Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Sun City Girls – Gum Arabic (Lebanese Edition) (2011; Annihaya, EUA/Líbano?)

Sun City Girls foi uma banda de rock experimental formada em 1979 pelos irmãos Alan Bishop (baixo e vocal) e Richard Bishop (guitarra, piano e vocal), e por Charles Gocher (bateria e vocal), na cidade de Phoenix, Arizona (EUA). A partir de meados dos anos 80, o grupo lançou um volumoso número de álbuns e cassetes, misturando rock, arte performática, improvisação, surf music e tradições musicais de países distantes. Entre os discos mais famosos do grupo, estão Torch of the Mystics (1990) e 330,003 Crossdressers From Beyond the Rig Veda (1996). O Sun City Girls acabou depois da morte, por câncer, de Charles Gocher, em 2007. Alan Bishop é hoje dono do selo Sublime Frequencies e o irmão Rick segue carreira solo como Sir Richard Bishop. Gum Arabic, como Funeral Mariachi (2010), é um lançamento póstumo, compilando covers de música africana e asiática que eram parte do repertório dos shows do grupo. (RG)

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Os grandes artistas são aqueles que ultrapassam as contradições que as premissas de seus estilos suscitam. E o Sun City Girls é um grupo cheio delas. Como se poderia pensar num grupo absolutamente cheio de senso de humor, mas ao mesmo tempo com uma reverência total a um senso de ritualismo, ou mesmo uma espiritualidade absurdamente sincrética? Ou, mais, como conjugar a bagagem roqueira com um sem número de influências vindas de África, da Ásia e de tradições ocidentais obscuras, com suas distintas escalas e inflexões? No papel, impossível (no quesito senso de humor/reverência, só Frank Zappa se iguala). Mas basta ouvir qualquer coisa que eles fizeram e rapidamente percebe-se que todos esses problemas do papel se encontram inteiramente resolvidos no som. Mais ainda, e esse é o majestoso toque de Midas: parece mesmo que não há qualquer contradição a ser superada, uma vez que a música soa tão natural, viva, resplandecente, que especular sobre ecletismo ou fusão de gêneros adquire ares de nonsense. Embora não seja: os irmãos Bishop pertencem claramente a um mundo pós-moderno de antenas ligadas aos quatro cantos do mundo, com uma comunicabilidade plena que se dá através da assimilação. Mas o que eles fazem com isso exclui qualquer explicação simplista: é simplesmente um mistério, e deixemos assim porque a fruição não precisa disso.

Gum Arabic é composto inteiramente de versões de música africana e asiática, em que se nota uma procedência distinta na estrutura melódica e nas inflexões de instrumento e vocais, mas ao mesmo tempo uma tal propriedade na execução e no arranjo, que produzem uma intensidade e uma atmosfera que são produto única e exclusivamente do feeling e da musicalidade do grupo. Tomemos “Sev Archer”, uma composição instrumental guiada pela guitarra de Rick Bishop. A primeira coisa que chama a atenção é o caráter de “hino” da guitarra límpida e estridente, evocando a grandiloquência de alguns momentos de surf music como “Cecilia Ann” dos Surftones, só que com um baixo distorcido e uma bateria cavalgante que ressignificam a faixa e não remetem mais a nada a não ser ao Sun City Girls. “Sev Acher”, como “Kal el Lazi Kad Ham”, “Space Prophet Dogon”, “Lies Up the Niger”, “Esoterica of Abyssynia” e “Cruel and Thin” (nome original “Iili Twil”, tradicional marroquina) são versões de faixas que já constavam na discografia do SCG. Outras faixas são inéditas (ou já foram gravadas em discos mais obscuros: eles têm demais para poder dizer algo com 100% de certeza).

Mas o que realmente importa são os detalhes: é a aspereza do canto, reconstruindo as versões originais e fornecendo uma pungência particularmente intensa; é a majestosa forma de tocar guitarra de Rick Bishop, alternando o lírico, o fluente, o esporro, o atmosférico, soando sempre como se sua vida dependesse de cada nota sendo entoada daquele jeito; os detalhes de arranjo, que sugerem por vezes música de trilha sonora, por vezes música tocada ao redor da fogueira (os estalos de “Lies Up the Niger”); é o grão da gravação, às vezes cristalino, às vezes sujo, mas em ambos os casos fornecendo texturas preciosas. A esse ponto do fim definitivo de uma banda tão fundamental quanto os Sun City Girls, surgir um documento como esse, tão eloquente em termos de instauração, é motivo para completo embevecimento. Que os detratores continuem achando motivos para desacreditá-los como farsantes, ladrões ou brincalhões. A verdade dos Sun City Girls está na ação, e Gum Arabic, compilando alguns dos covers de música norte-africana e do oriente médio que eles incorporaram a seu repertório, fornece a prova com sobras de genialidade. (Ruy Gardnier)

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Sun City Girls: que contradição gritante reside entre a suavidade do nome praiano e a força da música? Ora, somente a ironia pode justificar tamanha discrepância, de tal modo que podemos, para resumir, imputar ao Sun City Girls o título de banda mais irônica de todos os tempos. Ganham do Residents, sem dúvida, mas ainda é pouco. Fora isso, eles desenvolveram alguns procedimentos inéditos na seara do rock experimental. Como se traduz essa ironia em forma de som?

Fora a notória releitura de música oriental e africana através de instrumentos do “ocidente”, que persiste como uma espécie de leitimotiv para o grupo, o Sun City Girls se comporta perfeitamente como uma banda de rock, inclusive reproduzindo estruturas de arranjo e timbragem característicos do rock, com refrões, solos de guitarra estridentes, e tudo aquilo que é essencialmente diverso do universo musical que eles exploram, qual seja: as dinâmicas musicais extáticas do oriente, particularmente no Marrocos, no Egito, no Mali, etc.

Gum Arabic traz essas duas características como que amplificadas, rebuscadas. Trata-se de uma compilação de inéditas, gravadas entre 1983 e 1994, a partir de faixas de autores do mundo árabe e adjacências, alguns anônimos, outros conhecidos, como Artie Barsamian. No aspecto rock, o Sun City Girls esbanja técnica e sensibilidade, além de criar uma sonoridade ágil, excessiva e espontânea, ao passo que no aspecto extático, eles acabam por recorrer à improvisação e às modulações para se aproximar da vibração da música culturalmente distante na qual se inspiram.

Os vocais demonstram que os irmãos Bishop e o saudoso Charles Gocher conheciam do riscado, antecipando o estilo das trocas culturais da era do MP3, isto é, demonstrando habilidade para lidar com abundância e diversidade de informações culturais sem deixa de imprimir sua marca. E, nesse sentido, é evidente que, apesar da inclinação positiva em direção a outras culturas, o elemento que sobressai é o punch e a velocidade com que afloram as ideias e os climas no disco. Gum Arabic é, portanto, um trabalho generoso, que traz todas as características do grupo em um progressão vertiginosa, senhora de si, uma outra forma de dizer que Gum Arabic é rock pacas! (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 10 de fevereiro de 2011 por em experimental, folk, rock e marcado , , , .
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