Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Vários Artistas – Tradi-Mods vs. Rockers – Alternative Takes on Congotronics (2010; Crammed, Bélgica)

A gravadora belga Crammed, responsável por lançamento de grupos como Konono n°1 e Kasai Allstars, reuniu artistas de diversas nacionalidades e procedências musicais para reinterpretar faixas dos três volumes da série Congotronics. Juana Molina, EYE, Animal Collective, Deerhoof, Mark Ernestus e Shackleton estão entre esses artistas. (B.O.)

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Remix, refix, versão, “cover”… Muitas são as possibilidades de se considerar a interpretação, variando a definição de acordo com o grau com que o autor se permite alterar sua referência. Existe também álbuns conceituais que apostam na junção de dois ou mais artistas, geralmente discrepantes, como foi o caso da trilha sonora do filme Judgement Night. Mas o caso deste CD duplo Tradi-Mods Vs. Rockers, traz uma possibilidade híbrida, juntando duas ou mais modalidades de interpretação ao mesmo tempo. Temos aqui uma profusão de faixas que variam do refix mais radical à interpretações mais próximas do original, sempre com uma atitude de saudável desrespeito para com a sonoridade e o conceito dos Congotronics, já bastante diferentes entre si. Tradi-Mods Vs. Rockers já seria um álbum do maior interesse somente pela disposição de reunir uma seleção de artistas tão diferentes e variados, em torno de uma sonoridade que há quinze anos seria considerada “exótica”. E mais ainda pelo resultado de algumas de suas faixas, que projetam o disco para além da mera curiosidade.

Entre esses trabalhos, destaco o magistral refix de Mark Ernestus para uma faixa do Konono n°1, “Masikulu Rhythm (Bonus Track)”, no qual o produtor explora célula curtíssimas, retiradas da faixa original, para criar uma estrutura abafada, operando com o volume extremamente comprimido e de forma massivamente repetitiva. O resultado é intrigante, plenamente condizente com o trabalho de Ernestus. “Konono Wa Wa Wa” por Yamatsuka Eye também surpreende pela transfiguração absoluta proposta pelo vocalista japonês, através de uma colagem repleta de “movimentos”, variando do noise-pop ao disco-punk. Shackleton, como sempre, não decepciona com seu remix/refix “Mukuba Special”, no qual a faixa do Kasai Allstars é até lembrada, mas em função daquele clima fantasmagórico, característico nas produções do autor. “Enter the Chief”, com o Woom retrabalhando a música do Kasai Allstars traz alguns dos momentos mais tensos do disco, com sua colagem concretista à la Prefuse 73. Juana Molina usa um riff do mesmo Kasai para criar a graciosa “Hoy supe que viajas”, a mesma estratégia adotada pelo produtor Burnt Friedman em “Rubaczech” e pelos Hoquets em “Likembes”. Dignos de nota também “Traducteur de Transmission”, excelente trabalho do percussionista americano Glenn Kotche, remixando Konono, o refix alucinado “No.K”, com o mesmo Konono e Micachu & The Shapes, a dreampop “Kiwembo/Unstuck”, parceria do Skeletons com Mimanisa, Deerhoof com Kasai Allstars em “Travel Broadens the Mind” e a ótima “Nombre 1!” com Oneida, entre outros. Sim, a faixa do Animal Collective com o Kasai Allstars é um bom exemplo deste desprendimento, mas talvez não tenha obtido um resultado à altura dos últimos lançamentos do grupo.

Por mais que a variedade de sotaques e perspectivas salte aos olhos, o que determina o sucesso do álbum é o fato de que a maioria dos produtores e artistas preferiram usar os Congotronics para construir faixas marcadas por seus própros maneirismos, ao invés de buscar somente reinterpretá-las. E, de fato, parece que Tradi-Mods vs. Rockers é um trabalho único no cenário das interpretações, que traz um apanhado de possibilidades, nem todas exitosas, mas entre elas, algumas pequenas obras-primas, como as que assinalei acima. (Bernardo Oliveira)

