Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2010: Músicas – Bernardo Oliveira

Natural que a segunda década do milênio herde algumas dinâmicas da primeira, ainda que de forma contraditória e difusa, dificultando tanto a vida dos que buscam critérios claros e distintos para avaliar a música de hoje, como daqueles que buscam estímulo no susto. A contradição, no entanto, reside no fato de que alguns de seus mais proeminentes atributos permanecem intactos, ao passo que outros, mesmo participando do “estado de coisas”, indicam que os anos 20 podem trazer importante reformulações fundamentais para o fazer e o fruir musicais. Não me refiro somente à forma de se pensar, produzir, fruir e comercializar música, mas também aos diversos papéis que ela pode vir a desempenhar como potência expressiva e, portanto, como força política. É evidente que a tal “crise” a que tanto se referem os devotos do credo adorniano – crise cognitiva, cultural, ética, estética – perfaz toda uma série de questões que nos guardaremos de comentar, dado o adiantado do espaço. Não há crise, mas outras dinâmicas, ramificações, contingências. Entre elas, podemos entrever, por exemplo, o esfacelamento definitivo do formato em direção a uma série de outras possibilidades; a consolidação de trocas culturais cada vez mais intensas e, sobretudo, um saudável deslocamento da dinâmica epicentral, essencialmente ligada à produção anglo-saxã, para uma dinâmica inversa, na qual o antigo epicentro passa a ser alimentado em larga escala pela periferia, incluindo como fontes possíveis a música oriental, africana e latina. Nesse sentido, 2010 passou como uma estimulante sucessão de surpresas em diversos registros, de uma forma ou de outra, vinculados às questões acima.

Uma função interessante da produção de listas é a criação de nexos a respeito de dinâmicas culturais que ainda não foram assimiladas. Ela pode operar como carta de navegação, mas também como relato de viagem. Um relato afetivo através de um ano que viu emergir fenômenos curioso como o juke, o shangaan, o bubu, a reiteração do papel central do Konono N.1, os retornos auspiciosos de M.I.A., Third Eye Foundation, The Books, Sufjan Stevens, a força de Shackleton, dos singles e das coletâneas. Me parece inadequado separar uma faixa de seu contexto, o que, por outro lado, pode ocasionar eventuais sobressaltos em relação aos critérios de escolha. Por exemplo, é evidente que “Monster” não é uma faixa tão melhor assim que “Hard”, do Breakage, uma das que mais ouvi esse ano. Porém, não é menos evidente que enquanto a última é um elemento operacional dentro de um contexto chamado Foundation, o estatuto de “Monster” é o de uma obra-prima inserida em um disco bem menos consistente.

Por outro lado, que o leitor não estranhe o fato de que alguns dos grande discos de 2010 não estejam devidamente representados na lista. É porque considero a “faixa” como uma categoria independente de um contexto, e reservo para a lista da semana que vem os álbuns perfeitos, conceitualmente bem acabados, como o de Tristan Perich, Phonophani, Philip Jeck, Yellow Swans e Third Eye Foundation, álbuns que dependem de audição contínua e atenta.

1. “Born Free” – M.I.A.

Não me perguntem se 2010 teve algum outro clássico, mas “Born Free” é uma música lapidar, um autêntico clássico, definitivo, urgente, imediato…Um adorável pé na porta orquestrado pela Srta. Arulpragasam com seus dois convidados luxuosíssimos, Alan Vega e Martin Rev, mais conhecidos como Suicide. Esqueçam Nova Iorque, esqueçam a Pitchfork, esqueçam o que se lê nos jornais: M.I.A. continua mandando.

2. “Essiniya” – Troupe Majidi
A dificuldade epistemológica não foi capaz de interditar a emoção diante desta música indomável. Não se trata de folclore, por mais que o olhar ocidentalóide insista em dar contornos “étnicos” a esta gravação. E, contudo, ela acontece em Djemaa El Fna, o “rendez-vous” dos mortos, a lendária feira localizada em Marrakech. Alaúde eletrificado, homens cantando a plenos pulmões e uma batucada dos infernos levam qualquer um ao êxtase, objeto e objetivo de qualquer música que importa.

