Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Sufjan Stevens – The Age of Adz (2010; Asthmatic Kitty, EUA)

Sufjan Stevens é um cantor e multi-instrumentista americano (Detroit, MI) nascido em 1975. Seu primeiro disco é A Sun Came, de 2000. Em seguida veio Enjoy Your Rabbit, de 2001. Em seguida, iniciou um ambicioso projeto de fazer um disco para cada um dos 50 estados americanos. O primeiro a surgir foi Michigan (2003), homenagem a seu estado natal. Seven Swans veio no ano seguinte. Illinois (ou Come on Feel the Illinoise, como também é conhecido) foi o segundo e último da série “50 States Project”. No ano seguinte lançou The Avalanche, disco com sobras das gravações de Illinois, e Songs for Christmas, uma caixa com cinco EPs de músicas de natal gravadas entre 2001 e 2006. Em 2009 lançou Run Rabbit Run, um disco com versões para quarteto de cordas de músicas de Enjoy Your Rabbit arranjadas por outros compositores, e The BQE, trilha de um espetáculo criado por Stevens envolvendo cinema e orquestra, tendo como tema a estrada Brooklyn-Queens. Em  agosto de 2010, lançou o EP All Delighted People, e dois meses depois veio The Age of Adz, seu primeiro álbum de canções desde Illinois. O título (“Adz” é uma corruptela de “odds”) é inspirado no trabalho do artista Royal Robertson, falecido em 1997, e a capa é uma de suas criações. (RG)

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Dentro de searas tão mansinhas quanto as do pop barroco e do indie rock, é difícil imaginar figuras tão absolutamente idiossincráticas quanto Sufjan Stevens. Cada um de seus lançamentos,como acontece com Richard D. James e já aconteceu com Frank Zappa (duas figuras provenientes de “cenas” ou nichos nada mansos já de início), dispara uma nova faceta até então inimaginável previamente. Stevens é um tradicionalista, tem voz angelical, seu banjo é delicado (assim como os outros instrumentos que toca) e parte de seu talento é para produzir canções dulcíssimas, quase excessivamente açucaradas. Por mais que esta descrição o insira num molde domesticado, as guinadas que ele dá com sua carreira não poderiam ser mais diferentes desse enquadramento “pastoral”: ele faz projetos audiovisuais sobre estradas (The BQE), série abandonada de álbuns sobre os estados americanos (Greetings From Michigan, Illinois), organiza disco com arranjos de cordas para suas composições (Run Rabbit Run) e assim por diante. Mais cedo nesse ano, lançou um EP do tamanho de um álbum e agora vem com The Age of Adz, um álbum que talvez seja o mais confessional de sua carreira – o que não é exatamente difícil, uma vez que trata-se de um cantor/compositor que nunca fez questão de abdicar de seu ego como tema para composições – e que, além disso, não depende de um conceito duro para moldar toda sua estrutura.

A novidade, então, é que Sufjan Stevens fez um álbum como outros artistas costumam fazer um atrás do outro? Não exatamente. Maníaco por controle e perfeccionista, Stevens modula os arranjos de The Age of Adz para soar como um álbum incrivelmente coeso, baseado nos mesmos tipos de fontes sonoras – voz do cantor, cordas, bateria eletrônica, coro feminino essencialmente – e flerta ligeiramente com o álbum conceitual ao pinçar referências a Royal Robertson. Mas isso tudo flutua subrepticiamente pela percepção do ouvinte. O que chama realmente a atenção são as articulações inusitadas que o artista faz. Todos sabem que Sufjan Stevens adora formatos tradicionais, como marchas, cantos de torcida, canções de natal. Mas misturar esses formatos com synthpop? Juntar seus intrépidos movimentos de cordas tangidas com esguichos de sintetizador e bateria eletrônica? Criar um épico de 25 minutos com direito a vocoder ou autotune à moda T-Pain, e ainda por cima com movimentos mesclando folk, soul e electro? Parte da graça (ou da genialidade mesmo) de Sufjan Stevens é orquestrar proezas que na teoria todos apostariam que resultariam em desastre. Incrivelmente ambicioso nos arranjos, alternando momentos grandiloquentes e outros absolutamente vulneráveis, trabalhando com temáticas pronunciadamente mais pessoais, Stevens faz com The Age of Adz seu disco potencialmente mais arriscado. Se é bem sucedido? Basta ouvir os clímaxes de polifonia de “Too Much” e “Age of Adz”, as variações de clima criadas em “Impossible Soul”, as notas aveludadas do piano que dão início a “Vesuvius”, uma canção que de tão perfeita chega a doer, para confirmar que Sufjan Stevens permanece sendo um músico no ápice de sua forma, cada vez mais experimental, criando terremotos subterrâneos com sua voz e seu rostinho de bom moço. O EP All Delighted People já lhe havia garantido um lugar significativo na narrativa musical desse ano que já se termina. The Age of Adz chega para alçá-lo ao restrito grupo de nomes essenciais de 2010, junto com Joanna Newsom, Eleh, Yellow Swans, Oval, Big Boi e mais uns poucos… (Ruy Gardnier)

