repetição, completamente despida de algum acréscimo ou incremento substancial. Mas o fato é que o mago-produtor, o músico-pensador, continuou a nos surpreender, promovendo, por exemplo, uma guinada de grandes proporções para o U2 e novamente para Bowie, instalações, intervenções em artes plásticas, teatro, cinema, e até mesmo participando, juntamente com outros profissionais, da Long Now Foundation, orientada para estimular projetos de longo prazo, buscando aprimorar o pensamento em uma escala mais lenta que a imposta pela dinâmica da modernidade. Mas o que Small Craft on a Milk Sea tem a ver com tudo isso? Tudo, simplesmente tudo.

Small Craft on a Milk Sea é um grande álbum de Brian Eno como não ouvíamos desde Nerve Net, e posso afirmar: ainda melhor que Nerve Net. E o que ele traz que não existe em nenhum outro álbum de Eno? Apenas alguns pequenos achados, não muitos, mas todos dispostos de forma a constituir  um álbum coeso e, por isso, poderoso. Desta vez, seus companheiros de viagem são Leo Abrahams e Jon Hopkins, dois músicos  plenamente identificados com a escola Eno de pensamento musical, que souberam desenvolver de forma brilhante a matéria-prima sobre a qual Eno imprimiu um caráter deformador na mixagem final. A diversidade de temas e possibilidades destoa da dinâmica austera do branco-sépia que dá o tom da belíssima capa, manifestando-se como uma pletora criativa que, repito, ao mesmo tempo reforça as qualidades econômicas de sua música e destila novos elementos. As “paisagens sonoras”, geralmente associadas aos álbuns ambient, representada por pelo menos nove das dezesseis faixas do álbum, convivem com noise (”Horse”), batidão (“Bone Jump”, com sua incrível melodia dodecafônica), objetos não-identificados (“Paleosonic”, “Flint March”) e até mesmo o bom e velho rock’n’roll em “2 Forms of Anger”. Mas que o leitor não estranhe a proporção de faixas ambient, pois não se trata da ambient tal como Eno produziu em outros álbuns, mas de delicadas peças de improviso quase mediúnico, cada uma com uma particularidade a ser ressaltada, como por exemplo o convívio conflituoso e instigante de ambiência abrasiva e melodia soturnas em “Slow Ice, Old Moon”, a tensão dramática de “Calcium Needles”, talvez um reflexo do fato de que boa parte das faixas deste álbum foram compostas como trilha-sonora recusada para um filme não lançado. Se é possível apontar semelhanças entre as faixas ambient deste e de outros álbuns, isso só reforça a tensão característica da obra de Eno, e que a faz instigante até hoje.

Um álbum de vanguarda, de uma vanguarda que é ao mesmo tempo a ponta, o processo e o conceito, a inovação e o “espírito da época”, a colaboração e a personalidade, a fluência e a manipulação, a música e as artes, a ex-música, a não-música, a música extra-auricular, a música de Johann Sebastian Bach e dos ragas milenares que Eno estudou com Pandit Pran Nath. Trata-se de mais um objeto simultaneamente conhecido e não-identificado, mais uma proeza. O equilíbrio que ele criou para si próprio, qual seja, entre um élan puramente subjetivo e a habilidade de contrair o espírito de seus parceiros, perfaz Small Craft on a Milk Sea de uma forma que, ao mesmo tempo, remete ao seu gosto por colaborações, mas mantém, sem dúvida, o caráter “desconstrutivista” de sua música. (Bernardo Oliveira)

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Disco novo de Brian Eno? Boas novas. Coloquemos para ouvir. “Emerald and Lime” não começa muito convidativa, parecendo, se tanto, um Angelo Badalamenti em modo xarope sentimental, com arpejos e progressões profundamente banais. “Complex Heaven” melhora um tanto a situação, com uma melodia mais esparsa e uma bela ambiência espacial proporcionada por uma tensa cama de frequências graves e intermitentes barulhinhos ondulantes de sintetizador. A faixa que da nome ao disco vem em seguida, cmo uma melodia sem maior relevo sendo compensada por dosados pulsos de subgrave e sininhos acutíssimos e persistentes. No cômputo geral, um começo curioso, apenas.

Depois entra a parte agitada do disco, com “Flint March”, “Horse”, “2 Forms of Anger”, “Bone Jump” e “Dust Shuffle”. É um momento que à primeira audição dá relevo ao disco, mas que aos poucos se revela igualmente pouco inspirado. Talvez as linhas hipersaturadas de sintetizador em “Horse” sejam a única coisa realmente distintiva nessas faixas, porque de resto só ouvimos batidas requentadas de big beats (“Dust Shuffle”) ou de breakbeat roqueiro (“Horse”) que soam algo constrangedores desde que Prodigy e Chemical Brothers viraram padrão pra trilha sonora de comerciais de produtos jovens, programas de esportes radicais e videogames. Mas o pior não é isso: é a maneira como essas faixas são construídas sem ter muito para onde ir, o que dá excelentes momentos climáticos (a intensidade percussiva da primeira metade de “2 Forms of Anger”), mas parece solto de uma construção mais estrita. Em “Bone Jump” a coisa chega ao pastiche: quem imaginaria um dia Brian Eno copiando John Carpenter com uma batida francamente vagabunda?

“Paleosonic” é a única faixa do disco aparentemente construída e pensada em todas as etapas do processo, sem os timbres banais que as outras faixas de uma maneira ou outra ostentam. Nela se vê relances do que realmente pode Brian Eno em seu melhor, com um arranjo integrando elegantemente guitarras com efeito e sons sintetizados para a criação de uma atmosfera cerebral porém lúdica. As sete faixas seguintes voltam ao modo contemplativo, entre o pianinho moroso sub-Badalamenti (no seu pior, “Emerald Stone” ou “Lesser Heaven”) e as explorações de frequências subgraves pairando sobre melodias fragmentárias (em seu melhor, “Written, Forgotten”). Cabe a menção a duas faixas particularmente, “Calcium Needles” e “Invisible”, que fundem ambiências de field recordings com melodias arquetípicas e saem-se bem no intento (ainda que não sejam nada de surpreender).

Disco novo de Brian Eno? Bom, sim, e pela Warp, o que já dá um hype e uma boa vontade a mais. Mas a verdade é que a maior parte das composições de Small Craft on a Milk Sea seria absolutamente esculhambada caso aparecesse num desses discos de modern classical/easy listening, e que no geral o disco não soa tanto como um álbum de carreira mas como uma sessão de estúdio ligeiramente retrabalhada e lançada sem maiores ambições. No fundo, até espero que assim seja. Significa que Brian Eno está simplesmente pegando leve, não que ele perdeu o enorme senso de foco que ele tinha quando fez seus trabalhos mais importantes e ambiciosos. O fã talvez encontre um ou outro motivo de regozijo, mas trocando em miúdos Small Craft on a Milky Sea é um disco medíocre com alguns momentos sonoros que merecem ligeiro entusiasmo. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 2 de novembro de 2010 por em ambient, eletrônica, experimental, vanguarda e marcado , , , .
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