3. “Hatas our motivation” – DJ Nate
“Da trak genious”, o gênio das faixas, em tradução livre… Abusado, embebido na linguagem das ruas, Nate é um pirralho de vinte e poucos anos, ligado ao juke house de Chicago. Seu álbum, porém, se destacou por criar uma sonoridade autônoma, constituída pelo recorte expressivos dos samplers, pela elegância das repetições e pelo caráter percussivo que estrutura a faixa. “Hatas our Motivation” é o indício mais contundente de que a vertente experimental do juke pode render bons frutos em 2011.

4. “CMYK” – James Blake
Queria muito ver a minha própria cara, escutando pela primeira vez a incrível sucessão de “look i found her, red coat”, que estrutura esta obra-prima produzida pelo enfant terrible James Blake.
Sampleando a soulsistah americana Kelis em “Caught Out There”, Blake criou uma verdadeira obra-prima repleta de sutilezas, reviravoltas e uma sensibilidade para a composição que explica o hype em torno de seu nome.

5. “Angels Echoes” – Four Tet
Kieran Hebden conseguiu mais uma vez recriar seu trabalho dentro de uma premissa que parece reger o Four Tet, o Fridge e todos os projetos em que está à frente: o apetrecho eletrônico não precisa produzir somente sons eletrônicos identificados como “eletrônicos”, ele pode imitar uma boa e velha bateria, uma guitarra distorcida, uma voz… Uma voz? Ora se não é justamente o aspecto robótico das vozes supostamente angelicais que tanto fascina em “Angel Echoes”?

6. “Too Much” – Sufjan Stevens
A beleza no excesso, o elogio do labor, o esmero na composição e na produção, a excelência na execução, tudo isso de volta, redobrado, reafirmado, ainda mais detalhado e delirante, acrescido por uma miríade de novos barulhinhos, todos eletrônicos, pronunciadamente sintéticos… Ouça “Too Much” nos fones de ouvido e se entregue a esta história complicada que este rapaz genial tem para contar.

7. “Nakobala Lisusu Te” – Konono N. 1
Konono de volta? Ótimo!“Wumbanzanga”? Demais! “Konono Wa Wa Wa”? Putz! Em estado de êxtase, o ouvinte aguarda a faixa de encerramento. “Nakobala Lisusu Te” entra, com a kalimba sem efeito de Mingiedi e o vocal sussurrado de Pauline Mbuka Nsiala… Atrás, ouvimos vozes, pessoas conversam, o clima é de uma espontaneidade comovente… Quando você esperaria terminar um disco do Konono chorando? Contudo, Mingiedi, autor da letra, está se lamentando: “hoje em dia as mulheres acham que casamento é um caso de seis meses…”

8. “Restructure 2” – Moritz Von Oswald Trio
Listas fechadas antes do dia 31 de desembro correm o risco de deixar uma música como “Restructure 2” do lado de fora. Uma faixa incrível, de uma elegância assombrosa, e que antecipa um dos melhores discos de 2011, Horizontal Structure. Importante notar que “Restructure 2” conta com a colaboração do contrabaixista alemão Marc Muellbauer e de  Paul St. Hilaire, mais conhecido como Tikiman, na guitarra (?). Boa viagem.

9. “Shutterbug” – Big Boi
Oriundo de uma dupla esperta, irônica e aberta à experiência, Antwan Patton já tinha realizado um belo trabalho com Speakerboxxx, a primeira parte do último disco de fato lançado pelo Outkast. Mas com Sir Lucious Left Foot… ele demonstrou habilidade em dosar uma timbragem seca, pesada e sintética com o suingue do bom e velho hip-hop. Produção pop perfeita, super editada, com vários detalhes, momentos, etc.

10. “A Cold Freezin’ Night” – The Books
Levante a mão quem não tem a curiosidade de assistir a uma sessão criativa dos Books? O que eles conversam durante a gravação? Como criam esses sons? Quem são essas crianças malignas? Virtuosos com os instrumentos, com a edição e com a composição, Nick Willscher Zammuto e Paul De Jong criaram mais uma sucessão de peças delicadas, irônicas e divertidas, dentre as quais se destaca esta pequena pérola de perversidade.

11. “Tightrope” (Feat. Big Boi) – Janelle Monáe
Quem assistiu a Janelle Monáe no programa do Dave Letterman sabe do que estou falando: a moça canta, dança e representa. A sensação é a de estar diante de um Prince, de uma Aretha Franklin ou Michael Jackson, de uma artista completa que nos trará muitas alegrias. “Tighthope” é apenas uma das grandes faixas de seu segundo disco, The ArchAndroid.

12. “Itz Not Rite” – DJ Rashad
A introdução é suave, quase amorosa. A cantora soul entoa “It’s not right…”, mas Rashad picota, corta e cola com uma gana ensandecida, criando mais uma das pequenas obra-primas inaugurais do novo gênero. “Itz Not Rite” tem todos os atributos de uma faixa de juke, mas o extrapola através do recorte rítmico ousado.

13. “Left Hander” – Martyn
Outro que chegou aos quarenta e cinco do segundo tempo, embora tenha moral para isso. “Left Hander” é um house-dubstep com graves pronunciados e texturas repleta de nuances (vozes, teclados, samplers). Uma daquela faixas que demonstram a liberdade com que Martyn transita entre as diversas ramificações da eletrônica européia.

14. “Na avenida” – M. Takara 3
A instrumentação levemente abrasiva, o teclado repetitivo, quase monótono, a percussão burilada e uma série de ruídos que embalam uma canção ao mesmo tempo pop e melodicamente desajustada. “Na avenida” traduz perfeitamente a qualidade de compositor deste paulistano que há tempos vem fazendo um excelente trabalho.

15. “Monster” – Kanye West
Eu tenho que explicar porque “Monster” é uma faixa matadora? Ora, basta escutar a base, produzida por Kanye West, e o flow na roda de rap com Jay-Z, Rick Ross e Nicki Minaj, além da participação de  Bon Iver no refrão criado por West… Se isso não bastar, tente novamente.

16. “Masikulu Rhythm” (Bonus Track) – Konono N°1 & Mark Ernestus
De todas as faixas de Tradi-Mods Vs. Rockers, a que mais se distancia do material referencial é a criada por Mark Ernestus. O fato de que o Basic Channel esteja presente nesta lista, ainda que desmembrado, reitera o poder seminal da dupla.

17. “Emanação dos Sonhos” – Guizado
Calavera é um álbum de canções, mas “Emanação dos Sonhos” também não é propriamente uma faixa instrumental. O título fornece ao ouvinte a dimensão onírica, talvez porque nos leve por um passeio por muitos gêneros até desaguar em uma pletora de metais, em batuque com a metaleira do maracatu, em festa e delírio.

18. “Abweichung 1″ – Sog
Para alguns pode ser paranóia, mas para mim é interesse legítimo: Wolfgang Voigt parece estar obcecado pela composição. Através da retomada do Sog e de uma edição ampliada de Freiland Klaviermusik, Voigt vem se esmerando na articulação de trechos orquestrais simbolistas com ritmos e timbres eletrônicos. “Abweichung 1” é exemplar nesse sentido.

19. “Quem passa vai parar” (com Alcione) – Zeca Pagodinho
Nada como uma ação entre amigos para desbancar a farsa do samba carioca. Enquanto o oportunistas e amadores tomam conta do pedaço, Zeca, mais uma vez Zeca, põe o vagão no trilho. Samba admiravelmente coloquial, composto por Efson, Marquinhos PQD e Carlito Cavalcanti, mistura de samba sincopado, calango e partido-alto, com arranjo de gafieira e participação especial da Marrom.

20. “Rrrr” – Peverelist And Hyetal
No lugar desta faixa, poderíamos ter escolhido “Wrong Potion”, do Actress, ou “Elizabeth Fraser (Cocteau Twins Rework)” do novato Star Slinger, ou ainda o remix de “IRL”, do Girl Unit, feito por Bok Bok, ousadas que são na forma de compor as batidas e texturas. Mas “Rrrr” demonstra perfeitamente o porque Peverelist é o único contemporâneo citado por Shackleton em entrevista recente. Precisa dizer mais?

