Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Sonic Youth – Simon Werner a disparu (2011; Sonic Youth Records, EUA)

Sonic Youth é um conjunto novaiorquino de rock experimental formado em 1981. O grupo se consolidou com a formação de Thurston Moore (guitarra e voz), Kim Gordon (baixo e voz), Lee Ranaldo (guitarra e voz) e Steve Shelley (bateria), e foi um dos artistas de rock mais influentes dos anos 80 e 90, com álbuns como Sister (1986), Daydream Nation (1988), Goo (1991) e Dirty (1993), entre outros. No final dos anos 90, o grupo resolveu dar vazão a uma parte menos comercial de sua produção musical, e criou o selo Sonic Youth Records (SYR) para lançar música instrumental, geralmente improvisada. À formação clássica, foi adicionado o baixista Mark Ibold, permitindo que Kim Gordon passasse a empunhar a guitarra. Simon Werner a disparu é trilha sonora para o filme homônimo de Fabrice Gobert, e foi lançado em formato digital e físico no começo de 2011. (RG)

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Não é de hoje que o Sonic Youth se aventura em trilhas sonoras. Quem acompanha a carreira do grupo há de lembrar de pelo menos duas, Made in USA e Demonlover, mas eles fizeram também a música original de Things Behind the Sun e de The Burning Man: The Burning Sensation, e separadamente colaboraram com alguns outros filmes. As jams instrumentais do grupo, e mesmo os momentos instrumentais digressivos das faixas cantadas, são frequentemente chamados de “cinematográficos”, certamente tendo em mente o poder de criar atmosferas incomuns, misteriosas ou discretamente líricas, em especial os dedilhados de guitarra de Thurston Moore. Portanto, nenhum segredo ou teste. Simon Werner a disparu não expõe qualquer tentativa de adequação a novos formatos ou estados de espírito. É simplesmente uma excelente banda fazendo uma das coisas que sabe muito bem, no caso vir com duas ou três ideias de melodia ou de emoção e desenvolvê-las numa dinâmica descontraída sem a necessidade de talhá-las em faixas cantadas ou convertê-las em canções.

Por todo Simon Werner a disparu há ecos da carreira tradicional do Sonic Youth. Quando eles querem uma pegada mais roqueira, eles chegam lá com a maior facilidade e propriedade. Quando surge um dedilhado, pode ter certeza que você já ouviu aquilo mil vezes de “Schizophrenia” pra cá, mas ainda assim há um quê de beleza inaudita. E quando o grupo cria estases de feedback e pesquisas de timbre, ou muda repentinamente o clima da faixa, está lá o Sonic Youth que desde sempre admiramos criando situações interessantes retiradas do aparentemente infinito cabedal de variações que eles têm. No entanto, apesar de conter todas as marcas sonoras que fazem a história da banda, essa trilha sonora tem o imenso mérito de focar em jams ralentadas e desenvolvimentos discretos, chamando atenção para aspectos que, ainda que presentes nas canções e nas improvisações mais agitadas, geralmente acabam sendo pouco notados. Em especial a delicadeza de confecção dos timbres e a minuciosa forma de preencher aos poucos cada faixa com intervenções prudentes e nuançadas.

A maior surpresa em Simon Werner a disparu é o surgimento do piano nas faixas “Jean-Baptiste à la fenêtre”, “La Cabane au Zodiac”, “Jean-Baptiste et Laetitia” e “Thème de Simon”, e os barulhinhos de música eletroacústica que aparecem no começo de “Thème de Laetitia”. A sensação, porém, não é a de que o Sonic Youth deseja ampliar seu naipe instrumental ou sobrevoar por outras paragens. Tanto o piano quanto o noise eletrônico vêm apenas fornecer novas cores ao já minucioso trabalho com as sonoridades (especialmente num disco calmo e ostensivamente lento como esse), se adequando perfeitamente ao “som-SY” como se sempre estivesse ali presente. Mas o grande destaque é a faixa de 13min que fecha o álbum, “Thème d’Alice”. O resto do disco todo, forte em retoques impressionistas e fragmentários, é delicioso, mas é so na faixa final que o grupo todo vem cheio de gás e de ideias, fazendo brotar um riff que vai se desenvolvendo ao longo da composição, emoldurado por acordes de guitarrinha aguda, quase funky, e por um trabalho extremamente coeso de Steve Shelley, mantendo o ritmo enquanto produz notáveis variações no ataque.

Ainda que o Sonic Youth jamais tenha feito algum disco ruim e apenas um em que claramente não sabia para onde ir (Experimental Jet Set, Trash and No Star), é certo que o aspecto mais ousado e solto do grupo ficou um tanto escondido nos dois últimos álbuns “de linha” de grupo, Rather Ripped e The Eternal. Simon Werner a disparu, portanto, vem em momento apropriado para matar a saudade daqueles momentos primorosos em que os instrumentos resolvem sozinhos a parada, e produzem beleza atrás de beleza. Já superadas as três décadas de existência, eles ainda têm muita lenha pra queimar… (Ruy Gardnier)

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Autoimpor-se a tarefa de buscar a música sem precedentes pode tornar-se um martírio perigoso, e na grande maioria das vezes, frustrante. Os tempos mudaram, claro. E hoje arte, vida, pensamento e divertimento se encontram misturados num bolo doido, nas mais variadas escalas e tonalidades, em todas as manifestações humanas – embora tenha restado o aspecto pusilânime em larga escala. Determinados artistas, como o Sonic Youth, continuam a nos surpreender, mas para isso limitam-se a uma linguagem bem acabada, criada por eles mesmos a partir de uma série de contribuições como Velvet Underground e Glenn Branca, linguagem esta que resiste arduamente a sua terceira década.

Escrever sobre Sonic Youth pela quarta vez em cinco, seis anos… O que dizer? Trata-se de outra trilha sonora para um filme que não assisti. Mas, em todo caso, me pareceu um belíssimo álbum, com as guitarras absolutas de sempre. A bateria de Shelley soa cada vez mais como em A Thousand Leaves. E temos aqueles momentos de verdadeira catarse sonora, alternados com a delicadeza que vem se tornando comum em seus últimos discos.

O fato é que a música do Sonic Youth se cristalizou em uma sonoridade, mas não em um pensamento. Este continua livre e se manifesta na busca pelo novo, pelo “sem precedente”, inserido, no entanto, em uma linguagem fechada, definida com pulso firme, como se com isso o quarteto quisesse demarcar seu território: “isto aqui é Sonic Youth, não é bagunça não…” (Bernardo Oliveira)

 

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Publicado às 6 de fevereiro de 2011 por em experimental, rock e marcado , , .
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