Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Tristan Perich – 1-Bit Symphony (2010; Cantaloupe, EUA)

Tristan Perich é um compositor e artista visual novaiorquino nascido em 1982. Estudou música, matemática e ciência da computação na Columbia University. Começou a compor aos dez anos, e sua principal fonte de influência é a estética da matemática e da física. Compõe tanto para circuitos eletrônicos quanto para instrumentos acústicos, com música para solista e trabalhos para orquestra. Em 2004 surgiu seu primeiro projeto de envergadura, 1-Bit Music, posteriormente lançado em 2007 pelo selo Cantaloupe. Recebeu comandas de grupos como Bang On a Can e Calder Quartet, e em 2009 foi vencedor do prêmio Ars Electronica por sua composição Active Field (For Ten Violins and Ten-Channel 1-Bit Music). Assim como 1-Bit Music, 1-Bit Symphony não é exatamente um disco, mas um microchip armazenado numa caixinha de CD com saída para fone e controle de volume. Neste mais recente trabalho, lançado em agosto de 2010, Perich justapõe o formato grandioso da sinfonia clássica à estética mínima dos circuitos de 1 bit. (RG)

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Precisava acontecer algum dia. E, curiosamente, não veio de onde mais se imaginava, das barricadas dos austeros experimentadores eletrônicos da Raster Noton ou da Mille Plateaux, mas de um jovem composit0r que ainda não completou 30 anos. Em termos tanto de conceito quanto de execução, 1-Bit Symphony é uma das insanidades mais massivas e brutais de que temos notícia, e ainda assim uma obra de intenso refinamento de timbres, de tempo e de estrutura, parecendo incorporar as facetas mais talentosas de gente como Richard D. James, Mika Vainio e Frank Bretschneider, reduzindo suas composições à tábula rasa da estética do 1-bit e extraindo delas infinitas e espantosas possibilidades de encanto sonoro. Em momentos, sua música soa como uma série de pulsos rítmicos à maneira do Rhythm de Bretschneider; em outros, como uma sinfonia de alarmes e bips; em outros ainda, jorros sintéticos ultrassaturados evocam poderosos órgãos de igreja. A fusão da forma clássica da sinfonia com a sonoridade barata do chiptune tem o dom miraculoso de não soar como um artista dando legitimidade erudita a sons tidos como pobres: ao contrário, é um mergulho profundo na exploração desses sons “pobres” para extrair deles possibilidades até então inauditas, mas resguardando – até mais que isso, vangloriando-se de – toda imediaticidade “fácil” dos sons produzidos por circuitos simples. É uma música altíssima, tanto no volume (raros são os discos que este escriba precisa diminuir o volume do player, e aqui 70% ainda parece avassalador) quanto nas frequências envolvidas, quase sempre acutíssimas. Apesar do soberbo trabalho de estrutura e composição, com inegável riqueza de variações de timbre e ritmo, a impressão é de que se está ouvindo mais uma criança inconsequente querendo fazer barulho (e fazendo, muito) do que um grão maestro lapidando as asperezas de um som tosco e frívolo. O grande achado é que Tristan Perich leva toda a frivolidade da estética 1-bit muito a sério, e faz dela um atributo essencial de sua música.

1-Bit Symphony é uma sinfonia em cinco movimentos. O primeiro é o mais imediatamente sensual e acessível, com uma melodia recorrente que recebe diversas variações de timbre, como se diferentes seções de orquestra (cordas, metais etc.) a repetissem em momentos precisos, tendo por fundo diversas pulsações rítmicas. Glitch e formidáveis subtrações sonoras entram na metade final para coroar a contínua motricidade da faixa. O segundo movimento continua o primeiro com uma ligeira variação da melodia anterior, mas rapidamente a abandona para fixar-se num desenvolvimento melódico com notas mais longas, marcação rítmica menos insidiosa e a intensa sensação de uma jornada psicodélico-(retro)futurista. O terceiro movimento, assim como o começo do segundo, evoca o minimalismo rítmico de Steve Reich e as incríveis variações de Music For 18 Musicians, utilizando um vamp de glitch e uma melodia principal (ligeiramente desenvolvida ao longo da faixa) como esquadros da composição, para terminar numa balbúrdia de sirenes, alarmes e poderosos acordes que lembram órgão. No quarto movimento, uma torrente de pulsações rítmicas prepara o terreno para uma aguda melodia angelical que briga deliciosamente por atenção com uma melodia em registro médio. O quinto movimento é o mais contrastante do disco, construído em poderosos acordes contínuos a partir dos 4min que lembram clusters colossais que, como numa parede sonora shoegaze, dão a sensação de que todo barulho do mundo está contido ali, e progressivamente vão engolfando todos os outros sons, audíveis agora apenas ao fundo. O movimento 5 não termina: trata-se de uma faixa infinita, que dura o tempo que o ouvinte quiser.

O que não dá para descrever é a sensação de contínuo movimento provocada pelas variações rítmicas e melódicas, numa monumental pletora de notas e sinais sonoros que evoca a exuberância de um Terry Riley em Rainbow in Curved Air ou na música do filme Crossroads, de Bruce Conner. O prodígio conseguido por Tristan Perich, no entanto, é absolutamente singular. Sua música é tão burilada quanto os trabalhos de Ikeda, Bretschneider e Carsten Nicolai, mas, ao contrário deles, a música nunca soa robótica ou fria. Mais que o enquadramento erudito, é na verdade a estética 1-bit que fornece toda a carnalidade que brota da audição de 1-Bit Symphony. Uma carnalidade que, ao mesmo tempo que evoca nossos “sons do mundo” (trilha de videogame, ringtones, blips, alarmes etc.), faz deles obra lúdica, extática e soberbamente fluida. A ultraestilização não torna o 1-bit mais erudito; é a erudição que se torna exponencialmente mais prazerosa, contemporânea e vândala. Um marco, não menos que isso. (Ruy Gardnier)

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Tome o objeto em mãos e se pergunte: será isto um CD? Segundo a experiência ordinária, é evidente que se trata de um CD, pelo menos pela aparência. Gravado nele, espera-se, um testemunho. Rapidamente a coisa complica: nem o suporte está lá, muito menos um indicativo de que exista algum. Apenas um circuito eletrônico embutido em uma caixa de cd transparente, com uma entrada de plugue para fora da caixa. Assim que o ouvinte conecta o fone, o circuito dispara, reproduzindo uma composição em 1-bit.

Enquanto objeto, a guitarra não corresponde ao som da guitarra gravada em estúdio e armazenada no suporte-CD. No CD ela é um simulacro do efeito obtido em estúdio. Se ao invés de um CD, o cidadão comprasse uma guitarra, ele não obteria o mesmo efeito que teria executando o CD. No caso da 1-Bit Simphony não se trata de um suporte, mas do próprio instrumento com o qual o ouvinte reproduzirá a faixa.

Ao mesmo tempo, para que o empreendimento se tornasse possível, deveria conter um circuito econômico, que pudesse armazenar e reproduzir os dados sonoros, mas que coubesse numa caixa de CD – que, à esta altura, já se pode considerar como uma ironia. Então, como criar meios para reproduzir uma sinfonia nessas condições? De nada adiantariam violas e violinos. A solução foi desenvolver um circuito que reproduzisse sons  de 1-bit, a menor unidade sonora digital. Assim, a dupla tarefa se conjugou em um só artefato.

Nem o “suporte” é meramente um suporte, nem o objeto musical está desvinculado das limitações impostas pelo circuito. O circuito possibilita ao ouvinte reproduzir a 1-Bit Simphony com roupagem e instrumentação próprias, efetuando uma operação que dispensa o suporte, apesar da ausência do artista.

Quanto aos aspectos sonoros, o que dizer? Nada que escutei até hoje se parece com os cinco movimentos da 1-Bit Simphony. A ausência quase absoluta de referências faz com que a consideremos algo da ordem do incomum, do não-identificado. O timbre seco e estridente das notas constitui um dos motivos principais desta diferença. Ora sobrepostas em harmonias aparentemente dissonantes, ora desenhando curiosas tramas rítmicas, provocam a estranha sensação de um êxtase controlado. Apolo encontra Dionísio.

De nada adiantaria, portanto, iniciar este texto separando o discurso propriamente sonoro das questões técnicas implicadas na sua reprodução. De nada adiantaria também que pipocassem nos próximos anos exemplares semelhantes, influenciados pelo feeling deste multi-artista, atuante em diversas áreas como as artes plásticas, a música e as ciências. Pois sua ideia propõe a interação prodigiosa entre muitos e diversos temas, como o estatuto da composição na atualidade, a relação entre pensamento e fruição, entre sons orgânicos e sons digitais, entre música e som, entre música e ruído, entre música e procedimento, e outras questões agudas, afinadas com o universo musical contemporâneo. Resultaria na manutenção do campo epistemológico contra o qual ele se posiciona, não de forma frontal – como, aliás, nada na música dos últimos 60 anos –  mas generosamente, oferecendo como que um passo adiante, um rompante poético, um abre-alas. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 20 de janeiro de 2011 por em clássica, eletrônica, experimental e marcado , .
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