Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2010: Discos – Ruy Gardnier

Seis petardos fundamentais, em ordem alfabética:

Eleh, Location Momentum
Tendo lançado apenas discos de vinil em prensagens limitadíssimas, Eleh era o segredo mais bem guardado da eletroacústica contemporânea até a Touch lançar em CD esse prodígio de construção minuciosa, com um incrível senso de timing e notável (ab)uso de frequências graves para fazer tremer toda a mobília da casa, e, mais importante, nossa sensibilidade.

Joanna Newsom, Have One on Me
Como superar o insuperável Ys? Joanna Newsom deu uma ousada resposta, maturando por quatro anos um disco triplo que aparentemente dá um passo atrás (não acompanha os arranjos mais modernos e as construções mais épicas do anterior) para dar dois à frente e nos maravilhar com a simplicidade e a frontalidade da voz, da melodia, alternando piano e harpa assim como alterna canções e suas tão amadas faixas mais extensas, sempre viagens narrativas formidáveis.

Oval, O
A reinvenção que Markus Popp faz de seu projeto Oval pode não ser a mais radical, mas é certamente a mais inesperada. O glitch, outrora elemento de choque e de reposicionamento do erro digital, se transforma em fonte de beleza imediata, com sons de uma lancinante pureza e, quem diria, lirismo sonhador. O que ele consegue com processamento de cordas – ou um processamento que faz parecer com que cordas sejam tocadas – é não apenas produto de engenharia sonora, mas de um músico maduro que leva suas invenções de timbre para um terreno totalmente distinto e sagra-se vitorioso logo na primeira tentativa.

Sufjan Stevens, The Age of Adz + All Delighted People EP
Outro que deu um aparente passo atrás – canções de fundo subjetivo à maneira da tradição cantor/compositor – para dar dois à frente – criar um amálgama de influências distintas e raramente imagináveis. Nosso doidivanas angelical brinca com minimalismo, rock clássico, música gospel, pop-folk e tudo mais que couber no recheio. O que mais impressiona é que isso costuma resultar em obras autoconscientes e frias. Mas tanto em The Age of Adz quanto no “não-álbum” All Delighted People a vulnerabilidade do registro vocal é espantosa, impedindo de antemão qualquer sensação de preciosismo. E, como Joanna Newsom, gestou várias faixas lendárias, tanto em formato curto quanto longo.

Tristan Perich, 1-Bit Symphony
A primeira coisa que fascina é que não se trata de um disco, de um objeto para armazenar dados, mas um circuito eletrônico que executa a obra, guardado um tanto ironicamente numa caixinha transparente de CD. Mas quando se ouve a música tudo isso vai para segundo plano, porque é surpreendente o que Tristan Perich faz, em termos de variação rítmica e melódica, com tão pouco como material de partida. Uma sinfonia de chiptune que, por vias transversas, acaba promovendo o fenomenal encontro de Terry Riley com o pessoal da Raster Noton.

Yellow Swans, Going Places
Em seu trabalho final, a dupla formada por Pete Swanson e Gabriel Mindel Saloman realiza uma proeza formidável, recheando seu costumeiro repertório de drone/noise com uma intensa carga emocional, extraindo fortes cargas de lirismo de cada textura sonora que surge. O choque é comparável ao que Christian Fennesz fez com o glitch/noise no começo da década passada. O sentimento de luto com o fim dos Yellow Swans só não é maior porque Pete Swanson permanece bastante prolífico, lançando ótimos discos em carreira solo.

Outros catorze discos excelentes, sem ordem de preferência:

DJ Nate, Da Trak Genious
O juke/footwork não começou em 2010, mas sua projeção internacional aconteceu esse ano com alguns lançamentos da Planet Mu e do intenso trabalho de divulgação feito pelo dono desse selo, Mike Paradinas. Esse gênero já é em si uma descoberta acachapante, mas o furor de DJ Nate coloca esse jovem artista na dianteira do movimento, com uma exploração radical de ritmos e variações de pitch dos samples sem perder o paradoxal apelo pop (porque trata-se praticamente de uma destruição, via loop, do apelo pop) contido nesse tipo de música. Não à toa, o loopmaníaco Noax Lennox (vulgo Panda Bear) e o polirrítmico Zach Hill caíram de amores pela música do rapaz.

Fenn O’Berg, In Stereo
Só me conectei realmente com In Stereo ouvindo-o na noite do apagão do começo do ano. Ao contrário dos outros discos do trio composto por Fennesz, Jim O’Rourke e Peter Rehberg, esse é esparso, delicado, sem grandes arroubos ou invectivas à moda noise/glitch/improv. No escuro, ou à luz de velas, os sons de In Stereo ganham uma consistência inusitada, parecendo fogos de artifício que acontecem à distância, sem tragar o ouvinte para sua exuberância interna mas modulando paulatinamente sua sensibilidade com doces clarões e irrupções bem dosadas.