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A famigerada expressão “a volta dos que não foram” cai bem para explicar a dinâmica curiosa deste ano de 2010. The Books, Third Eye Foundation e até mesmo a auspiciosa promessa feita por Richard D. James se alternaram na cena com nomes ultra-novos como Dj Nate, Janelle Monáe e Breakage, sublinhando o compasso retroalimentar que vem nutrindo a música atual. Sim, porque enquanto alguns dos artistas mais ousados das últimas duas décadas trazem modulações precisas de seus respectivos trabalhos, os caminhos outrora abertos por seus experimentos renderam frutos em diversos níveis, que, de uma forma ou de outra, perduram através da personalidade de muitos artistas contemporâneos. Não se pode entrever nas tramas rítmicas de Dj Nate a presença fundamental do Aphex Twin, ou mesmo a genealogia da música eletrônica inglesa através do trabalho vigoroso de Breakage? Há, de fato, um “excesso de informação”, como gostam de repetir à exaustão os comunicólogos, mas a verdade é que o substrato deste “excesso” diz mais a respeito daquele que o detecta do que dos milhares de autores e projetos espalhados pelo globo. A mim intriga mais a ideia de que, apesar do tal excesso, permanece insistentemente no horizonte da produção musical um aspecto, uma qualidade que traduz o elemento alienígena, aquele que nos obriga a reconfigurar a perspectiva sobre o “novo”. E, como o leitor pode observar, existem muitas formas de detectá-lo.

Stevens, assim como o Aphex Twin, The Books e Third Eye Foundation, elabora uma concepção musical que pode ser avaliada sob a rubrica da contradição. Quanto mais ele reitera sua particularidade, quanto mais experimenta novas forma de apresentar seu discurso musical, mais alude à época, mesmo quando parece dar uns passos atrás ou à frente, mesmo quando se esforça em remeter os arranjos a uma sonoridade estabelecida ou desafiadora, tudo conspira para afirmar uma qualidade do presente que se traduz no excesso, mas como que recortando sua própria vivacidade deste mesmo excesso, surfando sobre a volúpia com que ele toma de assalto não somente a arte, mas também o mercado, o hype e, é claro, a vida. Uma série de fenômenos e teorias podem sugerir explicações diversas, mas não existe campo mais adequado para sentir o “espírito da época” do que a música. E a que faz Sufjan Stevens tem o poder de nos reportar a toda uma gama de sentimentos de época, como a saturação, a nostalgia prematura, o orgulho do presente, a apreensão da velocidade…

Sufjan Stevens, o queridinho da América, está presente em The Age of Adz (lê “odds”) com todos os maneirismos que ratificaram seu nome como um dos maiores compositores dos 00’s. As orquestrações grandiloquentes, que muitas vezes exigem um nível de execução acima da média, convivem com melodias sinuosas e temas ambíguos, simultaneamente românticos e inquietantes. Entretanto, inclua nesta fórmula consagrada a utilização expressiva de sons pronunciadamente sintéticos (ruídos, batidas, teclados), utilizados de forma a configurar uma faceta, se não completamente diferente, bastante alterada de seu trabalho. Com a inclusão destes elementos, Stevens reforçou o caráter sombrio das composições, outrora presente de soslaio através de canções como “John Wayne Gacy, Jr.” e “Casimir Pulaski Day”. Antes, a letra bizarra destoava da música, quase sempre graciosa, mesmo em compasso composto e repleta de dissonâncias. Ocorre que a música, acrescida do poder singular dos sons sintéticos, nem simplesmente melódicos, nem meramente rítmicos, mobiliza o ouvinte pela tensão sabiamente controlada pelo autor. Orquestração pesada, tramas eletrônicas e canções precisas fazem com que o resultado seja, desde já, clássico. “Too Much”, “Age of Adz”, “I Want to Be Well” são faixas que certamente desempenharão um papel central nos shows e na obra de Stevens como um todo. Assim como “I Walked”, a quarta faixa, que emociona pelo equilíbrio preciso entre lirismo e inovação, entre um conteúdo pop irremediável e sua apresentação poderosa. A  última faixa, “Impossible Soul”, vinte e cinco minutos acachapantes que contam com a presença de Shara Worden, do My Brightest Diamond, é a mais impressionante do disco: uma coleção eloquente de detalhes imprevisíveis que variam de viradas de baterias, guitarras de rock, coros falados e um intermezzo tecnopop que parece conduzir a faixa para seu fim, quando na verdade ela ainda tomará um rumo ainda mais inusitado, como que desmoronando aos poucos até terminar em silêncio. Neste longo percurso, cabe até mesmo a aplicação do famigerado autotune na voz de Stevens – coragem é pouco…

Uma guinada firme em direção a um universo musical ao mesmo tempo familiar e desconhecido, é o que parece The Age of Adz. Convém atrelar estas mudanças às questões aventadas pelo próprio autor, a respeito da saúde debilitada que o manteve relativamente distante da música, do cansaço diante de sua própria obra. Mas nada chama mais a atenção do que a força e o espírito criativo deste jovem de trinta e cinco anos, que mantém a reputação de produzir o que de mais relevante o “espírito da época” tornou possível. The Age of Adz é, além de um enorme prazer, a reiteração da genialidade de Sufjan Stevens. (Bernardo Oliveira)

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Um comentário em “Sufjan Stevens – The Age of Adz (2010; Asthmatic Kitty, EUA)

  1. Eduardo
    20 de novembro de 2010

    Estou escutando agora o Age of ADZ. Muito foda! Todos deveriam escutar isso!

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Publicado às 18 de novembro de 2010 por em pop e marcado , .
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