Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Vários Artistas – Scientist Launches Dubstep Into Outer Space (2010; Tectonic, Reino Unido [Jamaica])

Um dos mais representativos expoentes do gênero musical jamaicano mais incensado da última década, Scientist nasceu Hopeton Brown, em Kingston, Jamaica. Scientist foi apadrinhado por King Tubby, trabalhando como engenheiro de som em seu estúdio até início da década de 70, quando se transferiu para o lendário Channel One Studio e, mais tarde, para o não menos lendário Tuff Gong. A partir da década de 80, passou a editar seus próprios trabalhos, criando uma mitologia híbrida, repleta de extraterrestres e vampiros, em álbuns clássicos como Scientist Rids The World Of The Evil Curse Of The Vampires e Scientist meets the Space Invaders. Neste CD duplo, Scientist remixa faixas originais produzidas por representantes do dubstep como Pinch, Kode 9, Mala e Shackleton. (B.O.)

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Coletânea? Compilação de inéditos, de versões? Álbum de remixes? Difícil definir o estatuto de Scientist Launches Dubstep Into Outer Space. Mas não nos entreguemos diante das dificuldades. Trata-se, sobretudo, de uma homenagem dos produtores diante dos serviços prestados por este grande artífice do dub. Mas que o leitor não pense que o aspecto celebratório torna este lançamento algo como um jogo café com leite, no qual o reconhecimento fala mais alto e define o sentido do projeto. No primeiro cd, Dubstep Originals, faixas de grandes produtores do dubstep. No segundo, os Scientist Mixes, devidamente identificados pelo acréscimo da palavra dub ao título da faixa original. A julgar pelo alto nível das faixas originais e de seus respectivos remixes, o buraco é mais embaixo…

Consideremos, então, esta celebração tal como dos rappers do free-style, os partideiros e todos os repentistas do ritmo e das palavras, isto é, segundo uma inflexão que apesar de simpática e amistosa, se impõe através de uma certa “beligerância”. A estratégia deste álbum é um convite indiscreto à comparação, por vezes cruel, entre as faixas originais e a interpretação de Scientist. Enquanto algumas faixas originais (poucas, é verdade) sobressaem em relação ao remix do produtor, outras são como que reavivadas pelo processamento delirante que o trabalho de reconfiguração que ele propõe. No cd de faixas originais, destaco a bela canção de abertura com Pinch e Emika, Shackleton com sua batucada digital em “Hackney Marshs”, o suingue enxuto e repleto de percussões de Distance em “Ill Kontent” e, sobretudo, a verdadeira pancada que é “Abeng”, mais uma brilhante parceria entre Kode 9 e Spaceape. Armour e Mala também comparecem com boas faixas, melhores por exemplo do que este inexplicável King Midas Sound, a injetar as sonoridades do dubstep no som do Massive Attack, ou o farofeiro Guido, que em todo caso nos fornece uma curiosa vertente tecnopop… Trata-se, portanto, de um cd irregular, mas que contém faixas extremamente representativas da consolidação de um cenário e de seus produtores mais importantes. E o que podemos esperar do trabalho de Scientist, uma referência seminal, mas que reside no passado heróico do dub, já que não lança um álbum à altura de seus clássicos há mais 20 anos – In The Kingdom of Dub tem lá seus momentos, mas seus grandes álbuns estão na década de 80…

Pois penso que Scientist se saiu tão bem em seus remixes, que em alguns casos ele mereceria até a autoria da faixa. A estratégia não traz novidade: inclusão indiscriminada de efeitos, de modo a reconfigurar ritmo, melodia e harmonia; utilização vertiginosa do estéreo; inclusão de  baterias e apetrechos eletrônicos variados… Mas são admiráveis os timbres que ele extrai de sua mesa de som, os abalos rítmicos em virtude da utilização imoderada de ecos e delays, que quebram consideravelmente a regularidade da levada arrastada do dub, a própria atmosfera esfumaçada que tornou mais delirante faixas apolíneas como “U”, “Korg Back” e “Dog Money”. Apenas em dois momentos, Scientist não supera a versão original: quando substitui a trama percussiva de “Huckney Marsh” por uma levada de bumbo mais regular, e quando retira a batida de “Abeng”. Por outro lado, reparem nas formas buriladas que encerram “2012 Dub”; ou as brumas sonoras que envolvem “Dog Money Dub”; ou ainda o minucioso jogo de estéreo em “Ill Kontent Dub” e “After All Dub”. E no quebra-quebra – literalmente, um quebra-quebra – que ele promove na comportada “Footsteps”.