Four Tet, There Is Love in You
Depois da obra-prima Rounds, Kieran Hebden começou a expandir sua paleta sonora, fugindo da mistura de IDM e hip-hop que era a marca de seu estilo nos primeiros discos e abraçando de um lado a música eletrônica mais metronômica – house, techno – e de outro a improvisação livre – seus discos com Steve Reid. A busca rendeu em bons discos, mas, afora NYC (Hebden/Reid), o resultado nunca era inteiramente satisfatório. There Is Love in You não é tanto a síntese desse processo, e sim sua depuração. O senso de coesão das composições é soberbo e os timbres são cristalinos, e se Rounds permanece insuperável, ao menos dessa vez a distância não é tanta.

Janelle Monáe, The ArchAndroid
…E o melhor disco pop do ano é uma opereta, ou melhor, 2/3 de uma opereta. Isso é parte de um ano particularmente estranho, mas Janelle Monáe não tem nada a ver com isso. Ela fez com The ArchAndroid um disco perfeito de experimentação pop em que o passado e o futuro estão intimamente colados (já no título, arqui/andróide), com piscadelas aos mestres (Stevie Wonder e Michael Jackson em “Locked Inside”) mas acima de tudo com muita personalidade tanto no estilo do vocal quanto nas soluções de composição, sempre eficientes, sempre pop, jamais banais. Num ano em que os arranjos lo-fi para o soft-pop radiofônico dos anos 80 foi vendido como destaque, a esquizofrenia estilística de Janelle Monáe apareceu com uma propriedade toda especial.

Big Boi, Sir Lucious Left Foot – Son of Chico Dusty
As grandes apostas para o ano de 2010 no hip-hop eram Gucci Mane, Drake e The-Dream, mas quem fez o grande disco do ano no gênero foi mesmo Big Boi, com uma fórmula conhecida (o disco de festa, a malandragem típica do dirty south) mas com incrível senso de artesanato pop e de variedade nos arranjos e nas atmosferas que tornam o disco um clássico imediato. Kanye West fez um disco belo e arriscado, mas com muitos elementos que rapidamente se transformarão em alimento para pastiche, ao passo que Big Boi fez um álbum com limpidez clássica, lapidou os clichês e reativou todo o impacto imediato que eles podem ter, num disco que respira e que tem a moderação de não encher cada faixa com todos os ornamentos possíveis.

Konono Nº1, Assume Crash Position
Assume Crash Position certamente não provoca o mesmo impacto do primeiro volume de Congotronics, mas apenas porque o primeiro foi a reação inaugural a uma música sem coordenadas prévias ou paralelos diretos ao que estamos acostumados a ouvir. O segundo disco do Konono Nº1 faz bem em não repetir o primeiro, e busca novas facetas de sonoridade, seja na chave da simplicidade (“Nakobala Lisusu Te”) seja na experimentação com novos elementos (a guitarra de “Konono Wa Wa Wa”), mas a energia contagiante do grupo, a enorme sensação de espontaneidade e alegria permanece lá para nosso total deleite.

The Books, The Way Out
O que torna o estilo dos Books tão singular hoje? É que a música desse duo fascinante se baseia num incrível senso de montagem, na junção de elementos discrepantes e na relação simultânea de beleza e de humor que esse tipo de efeito pode provocar. Os discos posteriores a Thought For Food tentavam dar mais atenção ao aspecto cancioneiro e lírico do grupo, com resultados positivos, mas que de alguma forma minavam o senso de dinâmica do projeto, diminuindo o aspecto lúdico das composições. The Way Out é a volta com fôlego total desse ímpeto criador que parece voar em ricochete a toda velocidade.

Liars, Sisterworld
É o quinto disco dos Liars e, contradizendo a trajetória frequente dos conjuntos de rock atuais, eles não dão nenhum sinal de tirar o pé do acelerador. A insistente sensação de ameaça continua presente ao longo de Sisterworld, seja nas faixas mais catárticas (“Scissor”, “Scarecrows On a Killer Slant”, “Proud Evolution”), seja naquelas que aparentam paz de areia movediça (“No Barrier Fun”, “Here Comes All the People”). Tudo que se pode esperar de energia e inquietação roqueira está em cada faixa desse disco. Podem dizer que o rock está em vias de extinção, e isso pode ser até verdade, mas num ano com discos de Liars, The Fall, The Ex, Nick Cave e Swans, reclamar disso faz perceber que o problema claramente é outro. A saber, mocinhos bobinhos que fazem um ou dois singles simpáticos e são rapidamente insensados para depois desapontar, previsivelmente.

Ikonika, Contact, Love, Want, Have
Num ano em que grandes apostas do hardcore continuum britânico falharam fragorosamente ao lançarem álbums ambiciosos (Darkstar, Skream), o álbum mais coeso, variado, fluido e inventivo do ano nessa seara foi de uma produtora que até então era vista como uma promessa: Sarah Abdel-Hamid. Contact, Love, Want, Have é ambicioso na forma de flertar com garage, dubstep e UKF, adicionando a doce frivolidade do chiptune ao recheio e deliciando nossos ouvidos com faixas de demarcado teor pop tendendo ao descartável, mas que surpreendem por escolhas incomuns e pelo talento no desenvolvimento das composições.

Daniel Menche, Hover
Quanto mais o noise se estabelece como gênero (quando na verdade parte dele depende de ser um “antigênero”), mais difícil torna-se o sentimento de surpresa acompanhado da sensação de potência avassaladora que caracteriza esse tipo de som. Se o noise abrasivo (vulgo harsh noise) continua avassalador e impactante (os discos do Merzbow permanecem longe da previsibilidade e da sensação de Muzak, mesmo em modo Merzbient), o freeform progressivamente tende a não constituir mais tanta diferença quanto antes. Em 2010, a surpresa coube ao metódico Daniel Menche, que com a sobreposição das vozes de um coro de crianças produziu um monumento sônico de incrível poder dinâmico com a permanente sensação de engolfamento contínuo.

Zeena Parkins, Between the Whiles
à exceção de O do Oval, nenhum disco de 2010 provocou tanto espanto pela sensibilidade na pesquisa de timbres quanto Between the Whiles. Não contente em fazer sua harpa soar como qualquer outro instrumento de cordas existente ou imaginário, ela ainda incorpora em seu disco sons de respiração, papel, lâminas de metal, escova, garrafas de plástico, gaita, memory moog e muito mais. E o resultado não tem nada do presumível pernosticismo new age: são composições que ficam a meio caminho da erudita experimental, do noise e da música eletroacústica, ou, melhor, abarcam todas elas. A rainha da cena de improvisação novaiorquina dos anos 60 também é uma soberba compositora.

David S. Ware, Onecept
Mias famoso por seu trabalho com seu quarteto (com Matthew Shipp no piano, William Parker no baixo e Guillermo E. Brown, Susie Ibarra ou Hamid Drake na bateria), David S. Ware eventualmente grava como artista solo. Mas Onecept na verdade é um disco de uma trinca de instrumentistas de free jazz de primeiro quilate, em que Ware dá total liberdade a Warren Smith e William Parker para chegar a uma comunhão sonora em termos de improvisação. O disco é de uma incandescência completa, nervoso e medido, um verdadeiro thriller como todo improv “lutado” deveria ser. Parker fenomenal com os dedos e com o arco, Smith de incrível lucidez e discrição, Ware irrequieto, liríco e selvagem.

v. a., Tradi-Mods vs. Rockers – Alternative Takes on Congotronics
Uma coletânea multifacetada inevitavelmente irá carregar faixas de interesse desigual, mas a enorme quantidade de intervenções fabulosas e o fantástico conceito do disco vai coroar Tradi-Mods vs. Rockers como um dos grandes lançamentos do ano. Fusões notáveis de Oneida, Mark Ernestus, Burnt Friedman, Yamantaka Eye, Shackleton, Tussle, Animal Collective, entre outros, com os artistas da Congotronics produzem resultados notáveis em que as distintas tradições musicais não compõem barreiras intransponíveis, e sim alimento para a expressão artística.

v. a., Night Slugs Allstars Volume 1
Ainda que algumas faixas contidas nessa primeira coletânea da Night Slugs coloquem esse disco num patamar inferior aos aqui listados, o senso de urgência impele para que ele seja listado aqui diante de tantos membros seletos. É que esse Volume 1 é um perfeito polaróide das tensões criativas atuais do underground britânico, esse majestoso celeiro de singles e EPs primorosos. Testemunho de que o ano não teve tantos discos fantásticos assim? Talvez. Em todo caso, essa coletânea prova a consistência curatorial de L-Vis 1990 e Bok Bok, que em 2010 alçaram sua Night Slugs à crista de uma onda populada por grandes surfadores como Kode9 (Hyperdub) e Mike Paradinas (Planet Mu). E ter “Wut” do Girl Unit entre as faixas compiladas também não atrapalha em nada, muito pelo contrário…

hors-concours:

Ali Farka Touré & Toumani Diabaté, Ali & Toumani
Catherine Christer Hennix, The Electric Harpsichord
Itamar Assumpção, Pretobras II & III

Anúncios

Um comentário em “Melhores de 2010: Discos – Ruy Gardnier

  1. Pingback: Tweets that mention Melhores de 2010: Discos – Ruy Gardnier « a camarilha dos quatro -- Topsy.com

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: