Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

LA Vampires feat. Matrix Metals – So Unreal (2010; Not Not Fun, EUA)

LA Vampires é o pseudônimo de Amanda Brown, mais conhecida por ter criado com Bethany Cosentino (Best Coast) o grupo Pocahaunted em 2005. Depois da partida de Cosentino em 2009, o Pocahaunted ainda lançou alguns trabalhos, agora como um grupo, mas encerrou suas atividades em agosto de 2010. Como LA Vampires, Amanda Brown já lançou um single em formato cassete, um split com o Psychic Reality, um disco em parceria com Zola Jesus e este So Unreal, com participação de Matrix Metals, um dos pseudônimos utilizados pelo artista Sam Mehran (ou Meringue), com o qual lançou em 2009, também pelo selo Not Not Fun, o cassete Flamingo Breeze. (RG)

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Ambiente de gravação lo-fi, sons esfumaçados, sintetizador a dar com o pau, fascínio pelos anos 80, entre outros elementos calcados na noção de nostalgia, compõem alguns dos mais interessantes híbridos subpops da atualidade. Parece que a nostalgia deixou de ser um mero sentimento evocativo e se tornou artefato estético, tornando-se uma verdadeira obsessão de uma molecada nos EUA e na Inglaterra – como se pode conferir tanto no trabalho de Hype Williams, oOoOO, How To Dress Well, como também no rock do Hospitals, do Ducktails e na proposta esquizopop de James Ferraro. Mas quem acreditaria que Amanda Brown mudasse de mala e cuia do psicodelismo lo-fi do Pocahaunted, seu grupo de origem, para um synthwave soturno, repleto de melodias singelas e ganchudas? Refiro-me à colaboração do recém-fundado, porém prolífico, LA Vampires com o Matrix Metal de Sam Meringue, responsável pelo drone experimental do Flashback Repository.

Que esta brisa praiana e “canábica” venha de Los Angeles, não me surpreende, mas a negociação equilibrada entre o alto teor pop com mistura de ruídos e repetições bem sacadas, fazem de So Unreal uma experiência, de fato, muito prazerosa. Claro que toda vez que alguém cantar uma melodia pop-folk com fundo de sintetizadores desvairados, lembraremos o bom trabalho de Ariel Pink, que, em todo caso, carece de uma certa autonomia em relação ao repertório dos anos 70 e 80. Ao contrário de Brown, que desde 2006 participa na criação da sonoridade peculiar do Pocahaunted, preenchida por saborosas repetições e instrumentais oníricos, tudo acima da média. Esta sensibilidade está presente em So Unreal, através de belas faixas como “How Could U Know”, “Berlin Baby” e a faixa-título, que finaliza o disco. Não é a oitava maravilha do mundo, mas certamente se destaca do panorama pop nostálgico. E com um pensamento musical mais próximo de Panda Bear que de Mr. Pink, o que faz uma diferença e tanto. (Bernardo Oliveira)

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Ah, os diferentes rumos que tomam os artistas experimentais ultimamente. De um lado, temos uma boa parte do drone rumando até o porto seguro dos sintetizadores vintage. De outro, temos o inusitado caso do Pocahaunted, que por cinco anos respondeu por um lo-fi psicodélico e abrasivo, e em 2010 desabrocha em dois projetos muito mais acessíveis, que flertam descaradamente com o pop e se aproveitam de estruturas simplórias justamente para o ataque ser mais direto. Num canto, temos o Best Coast, responsável por alguns lindos singles de lo-fi sentimental e um álbum anódino de punk pop sem maior singularidade. No outro, o quase-pastiche projeto de Amanda Brown, LA Vampires, com uma versão lo-fi, esfumaçada e dark do synthpop retrô dos anos 80, proibitivamente saturada ao nível da indefinição, e vocalizada com o descompromisso amador e cativante de uma diva de karaokê. So Unreal não é só um bando de faixas com acabamento lo-fi. Aqui, o lo-fi não é uma roupagem, é a filosofia subjacente, dos vocais vagabundos – reminiscente do pop adolescente de cantoras dos anos 80 como Sandra, Martika e Samantha Fox– à forma repetitiva das canções. O efeito que um tal híbrido produz, entre o pop mais descartável e o completo “não-profissionalismo” de toda a empreitada, é dos mais curiosos, e é o que compõe o principal da graça do LA Vampires, aqui em colaboração com Sam Meringue como Matrix Metals. Mas o pop descarado e a rememoração retrô comporiam apenas uma mera curiosidade não fosse o talento de Amanda Brown para criar atmosferas altamente pregnantes e slogans grudentos, daqueles com os quais a gente se bate para não gostar mais acaba perdendo. São assim “HowWould U Know” e “Berlin Baby”, pelo menos. Mas o encanto, depois de um tempo, se desfaz. Como qualquer pop descartável, em algum momento a coisa esgota sua capacidade de interesse e deixa de empolgar. Enquanto dura o charme, no entanto, So Unreal é responsável por algums momentos prazerosos de audição. Em todo caso, isso já é bem melhor do que os mauricinhos do lo-fi que andam aparecendo por aí. (Ruy Gardnier)

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Um comentário em “LA Vampires feat. Matrix Metals – So Unreal (2010; Not Not Fun, EUA)

  1. DianaBrasilis
    5 de setembro de 2017

    ótimo post, cachorro!!!! Amo a Amanda Brown.

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Publicado às 13 de janeiro de 2011 por em experimental, pop e marcado , , , , , , , .
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