Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Jon Mueller – The Whole (2010; Type, EUA)

Jon Mueller é um percussionista americano nascido em 1970. Estudou bateria com a lenda do jazz Hal Russell quando já tinha passado pela experiência de tocar em uma banda de death metal usando apenas a tarola. Mueller foi membro do grupo de pós-rock Pele, do Collections of Colonies of Bees e também da mais popular Volcano Choir, com Justin Vernon do Bon Iver. Mueller também já lançou diversos álbum em colaboração com nomes como Asmus Tietchens, Tin Catlin e Jason Kahn. The Whole é seu quarto álbum solo, sendo o primeiro pelo prestigioso selo Type. (M.M.)

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Vinte e nove minutos e vinte e três segundos foi o tempo suficiente para Jon Mueller deixar uma impressão suficientemente forte deixarmos de associar imediatamente seu nome ao inconstante Collections of Colonies of Bees. Trabalhando em tempo tão curto e conseguindo criar um álbum tão coeso mostra que o domínio de Mueller na produção de seus álbuns passou por uma sensível evolução. Cada uma das quatro faixas aponta para uma faceta diferente da música de Mueller e ainda assim nada soa forçado ou como cartão-de-visitas.

“Remembered As” começa o disco com o dulcimer (martelado) de marcação percussiva realizando uma série de movimentos aparentemente improvisados, bem ao gosto do mestre Derek Bailey. Falamos da do uso de um instrumento peculiar como o dulcimer, mas o que mais chama a atenção e parece ocupar maior espaço é o silêncio entre as notas. Isso assume maior relevância pela própria estrutura do dulcimer, com sua caixa de ressonância grande e plana. O dulcimer estará presente em todo o disco e dá um tom de lenta desconstrução das raízes do instrumento de uso difundido em determinada época, sendo razoavelmente usado não apenas na Europa, mas também na Ásia e América, servindo posteriormente em várias formações de bandas folk.

Em The Whole a percussão é sempre protagonista, mas a atenção de Mueller para determinados detalhes torna seu disco uma experiência gratificante. Além do dulcimer ele usa um limitado kit de percussão e vocais em duas faixas. A simplicidade no uso dos elementos, sempre escassos e empegados de forma repetitiva poderia induzir a mais um disco de enfadonha psicodelia percussiva preguiçosa. Não é o que ouvimos. Seja percussão no estilo marcial de “Hands” ou a maior liberdade de “Hearts” que acompanha um mantra em loop criando uma espécie de euforia branda, nada sai do controle, mas a potência é sutil e latente.

“Remembered” termina o disco em tom alto, equilibrando-se entre mais um exercício melódico-percussivo de rara contenção e a tensão de uma faixa de pós-rock como só ouvíamos nos anos 90, quando o aumento do volume não era um elemento obrigatório para criar clima. Aliás, Mueller sempre trabalha aqui com tons baixos e suas faixas nunca parecem conclusivas, ele se regozija em observar possibilidades pouco aproveitadas sem serem obscuras. O disco parece a todo momento chamar atenção para alguma revelação que nunca chega e se contenta em amostrar que ali também há vida. Basta pouco. (Marcus Martins)

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Jon Mueller é um baterista e seus discos solo são meditações sobre seu instrumento. Apesar disso, e um tanto paradoxalmente, seus discos não soam como “discos de baterista”, se com isso imaginamos infinitos solos de bateria ou as amostras gratuitas de virilidade e opulência frequentemente associadas a essa prática. Nas mãos de Jon Mueller, as baquetas e as peças da bateria servem para provocar atmosferas intensas, repetitivas, obcecadas, quase paranoicas. O que mais impressiona, no entanto, não é a precisão metronômica do instrumentista (o que remeteria, mesmo em modo mais discreto, à questão da opulência acima mencionada) em exercitar andamentos frenéticos, e sim a força de sentimento que suas composições provocam. Metals, seu disco anterior, entra no rol dos discos de metal minimalista/conceitual da década passada, junto com Ov do Orthrelm e projetos de Stephen O’Malley (Khanate, Sunn O))), criando uma astuciosa operação de subtração (da guitarra, do baixo e sobretudo das estruturas convencionais de composição do metal, seja em modo canção, seja em modo epopeia) para transformar a bateria de heavy metal num redemoinho entrópico em que a máxima velocidade se transforma, pela repetição, em estase.

The Whole renova a sonoridade de Jon Mueller mantendo entretanto o mesmo tipo de busca. As duas faixas do meio, “Hearts” e “Hands” – verdadeiro centro do disco, as faixas de abertura e fechamento funcionando mais como molduras –, levam a estase a uma situação-limite, adicionando sobreposições de vozes ao jogo percussivo e levando a música para território metarreligioso, entre mantra e ritualismo tribal. Ainda que brotem variações, como a proeminência do dulcimer num momento de “Hearts” e o progressivo preenchimento do som em “Hands”, as sensações mais intensas que The Whole provoca dizem respeito à massiva repetição de padrões de bateria, que, se não nos inserem na atmosfera obcecada de Metals, em compensação constroem um redemoinho pronunciadamente mais espaçado e evocativo. Como toda obra que opera por subtração e repetição de elementos, o disco pode dar a impressão de que se está diante de algo ralo. Mas esse “ralo” faz parte da carta de intenções de The Whole, e a música de Mueller capitaliza isso no forte senso de fisicalidade que a audição provoca. É uma música que funciona como uma descarga (de energia, de sentimento), um sentimento comum diante de música improvisada, mas raro em se tratando de faixas compostas. Se algo limita (apenas limita) o impacto de The Whole, é o fato de que muitos artistas contemporâneos já vêm trabalhando sob essa perspectiva do transe, conseguindo eventualmente resultados mais densos ou intensos. Mas a estratégia sonora de Mueller para alcançar seus objetivos é uma via só dele, autêntica e distintiva, e isso já faz toda a graça de ouvir um disco seu. (Ruy Gardnier)

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Mueller tocou percussão, bateria e piano nas bandas Collections of Colonies of Bees, Pele e Volcano Choir, três projetos com o parceiro Chris Rosenau. O último se distancia um pouco do pop-folktrônico que marca os dois primeiros, mais solto e delicado, muito embora solto e delicado sejam adjetivos aplicáveis ao Bees e ao Pele. E, no entanto, Mueller  é um autor, que além de compor para cinema e teatro, chega a seu quarto disco solo. É de se admirar que o distanciamento entre o projeto solo e as bandas pregressas seja, simultaneamente, abismal e similar. Similar porque estão presentes as mesmas sutilezas que conferiam elementos diferenciais aos grupos anteriores: tambores ditando o clima, detalhes de caixas e pratos, percussões féericas, etc. Mas em relação ao trabalho solo, as intenções parecem muito diferentes e, em certa medida, divergentes. Ocorre que, mesmo no contexto do seu trabalho solo, os projetos diferem entre si. Desde Piano Bread, gravado em 1999, até a trilogia mais recente, composta por Metals, Physical Changes e The Whole, Mueller recorreu a variados procedimentos e instrumentações, mantendo-se entretanto no campo da experimentação com ênfase no trabalho de percussão. Esta trilogia, no entanto, me parece, possui um significado mais ou menos preciso, quase evocativo, por assim dizer.

Metals, de 2007, como o próprio título comprova, flertava com o metal, através de sons retumbantes e “bumbo duplo”. Mueller utilizou somente percussões e efeitos, em três faixas reforçadas nos graves, explorando a ressonância das percussões – da caixa e do surdo, no mais das vezes – com efeitos e ruídos eletrônicos. Em Physical Changes, de 2009, Mueller abraçou o noise com paixão de iniciante, sem pudores ao surrar sua bateria, piscar para o death metal e abusar dos temas em “preto e branco”, materializados na peça cinematográfica que integra o DVD, dirigida por David Dinnell. O resultado é marcado por um certo descontrole dos instrumentais que, no entanto, não compromete as boas ideias. Mas e The Whole? Se Metals representa vigor juvenil, e Physical Changes o excesso da vida plena, The Whole é a representação do fim, para onde todos caminhamos com pesarosa regularidade, o limite de todos os excessos e estragos. E, no entanto, em The Whole tudo é equilíbrio. A começar pela disposição das faixas: a primeira e a última foram compostas para dulcimer e efeitos, enquanto a segunda e a terceira são dois continuums percussivos poderosos. A primeira, “Remembered As”, apresenta uma linha melódica executada pelo dulcimer, que aos poucos é envolvida pela camada espessa de graves em direção ao silêncio. “Hearts” é organizada em três módulos, o primeiro combinando canto gregoriano e bateria marcial, o segundo trazendo uma belíssima trama de dulcimers e a finalização com levada bate estaca e uma névoa assombrosa de ruídos. “Hands” prima pelo controle primoroso da repetição, e o encerramento, “Remembered”, repete os motivos da primeira faixa, enriquecendo o diálogo entre os efeitos e o tom angelical do dulcimer.

Final solene para um álbum solene, cujo trunfo maior é o rigor com que conduz seu tema, qual seja: no diálogo promovido entre a ancestralidade do dulcimer e o clamor da experimentação eletrônica, a absoluta indiferença entre passado e o futuro quando se trata de viver o exato momento de nossa morte, amém. Como tematizar não é comprometer-se, pode-se afirma que The Whole manifesta caráter criativo para se acompanhar de perto. (Bernardo Oliveiira)

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Publicado às 7 de janeiro de 2011 por em experimental e marcado , , , .
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