Estamos falando aqui de algo diferente de tudo o que se promoveu até hoje em termos de compilação de inéditos, mesmo levando em consideração o também admirável Tradi-Mods Vs. Rockers. Trata-se de um álbum duplo que promove o diálogo entre duas consciências, ou melhor, entre duas escutas muito peculiares, cada uma pertencente a um contexto específico – muito embora se possa afirmar que o dubstep é, em parte, produto do dub. Mas aqui o diálogo é aberto, o homenageado é respeitado, mas também está submetido ao perde-e-ganha de versões. E é nesta dinâmica de franca disputa que reside todo a força do disco, certamente um dos acontecimentos deste início de década. (Bernardo Oliveira)

PS.: Uma advertência: para captar essa “atmosfera”, um elemento indispensável é o uso do fone de ouvido, que possibilitará ao ouvinte acessar as nuances do processo criativo através do qual Scientist cria suas “tracks”.

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Que o dubstep veio do dub o nome já diz. A influência é clara não apenas nas linhas de subgraves que, à maneira do contrabaixo no dub reggae, estabelecem uma espécie de camada rítmico-melódica, e se percebe também numa estética do espaçamento (possível pelos andamentos ralentados e pela economia de células sonoras, e pronunciadamente pela ausência de vocal ou melodia-guia estruturante), abrindo a porta para a experimentação com timbres, sons inusitados e evoluções não-lineares. E como se vai do dubstep para o dub “à jamaicana”, ou seja, aquele feito essencialmente através dos controles da mesa de som, com reequalizações radicais, adição de efeitos como reverbs, delays, ecos e eventualmente alguns acréscimos discretos? A curiosidade de fato se justifica, porque trata-se de um desafio. Em geral, o dub jamaicano é uma intervenção em cima de canções, e grande parte do poder identitário das criações do dub reside na eliminação de camadas, na redução do vocal de guia a apenas outro instrumento, e no reancoramento da faixa nos grooves criados pelo baixo e pela bateria. Ora, boa parte do que geralmente se tira quando se vai fazer um dub já não tem em 95% das faixas de dubstep. Daí a dúvida: funciona? A resposta: parcialmente, mas quando funciona é uma delícia. E funciona quando as faixas ajudam, seja pela qualidade e pregnância do material, seja por uma estrutura mais cheia, preferencialmente com vocais.

Já pela capa e pelo título, esse lançamento da Tectonic já nos coloca no clima dos discos clássicos do Scientist, que trabalhavam o imaginário de filmes de kung fu ou ficção científica e de videogames. A metáfora do cientista em seu laboratório, para Scientist, se presta muito bem em dois polos opostos, de um lado pela minúcia de suas intervenções, de outro pela natureza “lunática” dos sons criados. O tal do “outer space” em que ele joga o dubstep, efetivamente. Scientist Launches Dubstep Into Outer Space não é tão apetitoso quanto a junção de todos esses nomes faria supor, mas isso não se dá nem por responsabilidade de Scientist nem pelo talento (ou falta de) dos produtores envolvidos. É que às vezes as próprias faixas originais já são tão econômicas, já abrem tão pouco espaço para reinterpretações à moda do dub clássico, que Scientist não tem muito o que fazer. Isso é visível nos dubs das faixas de Arbour (50% do projeto Vex’d), de Shackleton (essa “Hackney Marshes”, aliás, não é nenhum ponto alto em sua carreira) e do Distance. Quando o dubstep flerta com o trip-hop, Scientist descobre-se mais em casa e consegue fascinantes mixes para “2012”, de Pinch com a cantora Emika, e para “U”, do King Midas Sound. Graças aos deliciosos licks evocativos de Guido, a versão de “Korg Back” também é um sucesso, com reverbs estonteantes que ziguezagueiam pelas caixas de som entre esquerda e direita. No dub de “Red Sand”, faixa de Jack Sparrow, a equalização rearranja o equilíbrio da faixa, colocando os graves e os chocalhos à frente como uma intensa parede sonora, e o vocal vai estufado lá para trás, criando um efeito fascinante para uma original suntuosa e festiva, entre UKF e cerimônia tribal.

Quanto às faixas originais, pode se contestar que algumas delas se prestam pouco ao projeto, mas tomadas em si mesmas, as doze faixas de Scientist Launches Dubstep Into Outer Space já constituem uma senhora compilação de dubstep atual, com contribuições altíssimas de Kode9 com Spaceape, de Mala, de ASBO (parceria entre Loefah e SGT Pokes), de RSD e dos já citados Guido, Jack Sparrow, King Midas Sound e Pinch. Esse último, aliás, fez talvez o grande destaque do disco, uma faixa sensual de andamento lento, extremamente carregada, em que se sente toda a influência de Tricky, mas com um artesanato e uma sonoridade próprios que, pela propriedade no talho, mosntram-se auspiciosos. Ainda que não seja o manjar dos deuses que qualquer fã de dub e de dubstep queria ter diante de si, esse combo da Tectonic é uma excelente oportunidade para reencontrar-se com os experimentos coesos e imaginativos de Scientist, e ao mesmo tempo vibrar com uma pá de belas faixas de dubstep. (Ruy Gardnier)

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