Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Shackleton – Fabric 55 (2010; Fabric, Reino Unido)

Sam Shackleton é produtor e dj, um dos ‘favoritos da casa’. Desde 2004 vem lançando faixas por diversos selos como Mordant Music, Hotflush Recordings, ~scape e Perlon. Junto com o também dj Appleblim fundou o agora defunto selo Skull Disco pelo qual lançou alguns de seus trabalhos mais reconhecidos. Agora em 2010 fundou o selo Woe To The Septic Heart! pelo qual lançou o disco de doze polegadas Man On A String Part 1 And 2 / Bastard Spirit cujas faixas estão contidas neste Fabric 55, que foi produzida para o venerado clube londrino Fabric onde se apresentou algumas vezes como dj. (M.M.)

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É possível, ou necessário dizer algo novo a respeito de Sam Shackleton? Aqui na camarilha ele deve ser um dos recordistas em aparições, apesar de sua escassa discografia. No meio do dubstep e seus cruzamentos, onde a cada semana surgem novos talentos e outros tantos são esquecidos mais rapidamente ainda, é curioso ver um produtor que já pode ser considerado mestre sem precisar deixar a vanguarda e petrificar sua música a cacoetes. Sua assinatura é inconfundível e ainda assim a cada novo disco somos agraciados com novas possibilidades, daquelas que nos fazem voltar a antigos discos e reconhecer que não tínhamos ouvido tudo que estava ali.

Quando saiu a notícia de que Shackleton teria um disco lançado pela série Fabric fiquei curioso como seria a adaptação de sua música, cada vez mais insular, a uma prestigiosa série de dance music que nunca perde por completo a referência da pista. Ora, como não podia ser diferente, ele entrega o que precisávamos sem perder sua assinatura e ainda acrescentando algumas voltas no parafuso que embasbacam.

Claro, não é seu primeiro trabalho para a pista, muitos de seus remixes são extremamente dançantes, mas depois do cerebral The Three Eps temia que não houvesse um caminho de volta. E não há. Presente ainda o clima soturno empregado desde os primórdios do seminal Skull Disco, assim como o grave profundo e denso e a percussão desconcertante. Mas onde tínhamos a construção cuidadosa e lenta de estruturas portentosas, temos um corte mais ágil e ligeiro que privilegia uma sensação de euforia estranha a sua música até então. Não sei se em dez anos Shackleton será um dinossauro em turnê pelo mundo levantando pequenas multidões em clube, é improvável e sua música nunca foi e não parece interessada neste tipo de trabalho, mas já o percebo como o Carl Craig de sua geração. O chefão que se imiscuiu de uma forma tão indelével em determinado idioma que se fez clássico sem perder o vigor e o pendor criativo.

O controle criativo é tão grande sobre a obra que remisturando temas clássicos e os inserindo no mesmo contexto de faixas novas, Shackleton consegue um disco uniforme e empolgante – desde já um dos pontos altos da série do clube londrino e assim como seu parceiro/concorrente Ricardo Villalobos, ele valoriza ao extremo a série e eleva o nível de forma absurda, djs preguiçosos com seus burocráticos sets transformados em disco deveriam se envergonhar.

Cada vez mais deixa de ter sentido para a música de Shackleton a discussão sobre suas matrizes, sobre a polinização entre dubstep e techno. Sua música absorveu muitas outras influências, especialmente algo do motorik 4×4 do kraut e um estudo particularíssimo da percussão. O único Dj a jogar no campo de Shackleton e o ombrear é Villalobos e ainda assim o chileno parece ter desacelerado e não encontrado escape de suas radicalizações minimalistas. E talvez aí esteja o ponto onde Shackleton parece o ter deixado em muito para traz, apesar de suas produções serem estoicas e não fazerem grandes concessões, sua música nunca é minimalista. Pelas próprias características da série um dos procedimentos característicos de Shackleton que é mesclar elementos díspares parece aprofundado, a percussão tribal confrontada com um baixo sinistro, um tom soturno de trilha sonora de filmes de horror mas de rara vividez.

Exemplos de mestria abundam, mas basta ouvir a forma como a linda e inédita ‘Come Up’ se desenvolve e se funde com a já clássica ‘Moon Over Joseph’s Burial’, aqui em versão mais enxuta. Isso acontece durante todos os mais de setenta e quatro minutos do disco.

Fabric 55 não é um disco oportunista de djset nem é mera compilação. O próprio Shackleton já avisou que nem todas as faixas devem receber lançamento autônomo, algo que deve certamente acontecer com um dos pontos altos do disco que são os interlúdios que funcionam como transição entre as faixas e que carregam muitas vezes ideias tão ricas, ainda que fugazes quanto algumas das faixas.as novas faixas estão tão boas que o fato de ‘International Fires’ vir logo após à seminal ‘Death is Not Final’ em nada depõe quanto à sua qualidade.

Cada novo disco é novo motivo para assombro, fiquemos ouvindo este Fabric 55, um dos grandes discos do ano e já aguardamos o que sairá de seu novo selo Woe to the Septic Heart! o qual lançará seu novo projeto Refugees of the Septic Heart, com participação de Vengeance Tenfold que deu os vocais de ‘Death is Not Final’.

A jornada musical de Shackleton pode não ser tão conhecida quanto a de seu antepassado aventureiro, pode não ter explorado a Antártida, mas é igualmente ousada em seu ímpeto explorador, aqui das paisagens bravias de sua mente inquieta. (Marcus Martins)

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Quão improvável é a escolha de Shackleton para assinar um dos discos da série Fabric? Sua música passeia por uma série de subgêneros da música eletrônica, mas ele dificilmente se inscreve em qualquer deles. E por mais que algumas de suas faixas possam funcionar em pistas de dança, elas se prestam mais, pela minúcia e por seus momentos introspectivos, à audição atenta, caseira. Suas grandes bravatas não são ganchos melódicos ou rítmicos, muito menos slogans vocais, mas as sutis progressões rítmicas de células percussivas discretas – guisos, chocalhos, contratempos, atabaques, congas, sinais processados, em oposição à fórmula de caixa, bumbo e prato corrente em 99% da música feita para dançar – e a virtuosa pesquisa de timbres. Além do mais, sua música é cada vez mais descentrada e cerebral, fazendo menos uso das suntuosas linhas de subgrave e tendendo progressivamente à fórmula ritmo-e-ruídos da gravadora Raster Noton. Qual é o próximo passo, Frank Bretschneider na Fabric? Brincadeiras à parte, é louvável que a Fabric olhe para além do mais diretamente “dançável” e incorpore à sua lista de associados o grande Shackleton e suas experimentações.

Como Ricardo Villalobos e ao contrário da maioria avassaladora de colaboradores de mixes Fabric, Fabric 55 é totalmente Shackleton, num mix contínuo de 75 minutos que mistura algumas faixas já conhecidas e outras inéditas. O produto não é apenas um megamix com as faixas emendando umas nas outras, mas um trabalho delicado de corte e costura de seu próprio material em que certas faixas são reproduzidas em sua integridade (com especial atenção às mais novas, como “Man On a String 1&2”, “Deadman”, “International Fires” e “Busted Spirit”) e algumas mais marcantes aparecem apenas em período suficiente para ter sua presença notada e depois desaparecem, como “Death Is Not Final” e “Asha in the Tabernacle” (renomeada num interlúdio como “Sense It”). O set funciona como uma extensa viagem que, como em Villalobos, privilegia a continuidade mais do que as quebras, abdicando dos picos de clímax em nome da dança-transe. O resultado é um poderoso amálgama de psicodelismo sombrio e abstrato, com vozes e ruídos espaçados flutuando sobre bases rítmicas complexas e elegantes. As faixas finais, pelos efeitos e pelos vocais sampleados, chegam a evocar uma versão mais soturna, à la Mordant Music, do lendário My Life in the Bush of Ghosts da dupla Brian Eno/David Byrne. Será que isso permite entrever uma nova faceta do trabalho de Shackleton, ampliando a abstração e reforçando o aspecto drone/noise de suas células “melódicas”? É cedo para dizer. Algumas faixas da parte final não parecem tão irretocáveis quanto as recém-lançadas “Man On a String” e “Busted Spirits” mas mesmo assim apresentam possibilidades bastante instigantes. Deixemos, porém, o futuro no futuro. Fabric 55, para variar, é Shackleton em pleno exercício de sua criatividade, e portanto mais um disco essencial. (Ruy Gardnier)

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Já perdemos a compostura com Sam Shackleton, isso é evidente. Ele é, sim, parafraseando o Fábio Massari dos anos 90, um dos “preferidos da casa”, não sem um motivo claro e distinto. Enquanto a trama infinita de ramificações da música eletrônica européia e americana se concentra em uma gama de referências quase que exclusivamente pertencente ao eixo América do Norte-Europa-Jamaica, Shackleton lança mão de um vocabulário musical consideravelmente mais amplo, abraçando de forma veemente timbres, escalas e desenhos rítmicos ligados ao universo musical africano e oriental, reforçados por graves profundos e tenebrosos, além de um senso estético eminentemente construtivista, calcado no rigor da progressão, na alternância de elementos e, sobretudo, na valorização da surpresa – ok, um eufemismo para “genialidade”… Permeadas por momentos imprevisíveis, as faixas produzidas por Shackleton demonstram sua condição solitária no panorama da música eletrônica, verificáveis tanto na imprevisível guinada para um trabalho mais abstrato, em Three Eps, como também neste novo desafio que já se configura como um dos pontos altos deste ano: um remix de suas próprias faixas para a série Fabric, pertencente ao selo subsidiário do antológico nightclub londrino. E o resultado, caros amigos, é algo da ordem do espantoso! Shackleton escolheu operar somente a partir de suas próprias composições, ao contrário da grande maioria dos Fabrics até então – à exceção dos realizados por Omar S e Ricardo Villalobos. Mas não esperem ouvir faixa a faixa, à moda de um remix convencional. O autor trabalha sobre seu material com liberdade de bricoleur, recortando células rítmicas, aplicando efeitos e destilando citações. Assim, algumas faixas aparecem somente em tom alusivo, enquanto outras são contempladas praticamente em sua inteireza, inclusive suas duas primeiras produções do Woe To The Septic Heart!, seu novo selo – de onde podemos aguardar boas notícias, a julgar pelo percentual de faixas inéditas que integram o álbum. Em uma hora e quinze minutos do que há de mais abundante e auto-suficiente no cenário da música eletrônica atual, Shackleton  apresenta um set impecável – “sem os erros”, como ele mesmo afirma -, ousado em diversos aspectos, mas que, ao mesmo tempo, é capaz de produzir no ouvinte atento a mais profunda sensação de prazer. Pois sim, perdemos a compostura com Sam Shackleton, porém temos mais um bom motivo para isso. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 3 de dezembro de 2010 por em dubstep, eletrônica, Techno, vanguarda e marcado , , .
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