Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2010: Discos – Marcus Martins

Oito discos essenciais:

Four Tet – There Is Love In You

Desde os tempos do Fridge o nome de Kieran Hebden é ligado a modismos, post-rock, folktronica, nu-kraut, glitch-jazz, zzzzzz. Se além de ser um extraordinário disco There Is Love In You servisse para outra coisa seria para consagrar Hebden como um grande produtor, qualquer que seja o espectro da música eletrônica em que trabalha, e ainda mais: qualquer que seja o gênero a que se filie ou dê atenção, sua marca é indelével e sempre ouvimos um disco do Four Tet.

Janelle Monáe – The ArchAndroid

Janelle Monáe é das grandes revelações da música americana dos últimos anos e já em seu álbum de estréia mostra uma inquietude e exuberância criativas que nos levam a esperar que alcance novas alturas (aquelas a que o Andre 3000 parecia fadado e aparentemente desistiu?). Grande cantora com aquelas tendências visionárias que levam ao céu e ao inferno. Torçamos.

Joanna Newsom – Have One on Me

Depois do choque da apresentação e das piruetas vocais de The Milk-Eyed Mender e dos complexos arranjos de Ys, chegamos a Have One On Me perguntando como Joanna nos maravilharia uma vez mais. Simples. Da forma mais difícil. Retirando quase todo o adorno de suas canções, desenvolvendo sua técnica vocal às raias do minimalismo e investindo em canções como afrescos. A ideia de pintura não basta à sua música, a técnica dos mestres italianos é a imagem que fica de sua suntuosa explosão criativa. Um disco que refuta qualquer tese-bobagem de “oh como eram bons os compositores de priscas eras”. E como é linda a moça.

Shackleton – Fabric 55

Shackleton é a essência do que conhecemos como beatmaker enquanto cientista. Na pororoca do encontro do techno com o dubstep é dos poucos que não apenas sobrevive ileso como alguém que criou novas possibilidades nos gêneros. Mesmo com toda a sua cerebralidade, dançamos. E o fato de seu disco de 2010 ser um dj set para um selo de clube tecnho e refletir uma série de apresentações feitas no lugar apenas fornece um lugar específico para ele exercitar suas criações. A forma como as recombinações de faixas antigas se encaixam nas faixas e vinhetas novas é assombrosa. Um autêntico mestre.

Sufjan Stevens – The Age of Adz

Stevens tem tudo para ser odiado. Melodias, vocais e letras sentimentais, a imagem de garoto-propaganda católico, o pendor grandiloquente, um desavergonhado emprego de suas habilidades de multi-instrumentista somam-se a um espírito galhofeiro ao amarrar seus álbuns a conceitos que tendem ao infinito. Ou seja, a fórmula certa para o musico babaca, auto-indugente e deslumbrado que parece povoar os links da Pitchfork. Seria assim se não fossem pequenos detalhes: a generosidade, o profundo conhecimento que ele revela da música popular e uma capacidade de ver em larga escala que apenas a Joanna Newsom parece compartilhar atualmente. Se Stevens anunciasse para a próxima semana um disco de arrocha-metal eu provavelmente estaria salivando de expectativa. The Age of Adz é enorme e mais ainda é seu coração.

The Books – The Way Out

The Way Out é o típico disco de mestria. Depois de parcialmente decepcionar com um disco modorrento, a dupla volta como se o álbum fosse a progressão lógica de The Lemon of Pink, sem desgaste, com a mesma pegada no ritmo das colagens que ninguém consegue imitar. Se perdemos a surpresa dos dois primeiros álbuns, aqui se reforça a sensação de ouvirmos canções que não poderiam ter sido compostas de outra forma, como se os samples existissem com a finalidade de servir aos caprichos dos dois.

Tristan Perich – 1-Bit Symphony

1-Bit Symphony é o típico disco perigoso, sua mídia é tão engenhosa que periga desviar a atenção do principal, o susto que é ouvir o disco pela primeira vez. Como assim? Reich comprou um videogame? Forma, conteúdo e estética estão unidos de tal forma que parecem não cogitar outra existência. Assim como Nico Muhly e Preston Swirnoff, Tristan Perich usa o repertório erudito para dar vazão a sua criatividade que não se contém no vocabulário rígido da academia. Ele transborda, pulsa.

Yellow Swans – Going Places

Going Places traz a triste notícia do fim do Yellow Swans de forma até revoltante. Não conheço toda a obra dos Swans mas esta despedida é provavelmente seu melhor disco. Não traz nada de novo, contudo a construção do disco é de uma pujança que impressiona. Fica lado a lado com recentes criações superlativas como o Harmony in Ultraviolet do Tim Hecker, o Imperial Distortion do Kevin Drumm e o Sand do Philip Jeck.

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Doze fabulosos:

Autechre – Oversteps

Quando ninguém esperava mais nada relevante do Autechre, eis que eles retornam com um disco cheio de estranhas e complexas ambiências que mesmo distante do drill’n’bass do início ou das estruturas impossíveis da época de Confield, é puro e maravilhoso Autechre em cada segundo.

Big Boi – Sir Lucious Left Foot – The Son of Chico Dusty

Kanye West pode ter feito o disco mais bombástico e celebrado de 2010, mas também fez seu disco mais capenga e com excesso de gordura. Enquanto isso, o menos celebrado Outkast soltou um petardo invejável. Revelada em meio ao clima festivo do álbum está uma mente criativa que, livre da sombra de Andre 3000, mostra não apenas pleno domínio do hip-hop como é bem sucedido em algo raro atualmente: quase não há desequilíbrio entre as muitas participações especiais e o álbum ouve-se de cabo a rabo com um sorriso no rosto. É o disco-primo de The ArchAndroid.

Demdike Stare – Voices of Dust

Tenho sérias dúvidas de como classificar a música da dupla Demdike Stare: às vezes noise, às vezes dub, às vezes ambiente, às vezes techno minimalista, às vezes uma colagem de samples surpreendentes. Em 2010 lançaram três fantásticos discos, bem diversos, e se aponto Voices Of Dust como o melhor é pelo simples fato dele faixas tão absurdas como “Hashsashin Chant” com seu canto em loop, percussão eufórica dentro de um contexto sombrio e austero.

Digital Mystikz Return II Space

Na praia do dubstep este deve ter sido o único álbum que merece o título em 2010. Em um ano de grandes singles e EPs, eles se destacam. Curto, preciso, sem um único equívoco, Return II Space é cheio de passagens brilhantes. Sem pirotecnia, Mala assume os 100% do DMZ (já que antes era uma dupla com Coki) e constrói um álbum lento mas agitado, metálico, tenso e repleto de uma alma dub que faz falta à maioria dos wonkies da vida.  E os Mystikz ainda lançaram um belo complemento no final do ano, Urban Ethics.

DJ Nate – Da Trak Genious

Se Monáe é a princesa dos estreantes, DJ Nate é o moleque abusado que, empregando uma técnica simples, fez um dos discos mais vibrantes de 2010. Ele tem o que falta à maior parte de seus colegas. Mãos e ouvidos.

James Ferraro – Last American Hero

Mais do que Eric Copeland, Ferraro é o gari da música. Apropriando-se de todo tipo de despojo, sonoro ou cultural, ele fez em Last American Hero seu álbum mais bem sucedido, mas da mesma forma que o Machinefabriek, o grande lance de sua música é encontrar tempo e energia para acompanhar sua caudalosa jornada.

Jefre Cantu-Ledesma – Love Is a Stream

Love is a Stream não é apenas um título, é descrição perfeita. Cantu-Ledesma fez de um feixe de ruídos abrasivos suavizados o disco romântico do ano. Sem ironia.

Keith Fullerton Whitman – Disingenuity/Disingenuousness

O professor Whitman fica lá nos laboratórios estudando música e como ele não é nenhum Professor Pardal, quando sai de seus domínios com uma nova invenção, apenas pode ser recebido com atenção. Disingenuity/Disingenuousness talvez seja o disco de mais difícil assimilação do ano. Apreciá-lo é muito mais resultado de uma atenção analítica que de uma reação empática. Ainda assim, para os corajosos, a recompensa é mais que suficiente e se agregarmos às audições os estudos de Generator, a série de Live Generators e o lindo Variations For Oud & Synthesizer, temos a obra mais rica de 2010.

Konono Nº1 – Assume Crash Position

Assume Crash Position é o disco em que o Konono Nº1 mostra que está longe de se limitar a uma curiosidade africana ou uma banda de um só truque. Talvez seja justamente isso que pode ter decepcionado alguns: o impulso criativo revelado não combina com as recepções rasteiras e etnográficas que os grupos do continente costumam receber. Longa vida ao Konono, não à toa nº1.

Philip Jeck – An Ark for the Listener

Aos quase setenta anos e dono de uma técnica de manipulação de vinil inimitável e aparentemente inesgotável, Jeck tem em An Ark for the Listener uma tour de force para tirar o fôlego de qualquer iniciante revolucionário. Talvez conhecer os conceitos que norteiam o disco enriqueçam de forma importante a audição, mas, ainda assim, o resultado é a continuação de uma das maiores obras sonoras das últimas décadas que parece não dar sinais de arrefecer em sua capacidade de se transformar.

The Ex – Catch My Shoe

Se falarmos em transformação, o caso do The Ex é exemplar. Existir por décadas dentro do redutor universo do anarco-punk – onde não tem pares à altura –, criar uma das obras mais vigorosas do rock e ainda se manter em constante mutação para preservar suas principais características é uma proeza sem precedentes. Catch My Shoe representa uma radical mudança na banda por um fato simples, a mudança de vocalista, mas também pela sensação de que a banda atingiu a maturidade sem resvalar na estagnação.

Third Eye Foundation – The Dark

O Third Eye Foundation tem uma sonoridade bastante datada, mas seja em sua obra pregressa, seja nesse novo The Dark, ocorre que as marcas do tempo não são algo essencialmente nocivo e podem funcionar como catalizador quando se trata de um projeto que abraça suas referências. Porque, no final, o que importa de verdade é a enorme criatividade de Matt Elliott.

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