Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2010: Músicas – Ruy Gardnier

Adoraria ter uma hierarquia perfeita na cabeça, mas não é o caso com música (com cinema, por exemplo, acho bem mais fácil). Assim, a lista segue sem qualquer lógica, nem de preferência e tampouco alfabética. Também não tentei fazer um perfil representativo do que foi o ano, embora a força que certos subgêneros tiveram esse ano talvez tenham pesado na inclusão de um ou outro nome (“No man is an island”, como se diz), pois a lista pareceria de alguma forma “vazia” sem a inclusão de um tipo específico de som muito ouvido no ano. Ademais, as faixas refletem alguns veios particularmente prolíficos e retratam, em forma microscópica, algumas mudanças grandes no seio da música praticada em 2010: a progressiva passagem do dubstep para o UKF, a consolidação do rock/dub viajandão, a energia e as limitações do shitgaze/lo-fi, a aparição do juke/footwork no front da vanguarda sonora, as mutações r&b/hip-hop (tanto influenciando o “hardcore continuum” do underground britânico quanto criando os híbridos às vezes fascinantes da witch house) e a volta com tudo de alguns artistas preferidos que mantêm-se no topo de sua arte. O intento, porém, não foi tanto o de retratar, e sim o de listar o que mais impactou durante 2010, sem fazer média geográfica, sem representar álbum (senão aí estariam Yellow Swans, Eleh, Oval e Tristan Perich), país, grupo cultural, seja lá o que for. Simplesmente uma lista bem pessoal do que mais cativou e das músicas às quais eu mais voltei durante o ano. Não entraram na lista algumas peças longas que considero decisivas, como “Hover” de Daniel Menche, “The Electric Harpsichord” de Catherine Christer Hennix (essa ainda por cima porque a gravação é dos anos 70) e a “Electronic Music For Piano” de John Cage tal como interpretada por John Tilbury e Sebastian Lexer, porque em dois casos a faixa é o disco inteiro, e em outro ocupa mais da metade de sua duração, com 40min. Sem maiores delongas, à listagem.

Deadboy “If U Want Me”
O ano não teve um único músico para arrebatar com folgas o título de artista do ano. Mas, se há um páreo, Deadboy definitivamente faz parte dele. Lançou no começo do ano um hino monumental, “If U Want Me”, mostrando que aprendeu com Martyn e Joy Orbison tudo o que podia, inserindo toques sutis de R&B e, como toque pessoal, uns glissandos terrivelmente deliciosos como segundo gancho melódico (o primeiro, claro, é o corinho repetindo “If you want me…” em loop). Não contente, Deadboy apareceu ainda com alguns remixes, dois deles absolutamente matadores, “Long Way To Go” (de Cassie) e “Fireworks” (de Drake), em que fica claro seu talento para produções de R&B, fazendo a gente sonhar com uma fusão Timbaland/Martyn num homem só. O futuro provará ou desmentirá.

Joanna Newsom “No Provenance”
Há pelo menos uma meia-dúzia de faixas de Joanna Newsom elegíveis para essa lista. Não sei ao certo por que “No Provenance” leva no meio de tantas melodias inesquecíveis e performances tão simultaneamente vigorosas e vulneráveis, mas talvez seja o fino equilíbrio entre a nudez do jogo de harpa e voz com o sutil arranjo de sopros que colore melodicamente a faixa mas jamais assume dramaticamente o primeiro plano. É Joanna Newsom reavendo a frontalidade de seu primeiro disco filtrada pelo imenso talento composicional (e de arranjo) do segundo. “Kingfisher” é mais épica, “Soft as Chalk” é mais ritmicamente inventiva nos contornos do canto e da métrica, “’81” é mais diretamente apreciável, “Good intentions Paving Company” é mais agitada, mas “No Provenance” parece congregar toda a carreira da cantora numa única faixa.

Four Tet “Angel Echoes”
A posição de faixa de abertura de There Is Love in You dá a princípio uma estranha sensação de que aquilo ali está sendo erigido como um imenso teaser, como uma construção de expectativa postergando infinitamente a resolução final, como se a faixa fosse progressivamente se fazendo aos poucos com a adição de novos instrumentos e a cristalização do vocal picotado. O clímax nunca vem, e é apenas para nosso prazer: ficamos com um delírio de emoções fragmentadas, licks de teclados e sininhos, contratempo pulsando e a voz de uma diva espectral em modo glitch. O disco a seguir entra em modo suingante e direto, com excelência, mas nesse caso a preparação foi melhor que a festa.

Antony and the Johnsons “The Great White Ocean”
Antony já viveu muitas vidas, de diva disco a brinquedo sadomasoquista. Mas é quando ele está só, diante da morte, que ele extrai o que há de mais comovente em sua voz e seu estilo. Já tinha funcionado à perfeição em “The Lake” e “Hope There’s Someone”, e funcionou novamente em “The Great White Ocean”. O que mais impressiona é que diante do desconhecido parece haver uma estranha serenidade, uma entrega perfeita, um equilíbrio total que em termos de voz se converte num canto moderado, sem rompantes de intensidade (e portanto fazendo algo diferente das duas já citadas), já praticamente flutuando na imensidão enquanto suplica a companhia eterna de seus familiares.

Girl Unit, “Wut”
Mais cedo no ano foi “I.R.L.”, a faixa-título homônima de um excelente EP de estreia. Foi talvez o primeiro aporte mais conceitual/cerebral às batidas grandes, largas e hedonistas do UKF, garantindo à faixa um lugarzinho certeiro entre as melhores do ano… caso não aparecesse “Wut”, faixa-título homômima de um excelente segundo EP. E o caminho não poderia ser mais oposto. “I.R.L.” é o anti-hino, descontínuo e docemente desafiador. “Wut” é o hino, o “If U Want Me” do segundo semestre, o R&B, o funk melody mais desbragado, os licks safados de teclado saturado, a bateria eletrônica vintage, tudo filtrado por um colossal poder de artesanato de clímax e por uma notável elegãncia no talhar. Se me forçarem a escolher, pra mim é a música do ano.

DJ Nate, “Hatas Our Motivation”
Se os neohippies extasiados brincam com seus sintetizadores ou criam loops hipnóticos, uma outra juventude nervosa dá vazão a toda sua agressividade através de breakbeats acachapantes, loops irritantes repetidos à exaustão e palavras de ordem cheias de palavrão e testemunhos de não-reconciliação. “Hatas Our Motivation” surgiu primeiro em EP como um vislumbre do gênio jovem de DJ Nate, e o ódio de sua motivação transparece aqui em forma de múltiplas camadas de reprocessamento da frase-título da faixa, com virtuosas variações de pitch levando a voz do ultragrave ao agudo doidão de gás hélio, e a sobreposição de camadas criando uma complexidade rítmica desorientadora.

Janelle Monáe, “Tightrope (feat. Big Boi)”
The ArchAndroid é um disco devastador e apresenta várias facetas de uma intérprete e compositora que adora máscaras, mas há algo especial em “Tightrope” que congrega toda uma história da música negra, de James Brown a Missy Elliott passando por Aretha Franklin e naturalmente pelo Outkast, dupla de Big Boi, espécie de padrinho de Monáe, e que fascina de primeira. Longe de apenas adaptar para o registro feminino a pegada avassaladora de “Hey Ya”, Monáe cria um suíngue envolvente jogando soul à moda antiga (naipe de metais, coro em chamada e resposta) no recheio. A canção não desacelera nem perde em impacto vertical (o pulo), e ganha exponencialmente em leveza horizonatl (aquela viradinha de quadril).

Star Slinger “Elizabeth Fraser (Cocteau Twins Rework)”
O witch house deixou marcado seu impacto no ano, com esquisitas fusões de hip-hop e breakbeat com a epicidade teen e pegajosa de hinos pop hiperdramáticos à la Enya ou Evanescence. Apesar de ideias prodigiosas, as melhores faixas do Salem (“King Night”, “Frost”) não chegam ainda a convencer por completo. Aí aparece “Elizabeth Frazer” com todas as melhores audácias do gênero, o clima de breakbeat soturno com produção barata, e nenhum dos momentos levemente incômodos. Um acerto monumental, e o surgimento de um novo nome a acompanhar.

Best Coast “Up All Night”
É bem possível que a escolha dessa faixa seja para compensar o fato de não ter escolhido (não ter se apaixonado a tempo) “Sun Was High (So Was I)” em 2009. Em 2010 a onda parece ter se esfacelado, e com um LP de estreia que não aproveita nenhum dos méritos da genial utilização de textura lo-fi em modo confessional e evocativo, o Best Coast dá indicações de não ter sobrevivido às cintilações dos primeiros singles. Mas há essa pepita escondida num split com Jeans Wilder, tão doce e barulhenta, tão Ramones-meets-Ronettes quanto a mais perfeita faixa de Bethany Cosentino até a presente data.

Dirty Projectors & Björk “Sharing Orb”
Que maravilhas poderiam ser criadas quando as garotinhas gritadeiras de Dave Longstreth se juntassem com o timbre aveludado e o estilo selvagem-sentimental de Björk? Genial doo-wop cubista que remete à paixão da islandesa pelos arranjos a cappella, com grandes pontuações rítmicas do coro de Deradoorian e companhia. O mais notável, porém, continua sendo a sensibilidade de compositor de Longstreth para criar pop estranhíssimo e vanguarda palatável. Ainda que sua voz não apareça em “Sharing Orb”, sua personalidade está marcada como uma impressão digital de cabo a rabo.

Sufjan Stevens “From the Mouth of Gabriel”
Como Joanna Newsom, Sufjan Stevens tem umas seis que poderiam cá estar, “Invisible Soul”, “All Delighted People”, “Vesuvius”, “The Age of Adz”, mas vence aquela que melhor exprime uma de suas características que mais me surpreendem: a capacidade de soar celestial e infantil sem soar banal ou regredir à idiotia. “From the Mouth of Gabriel” é uma fantasia absurda guiada por piano de brinquedo, coro feminino, pontuações rítmicas que evocam Steve Reich e ligeiros toinhoinhós de sintetizador, criando um equilíbrio sutil e encantador, a zilhões de distância dos indies fofinhos/profundos que parecem estar no mesmo tipo de pesquisa musical e definitivamente não estão.

Ikonika “Idiot”
O fraseado chiptune que serve de gancho principal à música é realmente digno do título. Mas Sara Abdel-Hamid aprendeu tudo que DJ Mujava tinha para ensinar em “Township Funk”, e o gancho consegue ser imediatamente grudento, repetir o tempo inteiro na faixa e ainda assim deixar o ouvinte viciado, querendo mais. Mas “Idiot” vai mais longe, criando subtemas deliciosos que ampliam a potência melódica do gancho e ritmicamente contrastando a batida frenética do UKF com uma cama de teclado em meio-andamento. A música mais imediatamente carnal do ano, produto de intenso labor para parecer que é a coisa mais fácil e safada do mundo.

Liars “Scarecrows On a Killer Slant”
Quem ainda acredita em rock sujo, vibrante, visceral e catártico além desse fantástico trio chamado Liars? “Scarecrows On a Killer Slant” é construída tendo por base um riff de duas notas que parece uma sirene saturada, e evolui através dos gritos de Angus Andrew e vocais de backing em chamado e resposta, nervoso, paranoico, primitivo na entrega mas sofisticado nas ideias e nas escolhas sonoras de que é feita qualquer composição. Um monstro de energia.

The Ex “Maybe I Was the Pilot” (versão do single)
Num ano com poucos destaques no rock, coube a alguns medalhões (The Ex, mas também The Fall, Swans, Nick Cave com Grinderman…) mostrar o que é música com pegada, clima e rispidez irredutível a fórmulas da moda, cabelinhos e outfit. Um clima de suspense domina a faixa, guiada por uma melodia onipresente de guitarra e por contínuos ataques de agogô na bateria. Que a faixa seja a primeira a ter aparecido com um novo vocalista na banda depois de vinte anos só torna tudo mais surpreendente. A veemência do vocal de G.W. Sok amplifica e dá consistência ao senso de urgência geral dessa canção fabulosa.

