Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Burro Morto – Baptista Virou Máquina (2011; s/g, Brasil)

Banda instrumental de João Pessoa/PB, que chega a seu primeiro álbum, formada por Ruy Oliveira na bateria, Victor Afonso na percussão, Daniel Jesi no baixo, Leonardo Marinho no saxofone e na guitarra e Haley Guimarães no piano, programações e teclado. O grupo lançou o EP Varadouro em 2009, e em 2011 Baptista Virou Máquina. O álbum é acompanhado por uma peça audiovisual em DVD que conta a história de Baptista, dirigido por Carlos Dowling e ilustrado pelo artista plástico Shiko. (B.O.)

* # *

Baptista Virou Máquina é uma peça cinematográfica com trilha sonora do Burro Morto, ou um álbum ilustrado pelo cineasta Carlos Dowling e pelo excelente artista visual Shiko? Aqui se torna necessário trocar a chave de interpretação, pois até o presente momento não vi o filme. Porém conheço o álbum, o que me força a seguir somente o que meus ouvidos “viram”.

E, meninos: eu vi!

Vi uma banda madura e competente, apta a transformar ritmos famigerados como afrobeat, rock e jazz em peças se não originais, consistentes o bastante para se afirmar que surge um grupo a se acompanhar de perto.

Vi um  grupo capaz de criar e alternar climas incomuns na música instrumental brasileira dos últimos 30 anos, acostumada mais aos arroubos instrumentais do que à concepção paciente e minuciosa.

Vi também a bem dosada mistura de instrumentos elétricos, acústicos e eletrônicos, sem que o eletrônico desempenhe o estúpido papel de conferir “modernidade” ao som, mas operando em favor do conceito do álbum.

E, sobretudo, vi surgir um álbum conceitual arrojado na música brasileira. Não somente porque conta a estória de Baptista, um indivíduo acostumado somente ao trabalho e à obediência, e é como que abalroado pelos poderes libertadores do sonho.

Mas também porque constitui uma história musical, isto é, o testemunho de uma inflexão instrumental que tem o que dizer além de firulas e credenciais, e que pode ser comparada com o que de melhor se produziu na seara instrumental da última década, a saber, Itiberê Orquestra Família, Hurtmold, Guizado…

Basta escutar a diversidade de ambientes sonoros para compreender o porquê da “história”. O afrobeat hard de “Tocandira”, os detalhes de “Volks Velho”, com a bateria diáfana e o clima pesado, a bricolage eficiente presente em “Cataclisma”, ou ainda “Luz Vermelha”, que encerra o álbum trazendo a curiosa transfiguração de um afrobeat em baião. Faixas como essas traduzem o alto nível da pesquisa e da capacidade criativa do Burro Morto.

Trata-se do despontar de uma vocação extraordinária para bater no liquidificador um altíssimo fluxo de informações musicais, sem prejuízo de um sotaque próprio. Não que o álbum seja uma espécie de marco, muito embora participe de um movimento de revitalização da música instrumental no Brasil. Mas deleita e serve de promessa em relação ao futuro do grupo.

Baptista Virou Máquina é um álbum desobediente em muitos sentidos, característica de ouro no contexto da conformada MPB (música pseudo-brasileira). (Bernardo Oliveira)

* # *

Quem diria que dos restos mortais do pós-rock surgiria no Brasil uma cena instrumental riquíssima, estimulante e exuberante na maneira de conjugar ritmos díspares e saber transformá-los em estilos coesos e singulares? Colocar o pós-rock como ponto de partida dessa cena tão diversificada pode ser perigoso, mas é inegável que, se não como influência sonora direta, ele ao menos serviu de inspiração para jovens artistas perceberem que podiam copular seu amor do rock com o amor pela experimentação instrumental, aí inserindo também uma gama de tradições que vão desde o krautrock até o dub, passando pelo hip-hop e pelo jazz, sem no entanto perder a pegada e a pressão. O caldo fica ainda mais saboroso quando se nota que esses artistas e bandas não soam como vindos de qualquer país, mas estabelecem diálogos vívidos entre suas influências internacionais e uma musicalidade inequivocamente brasileira, seja na instrumentação, nos ritmos ou no suíngue de seus músicos. Num dado momento pensávamos que isso poderia estar restrito à turma de São Paulo que tinha o Hurtmold como espécie de núcleo. Feliz engano: cada vez aparecem mais artistas dispostos a utilizar a arena instrumental como forma de expressão, com coordenadas sonoras e geográficas cada vez mais vastas.

Baptista Virou Máquina mostra que o Burro Morto não é apenas mais um grupo para engrossar a cena. Trata-se de um primeiro álbum, mas percebe-se já de cara a enorme singularidade das composições e da sonoridade, apoiando-se numa cozinha cheia de batidas quebradas, ricas em influências de afrobeat, nas inspiradas intervenções jazzísticas de guitarra e teclados, com uma gama de timbres de impressionar. Estamos muito longe daquele cenário de banda instrumental em que todas as composições são espécies de variação feitas sobre uma matriz única, tendendo à monotonia. A maior força de Baptista Virou Máquina é a forma, por assim dizer, ondulada de sua audição: um rock com pegada mais forte dá vez a um suíngue descontraído, que por sua vez abre caminho para uma faixa mais impressionsta, e assim por diante. E por mais que as faixas evoluam melodicamente com a alternância entre teclados e guitarra, os climas proporcionados são sempre muito diversos, evocando desde o power-rock dos rompantes de guitarra aos solos-surf elegantes de um Walter Wanderley. Na maneira de destilar as influências, inclusive, o Burro Morto se sai melhor no geral do que grupos americanos que referenciam o afrobeat, como Antibalas e Budos Band: na panela deles cabe Tony Allen, mas também guitarrada, a Cor do Som, o Can em seu período mais fusion, Tom Zé, Lúcio Maia… As influências aparecem com clareza, mas ao mesmo tempo a banda não tenta escondê-las e, principalmente, nenhuma faixa tenta soar como isto ou aquilo, ou como “mashup” de duas ou três coisas. O som do Burro Morto um verdadeiro amálgama de influências muito bem digeridas, e se nas primeiras audições o crítico sente-se impelido a fazer o jogo do “isso veio daqui, isso de acolá”, quando o disco realmente bate não dá mais para ouvir nada além do som deles, pessoal e intransferível.

Todas as dez faixas dizem ao que vieram, sem encheção de linguiça e sem reiteração. Elas existem como grandes blocos, com mais minúcia no desenvolvimento do que grooves e melodias ganchudas, e isso faz brotar uma deliciosa sensação de flutuação e espacialidade da audição, dado que definitivamente é um som que privilegia a viagem e não a chegada. A despeito de todo universo sonoro evocado pelas composições e pelos arranjos, é uma banda de rock com um incrível senso de coesão e que dá vazão, tocando, a toda sua energia e vigor criativo. Baptista Virou Máquina abre 2011 com as mais altas esperanças para a música brasileira e para o que ela ainda pode. (Ruy Gardnier)

Anúncios

Um comentário em “Burro Morto – Baptista Virou Máquina (2011; s/g, Brasil)

  1. haley
    30 de janeiro de 2011

    Apenas o “Varadouro” foi lançado pela One Cell Records. Obrigado pela divulgação, ficamos gratos. abs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 27 de janeiro de 2011 por em eletrônica, experimental, rock e marcado .
%d blogueiros gostam disto: