Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Vários Artistas – Bangs & Works Vol. 1 – A Chicago Footwork Compilation (2010; Planet Mu, Reino Unido [EUA])

Juke ou Juke House é uma modalidade de música eletrônica, criada em Chicago, Illinois. Extremamente veloz (chega a 160 bpms) e sintética, repleta de recortes abruptos e samplers inusitados, o juke costuma embalar o footworkin’, que desafia o dançarino a criar coreografias igualmente velozes com os pés. A presente coletânea, lançada pela mesma Planet Mu  de Mike Paradinas, a mesma que editou o álbum do DJ Nate, é o primeiro registro panorâmico do gênero. (B.O.)

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Inúmeros são os paralelos, em escala mundial, que podemos traçar em relação ao juke. Ele pode ser comparado aos últimos desenvolvimentos do “funk carioca”, do kuduro angolano, do shangaan electro da África do sul, ou ainda do Bubu de Sierra Leone, todos sequenciados, investidos de velocidade e graves profundos, desenvolvidos a partir da matriz jamaicana do djing, do toaster e, em última instância, voltados quase que exclusivamente para a dança. Mas o que faz do Juke uma modalidade musical absolutamente alienígena nesse contexto é que o seu suingue, plenamente contemplado no funk carioca e no kuduro, não se dá de forma clara, ou pelo menos imediatamente identificável segundo a tradição da música negra. O kuduro é uma espécie de champeta acelerada, enquanto o funk carioca já deu sucessivas demonstrações de que é um gênero aberto à mudança radical, migrando do miami bass para inovações rítmicas e timbrísticas de amplo espectro, sendo a mais notória e imprevisível a aproximação com o batuque semelhante ao dos pontos de umbanda. Mas o juke se caracteriza por um registro musical peculiar e original, que a presente coletânea faz a cortesia de flagrar na fonte. Basta dizer que, à exceção de CDrs e mixtapes que circulam pela rede, além dos álbuns de DJ Nate e DJ Roc e singles de DJ Rashad entre outros, dispomos de pouco material sobre o juke, o que enfatiza a importância de Bangs & Works.

Um dos atributos imediatamete perceptíveis do juke é a velocidade, chegando a 160 bpm, o que já elimina de saída a possibilidade de se constituir uma sonoridade mais regular, com dinâmicas rítmicas mais espaçadas e, portanto, aptas a estimular a dança descompromissada. O footworkin’ requer destreza e habilidade condizentes com a rapidez do juke, não é para qualquer um que queira simplesmente balançar o corpo. Outro aspecto é o tratamento dos samplers, dispostos de forma a acompanhar o andamento frenético das batidas e, em muitos casos, propositadamente mal recortados, com o pitch alterado de forma tosca, como se os produtores desejassem sublinhar o caráter sintético do gênero. Neste sentido, podemos dizer que enquanto os produtores do kuduro e do funk carioca se esmeram na produção de um continuum rítimico que busca envolver o dançarino, o juke se orienta por divisões radicais, recortes rítmicos que acabam por desestimular a descontração. E, por fim, o estatuto da palavra falada/cantada, alçada a matéria musical, segundo uma estratégia muito semelhante a empregada por Philip Glass em obras como Einstein on The Beach, o que reforça, para além da percepção imediata, a ideia de que o minimalismo é para o juke uma espécie de “eminência parda”. Em todas as faixas de Bangs & Works, o ouvinte encontrará, de uma forma ou de outra, os três elementos dispostos acima. Mas, sublinho, de uma forma ou de outra, de modo que a audição do álbum se torna uma prazerosa aventura por entre as diversas possibilidades exploradas pelos produtores do gênero.

A começar pela abertura, “Whea Yo Ghost At, Whea Yo Dead Man”, por DJ Elmoe, que se inicia com o sampler de uma balada juvenil, agudíssima por conta do pitch alterado, que é gradualmente picotada, repetida de forma massiva e transfomada em ritmo. Como pano de fundo, o grave aceleradíssimo, e as intervenções percussivas esporádicas, como se fossem viradas. Mas a faixa mais impressionante, criada segundo este procedimento, é “Itz Not Rite”, produzida por DJ Rashad, e que apresenta uma concepção rítmica algo divergente das anteriores, acentuadamente tingida pelo house de Chicago, além do recorte deveras truncado das palavras, que confere mais expressão ao sequenciamento. Dj Roc também se destaca com “Fuck Dat” e “One Blood”, dois exemplos de quão atordoante pode ser o juke, muito por conta do sequenciamento de uma ou duas sílabas do tema original. Já “Eraser”, de RP Boo e “2020”, do DJ Spinn, trazem uma primeira surpresa: uma derivada mais “ambient” do gênero, que contam com menos elementos e repetições menos saturadas, além de melodias que se repetem parcimoniosamente – a esta altura, devo confessar, um refresco mais que necessário. E, é claro, DJ Nate, até então o nome mais interessante e diferenciado desta cena, representado pela já conhecida “He ain’t bout it” e a inédita “Ima Dog”, uma daquelas faixas que sustentam o horizonte de toda uma cena, assimilando algo como vozes new age, à la Enya, com as repetições mais rebuscadas que o Juke pode oferecer.

Se Da Trak Genious nos introduzia ao juke através do trabalho daquele que parece ser seu maior artífice, esta coletânea fornece o contexto e suas possibilidades. Entre pegadas barulhentas e radicais (com destaque para “Star Wars”, de DJ Killa E), flertes com sonoridades mais anuançadas, e até mesmo com a famigerada música romântica (em “I Love You”, com DJ Clent), Bangs & Works oferece  um giro mais do que bem-vindo pelas ruas de Chicago, certamente um dos pontos altos deste ano – juntamente com o shangaan, o bubu, o retorno triunfal de  Sufjan Stevens, The Books e Oval, a ousadia taciturna de Eleh, Shackleton e seu habitual arrasa quarteirão… (Bernardo Oliveira)

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Nos últimos doze meses, os novos rótulos/subgêneros que apareceram com mais força foram synthwave, witch house e juke/footwork. O primeiro é basicamente um movimento retrô que paga tributo às sonoridades de sintetizador dos anos 70-80 e encompassa o gradiente sonoro que vai de Vangelis a Ultravox. A witch house, olhando mais para o presente do que para o futuro, mistura pop “épico” (aquele sentimento de descarga emocional quando se canta junto com Bonnie Tyler ou a senhorita do Evanescence, por exemplo) com r&b, hip-hop e breakbeats, criando híbridos interessantes mas até agora de interesse restrito (apesar de uma ou duas faixas entusiasmantes). Dos três, o juke/footwork é o único que de fato causa um intenso espanto, um verdadeiro desconforto quando ouvido da primeira vez. Quando o ouvido se acostuma, suas faixas são capazes de impressionar pelos contraditórios sentimentos de doçura e agressão simultaneamente, mas inicialmente tudo brota como uma amostra de vandalismo sônico, com loops curtos repetidos ao infinito, andamentos galopantes e batidas cheias de quiálteras e um inevitável sentimento de “isso não é música, ou será que é”. No entanto, toda vanguarda que importa necessariamente produz essa sensação, ou então está só brincando de vanguarda. O footwork soa gratuito, infantil, rústico, e rearranja a partilha de elementos “musicais” e “não musicais” de uma forma que não fora anteriormente prescrita (gêneros como o drone e o noise, sem dúvida muito menos “musicais” em termos estritamente sonoros, já estão escritos pelo quinhão de tradição do gênero e pela reputação de experts de som que têm seus artistas, verdadeiros pesquisadores de eletroacústica, field recordings, diferentes formas de frequência etc.). E como é comum na obra artística que se coloca em terreno fronteiriço no que diz respeito à legitimação, começam os eufemismos e desculpas: “Ah, é música feita sob medida para aquela dança, não é para ouvir sozinho” e coisas do tipo. Com o rock’n’roll, com a disco music, com o hip-hop, com a dance music falaram a mesma coisa, certo?

Bangs & Works é a primeira coletânea panorâmica que nos permite ter uma visão de conjunto da variedade de estilos que compõem esse movimento subterrâneo de Chicago, uma espécie de reminiscente mais rápido, extremado e lo-fi da ghetto house. Note-se que o olhar da seleção, no entanto, é de fora, e que o dono do par de olhos – Mike Paradinas, que atua como músico com o nome μ-Ziq e é dono da gravadora Planet Mu – se interessou pelo movimento justamente porque o juke lembra certas características de subgêneros eletrônicos da Inglaterra nos anos 90, como o ardkore, o garage e o jungle. Mas que fique claro: não se diz isso para colocar em suspeição a curadoria de Paradinas, apenas para relativizar a escolha de faixas, que toma um parti pris em prol do mais experimental, fragmentado, quebrado no ritmo.

A semelhança em alguns pontos é mesmo assustadora, mas o juke não poderia soar mais diferente dos subgêneros britânicos – e o próprio Paradinas claramente está ciente disso. Sua química consiste num equilíbrio assustador de esvaziamento da massa sonora (nenhuma faixa de juke nunca soa cheia, preenchida por médios ou por camadas com frequências bem dosadas), numa polirritmia que faz o andamento da percussão funcionar hiperacelerado enquanto as linhas de melodia vão na metade ou até mesmo em 1/4 da velocidade, e na ostensiva repetição de loops muito curtos, que nos fazem vislumbrar o métier dos sujeitos do Black Dice e do Oval caindo na mão de vândalos sonoros crescidos com ghetto house, hip-hop e r&b. O resultado é uma música exuberante e urgente, em que o kitsch mais vagabundo se une à programação percussiva mais insana em termos de batidas quebradas e aos onipresentes vocais processados em agudos ou graves proibitivos, parecendo ora o Pato Donald, ora um ogro das montanhas. As 25 faixas de Bangs & Works fornecem um panorama suculento do juke/footwork, indo do mais elegante (DJ Rashad à primeira vista) ao mais abrasivo e experimentador (DJ Nate em suas cascatas de camadas de loops vocais agressivos), passando por uma infinidade de nomes que talvez se consolidarão em nossa memória, talvez jamais apareçam novamente com algo muito digno de nota. Mas, no momento, eles todos fornecem a firme sensação de que essa é a música nova mais instigante sendo feita hoje dentro da eletrônica (remotamente) de pista. De resto, há uma parte do juke/footwork que escapa completamente à análise: como é que alguém faz repetir “Yo shit’s fucked up” indefinidamente tendo ao fundo um pianinho meloso e uma programação de bateria que no stop-and-go vai da quase inexistência de andamento aos BPMs de 160? Cabe ouvir e admirar como tudo isso é possível… (Ruy Gardnier)

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Um comentário em “Vários Artistas – Bangs & Works Vol. 1 – A Chicago Footwork Compilation (2010; Planet Mu, Reino Unido [EUA])

  1. Rick
    16 de dezembro de 2010

    Very good post.

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