Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

M.I.A. – Vicki Leekx (2010; s/g, EUA)

Mathangi Arulpragasam, Maya, ou simplesmente M.I.A., é uma cantora e compositora britânica nascida em 1975, filha de pais imigrantes do Sri Lanka. Formou-se em artes plásticas, cinema e vídeo no Central St. Martins College, em Londres, e começou sua carreira artística como pintora e artista gráfica. Ingressou na música depois que a cantora Peaches apresentou-a a um sintetizador Roland. Em 2004, lançou com Diplo, que viria a ser seu parceiro mais constante, a mixtape Piracy Funds Terrorism Vol. 1, e no ano seguinte surgiu seu álbum de estreia, Arular. O álbum seguinte, Kala, de 2007, consagrou a cantora, com enorme sucesso de vendas e de crítica. O terceiro álbum, /\/\ /\ Y /\, foi lançado em 2010. Vicki Leekx é a segunda mixtape de M.I.A. e foi disponibilizada para download a partir do dia 31 de dezembro de 2010. (RG)

* # *

Ah, as mixtapes. Numa época, eram os porfólios dos artistas (em geral de hip-hop) que não tinham meios para sustentar uma produção mais custosa ou um lançamento propriamente dito (selo, distribuição, coisa e tal), ou então material que não poderia ser propriamente lançado por conter infrações a direitos autorais. Hoje, com artistas de grande renome e com bastante dinheiro em suas contas bancárias, mixtape passa a ter uma mudança inusitada de significação. Ela significa basicamente um não-álbum, um veículo para o material de produção mais rápida, sem a cavalgante preocupação de fazer “o” hit a cada faixa, sem, por fim, a velha pressão de escrever “opus” ao final da obra. O Autechre, por exemplo, faz isso e chama de EPs, ainda que alguns excedam largamente a duração comum dos álbuns (45+ minutos). No caso específico de M.I.A., Vicki Leekx veio em momento bastante apropriado. Se havia algo que incomodava em /\/\ /\ Y /\, era uma falta de naturalidade que parecia encher cada faixa de uma pressão, como se cada uma das canções do disco tivesse que ser um statement sonoro. E algumas faixas simplesmente não resistiam a esse tipo de pressão, pobres que ficavam ao ter que responder a esse tipo de imposição. Ainda que houvesse grande música, era claro que o disco não apresentava M.I.A. em sua melhor forma. Vicki Leekx, ao contrário, não tem “grande música” (no sentido de que não há nenhuma faixa realmente memorável) e não se importa muito com isso, mas em compensação vemos nossa musa em sua melhor dinâmica, suingante e incisiva, sexy e perigosa, surfando sua voz deliciosamente sobre produções muito coesas e cheias de gingado, fundindo hip-hop, funk carioca, industrial e música percussiva indiana. Faltava desprendimento em /\/\ /\ Y /\, e é isso que Vicki Leekx tem de sobra.

Vicki Leekx, é claro, é um trocadilho com a WikiLeaks de Julian Assange, figura que colocou diversas autoridades mundiais de cabelo em pé e fez com que a tétrica Sarah Palin declarasse que ele deveria ser perseguido como Osama Bin Laden. Que trocadilho fantástico, aliás. Inspirada no modelo de ultratransparência proporcionado pelo WikiLeaks (genialmente jogando o discurso do administrês moderno contra ele mesmo), M.I.A. professa: “I’m not talking about making it free, I’m talking about making it freer“. O disco, no entanto, não vai muito longe em política. Em compensação, ele vai demais em suíngue. O disco funciona de cabo a rabo como um disco de festa, com clímaxes de intensidade, ligeiros interlúdios e faixas para pegar ar. Quando quer, porém, ela sabe tirar o fôlego completamente, como na sequência que começa em “Bad Girls”, desliza para “Marsha/Britney”, emenda em “Listen Up” e culmina com a matadora “Mudersounds Munchi”, o elo perdido entre funk carioca e juke/footwork. Além do desprendimento, do suíngue e da imensa simpatia provocada, o outro grande mérito de Vicki Leekx é apostar em M.I.A. mais como rapper e MC/hostess do que em encerrá-la somente como “cantora”, uma função que definitivamente ela cumpre muito bem, mas que não esgota seus talentos. Vicki Leekx explora toda a versatilidade vocal de M.I.A., do discurso livre ao canto ao grito e ao rap, passando por nuvens de efeitos e loops. Não dá para cobrar dessa mixtape aquilo que ela não quer ser (um álbum), e sim pelo que é. E, nesses termos, é difícil começar 2011 com audição mais prazerosa do que essa. “Vicki Leekx. Leak me.” É pra já. (Ruy Gardnier)

* # *

O artista pode ser o que for, traficante, falastrão, junkie, não me importa. Só não pode me empurrar goela abaixo sua auto-indulgência ou, pior, sua preguiça. Entre a simplicidade e a simploriedade há um abismo. Cair no abismo é apenas uma das consequências do jogo, e é preciso cair muitas vezes para criar faro e se orientar minimamente no bambual da música contemporânea.

Meu faro – não tem jeito, preciso confiar nele – diz que Maya Arulpragasam representa hoje o que Björk representou nos anos 90: uma artista plural, independente, capaz operar em muitas sintonias, de promover reviravoltas e surpreender mesmo aqueles que não admiram sua música.

Quem espera acordar no último dia do ano com presente tão auspicioso? Uma mixtape produzida por M.I.A e sua turma, singelamente batizada como Vicki Leekx. Costurando sobras de material do último trabalho com excertos inéditos produzidos por Diplo, Rusko, Blaqstarr, Switch, entre outros, M.I.A. comanda um continuum de ritmos, percussões digitais, ruídos e graves cavernosos, absolutamente alucinado e empolgante.

A ironia do título reitera a preocupação política que tanto irrita os jornalistas americanos, mas pode ser lida como uma manifestação de júbilo e celebração pelo caráter guerrilheiro da empreitada de Assange e cia. “Nada mais M.I.A.”, diria algum hipster maldoso de Williamsburgh.

Quem acompanha M.I.A. de perto, sabe que ela nem sempre aparece como santa: irrita os jornalistas com suas contradições, faz declarações controversas e se perde em apresentações lastimáveis, como a do lançamento de seu último disco, meados do ano passado em Nova Iorque. De nada adianta: meu entusiasmo por sua música permance tal e qual, assim como seu vigor artístico. Vicki Leekx não é um CD de carreira, mas dá mais uma prova do que M.I.A. pode. Um presente afetuoso em um ano conturbado, from M.I.A. to you. (Bernardo Oliveira)

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Um comentário em “M.I.A. – Vicki Leekx (2010; s/g, EUA)

  1. Rafael Stefano
    27 de junho de 2011

    Sou fã da M.I.A., tenho seus discos, amo ela, e acho que ela deveria ter mais respeito!!!
    http://miabrasil.webs.com >> Fã site oficial dela no Brasil!!!

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Publicado às 21 de janeiro de 2011 por em hip-hop, pop e marcado , .
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