Outras faixas relevantes:

“Hard” (ft.David Rodigan & Newham Generals) – Breakage, “Wrong Potion” – Actress, “Eh Congo” – Janka Nabay, “Ngunyuta Dance” – BBC, “Kowboys & Indians” – GonjaSufi, “Tar and Pine” – Sightings, “Man on a String pt. 1 e 2” – Shackelton, “Scissor” – Liars, “2012” – Pinch & Emika, “Elisabeth Fraser (Cocteau Twins Rework)” – Star Slinger, “Abeng” – Kode9 & Spaceape, “Steppin’ Up” – M.I.A., “Pruitt Igoe (Ben Frost Demolition)” – Kangding Ray, “Bone Jump” – Brian Eno, “Cousins” – Vampire Weekend, “Karibu ya Bintou (feat. Konono Nº1)” – Baloji , “Power” – Kanye West, “Lambada Post Mortem” – Satanique Samba Trio, “Bandit” – MDM, “ILove04″ – KidKut , “IRL” (Bok Bok Remix) – Girl Unit, “Fun Dink Death” – Eric Copeland, “Vamos Sambar” – Marcos Valle, “Fugidinha” – Exaltasamba, “Claptrap” – Joe, “Melted” – Ty Segall, “Itrara” – Group Inerane, “China Memories” – Greie Gut Fraktion, “Kvaale II” – Phonophani , “She Goin’” – DJ Spinn & DJ Rashad , “CXEMA” – Kabutogani , “Raindrops” – Blue Daisy & Anneka, “While (feat. Manya) (Blue Daisy Remix)” – Robot Koch , “For Ash” – Marnie Stern, “All Delighted People” – Sufjan Stevens, “The Age Of Adz” – Sufjan Stevens, “Impossible soul” – Sufjan Stevens, “I Didn’t Know That” – The Books, “There is a Light” – Thee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra, “Tree Float” – The Ex, “Mukuba Special” – Shackleton & Kasai Allstars, “Konono Wa Wa Wa” – Konono N°1 & Eye, “Hackney Marshes Dub” – Scientist vs Shackleton, “Michael j Vibes” – Grupo Porco de Grindcore Interpretativo, “Restructure 2 Rebuild” – Digital Mystikz, “Hashshashin Chant” – Demdike Stare, “Everything Is New” – Antony And The Johnsons, “The Great White Ocean” – Antony And The Johnsons, “Returnal” (Remixed by Christian Fennesz) – Oneohtrix Point Never- Antony – Fennesz, “IRL” (Bok Bok Remix) – Girl Unit, “Bust Broke” – Kingdom, “You Ain’t No Dj” – Big Boi, “Ready for the world” – How To Dress Well, “White Flag” – Gorillaz, “Tomboy” – Panda Bear, “Rattling Cage” – Forest Words, Girl Unit – “Wut”, The Bug – “Tune In”, “Infinity Guitars” – Sleigh Bells, “Heavy Living Things” – Balam Acab, “Big Talk” – The Cool Kids, “FM Tan Sexy” – El Guincho, “Robotnik” – Digital Mystikz, “Minimalistix” – Skream, “Impact Omnihammer” – Loops Haunt, “Cruel Intentions (Joker Dub)” – Simian Mobile Disco, “Pressure” – Pursuit Grooves, “If U Want Me” – Deadboy, “Cropped” – T++,  “The Dim Light” – dBridge, “Do Vermelho ao Verde” – Bodes & Elefantes, “I Only Know (What I Know Now)” – James Blake, “Palava Puolukka” – Kemialliset Ystävät, “Black Tequila” (feat. Cappadona and Trife) – Ghostface Killah, “Walk with Me” – Neil Young, “Mountain Dread March” – Digital Mystikz, “Hyperthrust” – Rustie, “Be True (Burial Mix)” – Commix, “SuzieQ” (Dem Hunger Bowel Blood Remix)” – Gonjasufi, “Early Bird” – Tricky, “Boomslang” – LV & Okmalumkoolkat, “Homem Bicho” – Do Amor, “The Primitives Talk” – Zach Hill , “Get Some” – Lykke Li , “Paleosonic” – Brian Eno , “Robogrime” – Taz, “Elements” –  Pinch,  “Mega Lambada” – Hayvanlar Alemi, ”Odô Amin” – Carlinhos Brown , “Flood” – Broken Note , “No Embrace” – Dirty Projectors + Bjork, “O rei da cocada” – M Takara 3,

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2 comentários em “Melhores de 2010: Músicas – Bernardo Oliveira

  1. Porquinho
    21 de dezembro de 2010

    Valheu fi!!

  2. Marcelo
    27 de dezembro de 2010

    Pô, nada dos 2 discos do Autechre desse ano?!

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