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Há dois aspectos importantes em que a curadoria de Tradi-Mods vs. Rockers é exemplar. O primeiro deles diz respeito ao nome “alternative takes” ostentado no título da compilação. Sob essa expressão, a coletânea se descortina com todo desprendimento para exibir mesclas inesperadas em que o grau de parceria propriamente dito é absolutamente variável: o encontro x de um artista da AmerikEuropa com um artista congolês pode se dar em vias colaborativas, ou seja, na criação conjunta, mas também pode ser uma recriação aos bons moldes do remix selvagem/reconstrutor (uma prática que, com mais de 15 anos, já está devidamente constituída, e os nomes novos que aparecem denunciam mais charme de título do que um estatuto distinto propriamente falando). Mas não é no conceito que essa junção de várias modalidades de “takes alternativos” impressiona, e sim na absoluta coesão sonora apresentada pelos dois discos e as 28 (contando as duas de bônus) faixas de Tradi-Mods vs. Rockers. É claro que em grande parte do disco dá para saber o que é o quê, mas o decisivo não é isso. O essencial a se notar é como tudo dá liga, criando uma pregnante atmosfera de indiscernibilidade em que tudo se mistura. Primeiro ponto.

O segundo aspecto, possivelmente mais importante ainda, diz respeito ao modo como os artistas da amerikEuropa e os do Congo são ouvidos no disco. O trunfo da operação, no caso, deve ser dividido entre a curadoria e os músicos: a curadoria porque conseguiu selecionar artistas aptos para tal propósito, e aos artistas cabe a franca execução, trabalho ou retrabalho com/em cima dos sons garbosamente chamados de Congotronics. A operação em si? A coisa mais importante do disco: todas as faixas do disco operam mutações em que o registro final não pode ser claramente chamado de “africano com retoques de pop/rock/techno” e tampouco “música pop com cor exótica africana”, mas um verdadeiro trabalho de fusão de idiomas, sem hierarquia de repertórios, sem as armadilhas costumeiras de sonoridades transculturais (o kitsch dos trances e technos “viajantes” que tomam emprestado sons da Índia, por exemplo), em que todos os músicos envolvidos encaram cada célula sonora, ritmo e melodia, principalmente por seu valor construtivo, composicional, e se articulam como se, no fundo, não houvesse a menor diferença de âmbito cultural, social ou histórico. A música é um desses terrenos em que esse tipo de utopia é possível, e Tradi-Mods vs. Rockers é uma dessas epifanias em que nossos ouvidos se encontram diante do inominável da música como verdadeira língua franca.

Por conta da variada procedência dos artistas escolhidos – do rock alternativo de Deerhoof, Micachu e Animal Collective até a eletrônica sincopada de Shackleton e Bass Clef, passando por dub techno e folk, indo à Alemanha e à França e chegando até o Japão (Yamantaka Eye dos Boredoms assinando como Eye), e pela variada natureza da colaboração a cada faixa, Tradi-Mods vs. Rockers é surpresa atrás de surpresa, mantendo uma audição calorosa e fluente por toda sua extensa duração. Excetuada a orquestração de cordas tangidas e sopros de Jherek Bischoff para “Kule Kule”, do Konono Nº 1, único momento de franca bobagem de todas as 28 faixas, todas as outras faixas são no mínimo dignas de nota, no máximo dignas de uma paixão intensa. Na primeira categoria estão Andrew Bird, Sylvain Chauveau, Hoquets, Megafaun. Na segunda, os já esperados Shackleton, Animal Collective, Oneida, Eye e principalmente Mark Ernestus, 50% do Basic Channel, que fez com “Masikulu Dub” uma obra de absoluto transe afroteutônico, fundindo os bate-estacas abafados do BC às sonoridades de likembé do Konono Nº1. Os destaques inesperados ficam para as suingueiras de Tussle vs. Konono Nº1 em “Soft Crush” e Burnt Friedman vs. Konono Nº1 com “Rubaczech”. Por tudo que é (na música) e por tudo que representa (pelo conceito e pelas ideias que a música faz antever), Tradi-Mods vs. Rockers é facilmente a melhor coletânea de inéditos lançada esse ano, um OVNI dócil e infinitamente prazeroso de se ouvir. (Ruy Gardnier)

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