Konono Nº1 “Konono Wa Wa Wa”
Para um grupo tão longevo que lançou seu primeiro disco com mais de trinta anos de existência, convenhamos que esperar cinco anos pelo segundo é fichinha. “Konono Wa Wa Wa” aparece quase no finalzinho de Assume Crash Position em modo efusivo, com os deliciosos esquemas de chamada e resposta que já começamos, mas quando os instrumentos começam a pegar fogo, ouvimos uma inesperada e absolutamente devastadora guerra entre uma guitarra cheia de efeitos e o likembé. A faixa continua entre segmentos cantados e viagens de guitarras, um tanto mais moderadas, mas igualmente inspiradas em todas as incursões que faz. Se isso não é alegria e vibração em estado puro, não sei o que mais é.

Sun Araw “Deep Temple”
O ano viu o aparecimento de fortes postulantes ao trono de senhores da vibe rock/drone/dub/mantra, como Forest Swords ou Psychic Ills e U.S. Girls em algumas roupagens, mas o cetro ainda vai para aquele que deu contornos definitivos ao sentimento. Em “Deep Temple”, vocais indiscerníveis afundados numa torre de efeitos parecem comandar algum ritual misterioso enquanto os delays de guitarra desaceleram o tempo e o tornam viscoso. Podem contestar que os climas que o Sun Araw constrói são sempre parecidos. Mas, como o Om, quando se atinge um certo patamar, não há outra possibilidade além de se deixar hipnotizar e seguir a maré.

M.I.A. “Lovalot”
“I really lovalot/but I fight the ones that fight me”. Pelo fuzuê que causou e pelo clima de hardcore digital, “Born Free” ganhou todas as atenções esse ano, mas “Lovalot” é uam faixa ainda mais provocadora e agressiva (“Lovalot” soa como “Love Alah”), e é carregada por uma cozinha de chocalho e percussão que torna o conjunto irresistível. É certo que /\/\ /\ Y /\ não sobrevive muito bem à comparação com Kala, o disco anterior, mas se dependesse de “Lovalot”, haveria uma boa disputa no ar.

Pursuit Grooves “Pressure”
Pursuit Grooves é a compositora e cantora Vanese Smith, que depois de dois CD-Rs teve o EP Fox Trot Mannerisms lançado pela Tectonic. “Pressure” abre o disco em modo surpreendente, com uma incrível simbiose entre o aspecto mais soul do hip-hop e a eletrônica de pista. O grande motor da faixa é o fraseado picotado de piano, como uma espécie de “Angel Echoes” retrabalhada por Madlib num de seus dias mais inspirados. A primorosa produção, porém, não pode eclipsar a intensa sensualidade da voz de Ms. Smith, que produz belezas cantando e também é cheia de ritmo quando se aventura pelo rap.

Big Boi “Tangerine”
Dentro de um disco tão cheio de faixas primorosas como Sir Lucius Left Foot, escolho “Tangerine” pelo insidioso jogo climático estabelecido pelo loop de guitarra (nada suingado, todo atmosférico) e a ultraeconômica batida de tambores e estaladas de dedo. É claro que Big Boi e seus comparsas convidados, T.I. e Khujo Goodie, fazem a festa com raps maleáveis e cheios de propriedade. Mas os méritos maiores vão para a produção, que além do genial loop ainda apresenta estranhíssimas e surpreendentes erupções de piano e de guitarra distorcida, nada ortodoxas para um sujeito que é conhecido como a metade mais convencional do Outkast.

Rustie “Hyperthrust”
E o wonky, tremendo assunto de 2009, se esfacelou aos pouquinhos com artistas aumentando suas paletas sonoras (Flying Lotus, se é que já deu para inseri-lo somente nesse gênero), apenas mantendo o padrão (Joker) ou rumando para outras áreas (caso de Hudson Mohawke e outros tantos, abraçando o tal “boogie” dos funks sintetizados retrô ou o UKF). Rustie apareceu com um EP irregular, Sunburst, mas “Hyperthrust” salva o ano com um esguicho hipercolorido de synths saturados com notas ultrarrápidas ancoradas por uma batida profunda e espaçada. Especialmente por conta de um panorama que apresenta um revivalismo em ascensão, esse aceno para o futuro aparece como um jato de ar fresco.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: