Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

vários artistas – New York Tropical (2010; Dutty Artz, EUA)

Dutty Artz é um selo novaiorquino criado em 2008 pelos DJs e produtores Jace Clayton (mais conhecido como DJ /rupture) e Matt Shadetek com o objetivo de lançar artistas que transitem por ritmos de países tropicais e música eletrônica rica em graves, a assim chamada “tropical bass music”. New York Tropical é a primeira coletânea da Dutty Artz, compilando alguns artistas que já fizeram seu début pelo selo e alguns artistas estreantes. (RG)

* # *

Jace Clayton tem uma bela utopia. Não apenas como dono de selo, mas também como músico ou como DJ. É a criação de um terreno multicultural em que os gingados de todos os povos se misturem e se interpenetrem, atingindo através da música uma linguagem que incorpore os particularismos (as diferentes línguas, tradições, repertórios musicais) e os universalismos (pela mixagem ou pela aproximação via curadoria, tudo se comunica), que nos impulsione a dançar enquanto nosso cérebro aos poucos vai notando uma completa adesão ao multigeográfico, ao multiétnico, em que o importante não é sentir-se sabido por estar interagindo com capital cultural chique (o fetiche de autenticidade da etnomusicologia), mas sentir-se diante de um tudo-ao-mesmo-tempo-agora que convida as misturas e abre a percepção para um horizonte pós-étnico, em que a identidade cultural não se define pelo passado, mas pelas atividades de que ele aceita fazer parte e o vão constituindo.

Mas não é fácil fazer – propor talvez seja mais o caso – música assim. Na verdade, é muito difícil, porque os processos culturais estão, sim, ancorados em tradições, e fundi-las indiscriminadamente tem grandes chances de ficar ridículo se não for feito com talento e propriedade. Mas quando se traduz uma vivência, quando a fusão é simplesmente o mais natural a fazer, a música brota com uma propriedade quase intuitiva. E Nova York, sede da Dutty Artz e parte do título dessa coletânea, é o cenário apropriado, com seus imigrantes africanos, latinos, e seus nerds de todas as raças e credos antenados com tudo que se está fazendo em termos de ritmo ao redor do mundo. Não é nenhuma coincidência que ao mesmo tempo tenham surgido DJs em Londres tocando house africanizado, que o sulafricano DJ Mujava seja lançado pela Warp Records e que surja nos EUA um subgênero como “tropical bass”, e que todas façam muito sentido dentro de um mesmo contexto, resguardadas as diferenças sonoras.

New York Tropical é um delírio delicioso e irregular, festivo acima de tudo, em que vemos fundidos hip-hop abstrato à DJ Shadow com UK Funky, cumbia com house africano, o velho UK garage com o novo US house, o ghetto house (do qual o juke/footwork é uma corruptela mais radical). Nesses últimos dois anos podemos não ter tido grandes estetas que desenvolveram sons absolutamente originais dentro do terreno da música para dançar – Joker, possivelmente o último, teve seu breakthrough no final de 2008 -, mas tivemos inúmeras propostas auspiciosas de mutação e fusões de gêneros, que redefinem cenas e tornam-se celeiros para novos gênios aprimorarem e desenvolverem seus estilos pessoais. O lado de lá do Atlântico Norte vem fazendo isso melhor que o de cá, mas New York Tropical ostenta algumas faixas vigorosas (as parcerias de Matt Shadetek com Lamin Fofana e DJ /rupture, “Sunshine City” e “Sunset B35” respectivamente) e acima de tudo nos apresenta um veio sonoro de onde pode brotar muita coisa boa, como deixam entrever Knight Magic e La Ola Criminal com suas cúmbias aditivadas, ou DJ Orion com suas pesadíssimas doses de grave e sua insidiosa pegada wonky.

Coletâneas de gravadora podem ser apenas materiais de divulgação para seus artistas. Mas New York Tropical é mais que isso, bem mais. É, em primeiro lugar, a reafirmação em forma de selo da utopia de DJ /rupture. Em segundo lugar, é a afirmação impositiva – impositiva pela qualidade, diga-se – de uma cena que merece ser acompanhada de perto. Que ela esteja em sintonia com as novas etapas do hardcore continuum britânico, mantendo todavia sua unicidade (em especial no flerte com a cúmbia), é talvez motivo para maiores e novas misturas por vir. Quem sabe New York Tropical remixado pela turma do Night Slugs? (Ruy Gardnier)

* # *

A julgar por seus discos autorais, para além da mistureba cultural que propõe como owner do Dutty Artz, a carreira de Jace Clayton, mais conhecido como Dj Rupture, prima por uma curiosa concepção artística sobre o djing. Sobreposições com bpms diferenciados, acelerações, cortes abruptos e outras técnicas, convivem com a uma perspectiva multicultural da música de hoje, sobretudo em mixagens ousadas como Uproot e Minesweeper Suite. Mas o que funciona de forma muito interessante em seus álbuns, nem sempre confere valor aos artistas que se lançam por seu selo, o Dutty Artz. Como a compilação da Night Slugs, a presente coletânea possui o mérito de reportar a uma cena que, sem dúvida, possui seus pontos altos. Mas, ao contrário da compilação da Night Slugs, que apesar de seu enfoque na pista, mantém a regularidade na produção de sonoridades diferenciadas, New York Tropical induz o ouvinte mais ao garimpo do que propriamente ao deleite contínuo. Me lembra, guardadas as devidas proporções, o trabalho de Diplo com a Mad Decent, cuja intensidade se dá mais pela pujança do clima de festa, do que pela generosidade no encadeamento de faixas efetivamente robustas. Ressalto, porém, como na coletânea da Night Slugs, o trabalho de Kingdom, remixando Rita Indiana em “Los Poderes”, além dos momentos nos quais prepondera as apropriações mais ousadas do ritmo sincopado da cumbia, como em “Sin Gás”, de autoria da Ola Criminal, que aproxima o ritmo colombiano do juke de Chicago. Referências sutis e espertas, do candombe (“I’m Feeling Lucky”, com KG)  à rumba (em “This is Love”, a faixa de encerramento, uma das melhores) também pontuam o disco, criando, sem dúvida, uma atmosfera aprazível. Entretanto, é inevitável observar que a compilação da Dutty Artz está mais para Mad Decent do que para Night Slugs, e isso porque, em diversos momentos, apela de forma imediata para fórmulas simplórias e ordinárias. Cabe perguntar se não ocorre uma complexa negociação entre o projeto multicultural de Rupture com a necessidade de sustentar esse projeto através de uma imagem mais “suave” dos ritmos cubanos, colombianos, etc, palatável para as pistas de dança das altas rodas novaiorquinas. Apesar da irregularidade, New York Tropical sustenta o interesse, cria curiosidade sobre seus desdobramentos, mas acaba por impor as ressalvas acima. (Bernardo Oliveira)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: