Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Keith Fullerton Whitman – Disingenuity b/w Disingenuousness (2010; Pan, Alemanha [EUA])

Keith Fullerton Whitman é um compositor de música eletrônica nascido em Somerville, Massachussetts, EUA, em 1973. Estudou no Berklee College of Music, onde teve maior contato com elementos de composição em música eletrônica. Inicialmente atingiu maior projeção com seu pseudônimo Hrvatski, um dos mais prestigiados projetos de eletrônica experimental da virada da década 90/00. A partir de 2002, com o disco Playthroughs, passou a lançar discos mais sistematicamente com seu próprio nome. Seguiram-se entre 2004 e 2006 Antithesis, Schöner Flussengel, Multiples e Lisbon, além de diversos CDRs e lançamentos de tiragem limitadíssima. Depois de um silêncio de aproximadamente dois anos, Whitman voltou em 2009 com Dream House Variations, para quatro fitas cassete, e Taking Away, cassete simples. Em 2010, teve diversos lançamentos em variados formatos: cassete, single 7”, splits com Geoff Mullen e Mike Shiflet, e o álbum Disingenuity b/w Disingenuousness. (RG)

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O nome de Keith Fullerton Whitman já é pra lá de conhecido do leitor da Camarilha, pela postagem de Dream House Variations e pela seleção de alguns de seus trabalhos em nossos podcasts. Passeando por sua discografia, no entanto, percebemos uma obra incrivelmente multifacetada, com discos muito diversos no conceito e que parecem cobrir toda a seara da música eletrônica desde seus primórdios nos anos 50 até seu renascimento como música de pista (notadamente com o pseudônimo Hrvatski). Sua música é um projeto vasto e inclusivo de experimentação que interage com todas as tradições da música “não-tonal” – da música concreta ao drone, da eletroacústica ao noise – e de suas técnicas, especialmente a manipulação de fita, o processamento de field recordings e a programação de sintetizadores. Depois de alguns anos entocado, Whitman lançou em 2009 uma série de cassetes e em 2010 atacou em todos os formatos, de splits em CDr e vinil (com Geoff Mullen e Mike Shiflet, respectivamente) a novos cassetes (a série Generators, em número de três até o momento), passando pelo compacto de 7″ (Variations For Oud and Synthesizer) ao álbum em vinil de 12″ (o que é tema deste texto). Disingenuity b/w Disingenuousness, portanto, vem coroar esse novo momento prolífico, com duas composições de incrível vigor criativo, de precisão avassaladora em timbres e tempos, e absolutamente distintas em termos de composição e estrutura – praticamente opostas, até.

“Disingenuity”, o lado A, é o maior desafio. Desde o primeiro contato com a peça, a exuberância nas variações de timbre e no uso de espaço chamam a atenção, mas a percepção encontra grande dificuldade em se instalar, dada a radical ausência de quaisquer padrões (andamento, recorrência de sons) de repetição para emoldurar a progressão. O ouvinte se vê rodeado de uma gama impressionante de sonoridades cuja irrupção é imprevisível, e a sensação é a de se ver projetado frente a uma chuva de asteróides, sem qualquer controle quanto a velocidade ou direção. O silêncio norteia a composição, fazendo cada chiado, cada textura, cada blipzinho ter todo o espaço para existir e ganhar corpo na audição. Ganha corpo a impressão de um monumental inventário de todos os sons possíveis e imaginários surgindo num todo caótico e ao mesmo tempo soberbamente organizado, dosado. E a perturbação não esmorece mesmo em repetidas audições: é o rio heraclitiano que nunca aparece duas vezes da mesma forma (como as múltiplas combinações das quatro fitas de Dream House Variations, que possibilitam variações virtualmente infinitas).

“Disingenousness” parte de princípio inteiramente distinto. Nessa peça, o pulso rítmico está presente em quase todos os momentos, e a presença constante de um mesmo timbre de sintetizador grave e saturado fornece um chão para se pisar. Como se a explosão informe de “Disingenuity” começasse a criar formas mais precisas. A riqueza de timbres e texturas permanece fascinante, mas agora com algum tipo de padrão estrutural para os sons evoluírem. É uma peça de fruição mais diretamente sensual, palpável, mas falar em acomodação não faz sentido, a não ser relativamente a “Disingenuity”: as inserções permanecem imprevisíveis e espantosas, apenas interagindo com padrões mais estabelecidos – o que não resulta numa expressão mais arrefecida, apenas mais sensorialmente organizada, por assim dizer. E a coda de frequências proibitivamente agudas fecham o disco numa catarse vertiginosa que se furta à explicação em palavras.

Disingenuity b/w Disingenuousness, talvez mais do que qualquer outro disco de Keith Fullerton Whitman, mostra todo o vasto fôlego de um grande pesquisador de toda história da música eletrônica dos primórdios até hoje. Mas o resultado não evoca a figura de um aluno aplicado e muito menos a de uma criança deslumbrada pelas possibilidades de seus instrumentos (figura que cabe a uma imensidade de novos artistas mexendo com sintetizadores analógicos, grupo particularmente farto a se julgar pelos lançamentos de 2010, Emeralds e Oneohtrix Point Never guiando o movimento). Se figura há, é a de um grão mago em plena maturidade exercendo todo seu conhecimento em obras de imensa envergadura que olham para frente, jamais para trás (o mesmo kosmische tantas vezes repisado nos últimos tempos). Um monolito multiforme: quem diria que isso é possível? (Ruy Gardnier)

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Tarefa nada simples circunscrever, em termos estéticos, a militância eletrônica que Keith Fullerton Whitman conduz com a autoridade de estudioso. Em 2010 foram cerca de oito lançamentos envolvendo seu nome, mesclando formatos (CD, CDr, cassete, LP), selos (No, Pan, Root Strata, etc.), parcerias, técnicas e modelos de diversas vertentes da eletrônica experimental – ambient, drone, eletroacústica, além de momentos do mais enervado artesanato noise. Em meio a todo esse ambiente de pesquisa e criação, dois momentos se destacaram. O primeiro foi Variations For Oud & Synthesizer, com suas imprevisíveis insinuações melódicas e uma forma prodigiosa de integrar sons acústicos e eletrônicos, sem o habitual “comadrismo” que marca essa relação – como em sonoridades identificadas ao selo DFA, por exemplo. O segundo foi o presente EP contendo duas tour de force de uma rica e consistente experimentação em música eletrônica, cujo título complexo, Disingenuity b/w Disingenuousness, só reitera o caráter aventureiro da empreitada. De fato, a fórmula poética encontrada por Whitman para batizar as faixas e o EP, com o prefixo de negação acrescido a duas palavras antônimas, encerra uma inversão de sentido que alude aos procedimentos e à orientação estética de seu trabalho. Db/wD prima por um ecletismo radical, rearticulando certas inflexões da música eletrônica em um todo consideravelmente diferenciado. Ao invés de evocar o sentido objetivo e os grandes rótulos (ingenuidade/esperteza, drone/noise/kraut/ambient), Whitman propõe a troca sucessiva de máscaras, despindo procedimentos, desarticulando as relações mais comuns em favor do desconhecido – a “desingenuidade”, a “desesperteza” e a incógnita diante da sequência de sinais manipulados, bleeps e sintetizadores kraut no final de “Disingenuousness” ou da estranha justaposição de field recordings, música concreta e sintetizadores destilada em “Disingenuity”. 2010 fica marcado como o ano em que Keith Fullerton Whitman fincou o pé no terreno da experimentação como um de suas mais terríveis e prolíficas incógnitas. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 8 de janeiro de 2011 por em eletroacústica, experimental e marcado , .
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