Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Æthenor – En Form For Blå (2011; VHF, EUA)

Æthenor é um conjunto formado pelos músicos Stephen O’Malley (guitarra), Daniel O’Sullivan (teclados) e Vincent De Roguin (sintetizadores) no meio da década passada, com músicos vindos de tradições de doom metal ou música abstrata/soturna em geral. O primeiro álbum do grupo é Deep in Ocean Sunk the Lamp of Light, de 2006. Os disco seguintes, Betimes Black Cloudmasses (2008) e Faking Gold and Murder (2009), tiveram caráter colaborativo, tendo o trio como um núcleo ao qual se juntaram Nicolas Field, Alexandre Babel, Kristoffer Rygg (no primeiro) e Alexander Tucker, Anok Pe e David Tibet (os três últimos no segundo). En Form For Blå propõe uma nova formação do Æthenor, com O’Malley, O’Sullivan, Kristoffer Rygg (computador) e o lendário Steve Noble (bateria), e foi organizado como disco a partir de três apresentações ao vivo feitas em Oslo em abril e junho de 2010. (RG)

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Música improvisada é uma aventura. Tocar em conjunto por muito tempo pode afinar as sensibilidades, mas pode simultaneamente diminuir o senso de imprevisibilidade que constitui grande parte da força da improvisação. Unir músicos de backgrounds distintos pode trazer uma nova vitalidade, mas pode também criar apenas uma fuzarca em que não acontece nada muito digno de nota. E quando sai de músicos que emergiram de outras linhagens que não a do jazz? Novo risco: a habilidade pode simplesmente travar, mas também pode acontecer de surgir um aporte inédito à improvisação, vindo por alguém que digere o tema a partir de outro olhar (ou estômago, segundo a metáfora). O Æthenor sempre passou garbosamente ao largo desses perigos, seja porque os músicos já lidavam em suas linhagens sonoras com a abstratização, por assim dizer, de seus gêneros, seja por uma índole comum em ultrapassar as fronteiras dos rótulos, tendo como ideal musical concepções bem estendidas dos termos “denso”, “espaçoso” e “soturno”, além de manter com a “não-música” uma relação privilegiada.

En Form For Blå é a maravilha que acontece quando um conjunto improvisado chega à maturidade e ainda por cima passa a contar com um gênio absoluto na escalação. Mas não é só porque Steve Noble está interagindo que o Æthenor passou a ser um grupo de improvisação de primeiro escalão. A própria interação entre O’Malley, O’Sullivan e Rygg já garantiria as formidáveis evoluções e involuções da música, esse ambiente de eterna instabilidade e ainda assim de incríveis momentos de clímaxes e sobreposição de ideias. Pela primeira vez o Æthenor soa absolutamente consistente na utilização de sons encontrados (e reprocessados), nos drones de feedback ou de sintetizador, nas abruptas irrupções sonoras vindas do computador ou nas delicadas camadas de teclado e nos sininhos sintetizados que dão um teor até celestial ao todo sonoro.

No geral, as intervenções são contidas e discretas. Arroubos intervêm de vez em quando, mas sempre respeitando uma lógica da economia e de atacar com força apenas nos momentos certos. Sendo curtas as intervenções, os músicos se articulam em função de uma espécie de narrativa não-linear, e não da construção em cima do que os outros músicos propõem, ainda mais porque muito do que aparece obedece a uma lógica não-tonal (feedbacks, sons subsônicos, blips, sons encontrados). Quase nunca as escolhas sonoras são impositivas, tornando possível que os sons flutuem na duração, sem marcação rítmica e sem muitas progressões. A maior prova de que En Form For Blå é o ápice até agora do Æthenor é que às vezes nem mesmo a separação dos instrumentos fica clara, de tanto que eles parecem falar a mesma língua (os subsônicos de O’Malleu podem ser drones eletrônicos, a bateria pode ser um som pré-gravado [o que de fato parece, em certos momentos, dada a equalização abafada em momentos, ou cheia de eco no outro], e por aí vai).

E coroando a perfeita relação entre os três instrumentistas pregressos do Æthenor está Steve Noble. O que ele faz nesse disco é simplesmente fantasmagórico, utilizando principalmente seus pratos e seu contratempo para criar dinâmicas de aceleração e ralentamento sem em nenhum momento (excetuado o fim da segunda faixa) propor andamentos fixos. Não só suas intervenções são precisas em termos de ataque, mas também em termos de volume e espaço. São suas incursões que parecem fazer o som do grupo “andar”, caindo como uma luva no jogo entre movimentos pantanosos (drones graves, notas mantidas de synth e teclados) e intervenções abruptas que caracteriza o som da banda. Noble, ao lado de O’Malley, O’Sullivan e Rygg, cria uma combinação mágica e consegue o ápice em termos de grupo de música improvisada: soa inequivocamente pessoal e ainda assim consegue espantar a cada audição, mesmo repetida, como se o caldo sonoro fosse algo continuamente renovável. Em termos de improv não-jazzístico, eles não vêem ninguém a sua frente; ao lado, só Fenn O’Berg e o trio de Moritz Von Oswald. Que disco fantástico. (Ruy Gardnier)

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Não parece mero adereço a inclusão do nome dos músicos do Æthenor na capa de En Form for Blå. Nos discos anteriores, estas faziam alusão discreta ao “geometrismo” estilizado das capas de death metal. Mas desta vez uma nuvem azul (Blå, em sueco) cobre o rosto levemente desfocado de uma mulher, cuja boca entreaberta faz supor uma certo estado de excitação e desconforto. Sobre esta imagem discreta, uma lista com o nome do grupo, do álbum e dos instrumentistas, em um procedimento muito semelhante ao que marcou os anos dourados do jazz americano. Este hábito tem um sentido que, me parece, pode ser estendido ao Æthenor: ele sublinha a identidade, a personalidade musical de cada um dos instrumentistas.

Gravado e editado em duas apresentações na casa de shows sueca Blå, En form for Blå se afigura como um salto extraordinário no pensamento musical da banda. A inclusão de Steve Noble, baterista que acompanhou Derek Bailey, e a permanência de Kristoffer Rygg, abriu a paleta de cores, antes de alguma forma comprometidas com formas do drone e do dark ambient, pela via do metal que tanto apraz O’Malley e marca seu trabalho. A bateria de Steve Noble, a profusão de timbragens e climas que ela emana, garantem o aspecto multifário das faixas, que eram antes batizadas por números, como movimentos de uma composição, mas agora possuem nomes e, de fato, parecem responder a questões diferentes.

“Jocasta” e “One Number Of Destiny In Ninety Nine” formam o primeiro bloco, as faixas mais longas, que tomam mais de cinquenta por cento do álbum. Repletas de reviravoltas, alternando a exploração de massas sonoras com texturas acidentadas, elas se caracterizam por um diálogo intenso entre todos da banda. Mas a intensidade toma ares exploratórios incomuns, quando nos vemos entre as cinco faixas finais. “Vyomagami Plume”, por exemplo, com seus teclados jazzísticos e a proliferação de desenhos rítmicos; o aspecto etéreo, quase gracioso, de “Dream Tassels”, além da aparente retomada das modulações características da primeira parte em “Something To Sleep Is Still”. Nestas faixas, fica evidente a contribuição do diálogo entre Noble e Rygg, ao que parece, o trunfo do álbum, responsável por sua inclusão entre o que de melhor produziu este projeto aparentemente lateral, capitaneado por dois estetas do Metal, Sullivan e O’Malley. Mas a forma final, esta me parece de alguma forma distante do que seria comum esperar de seus nomes. Mas por que?

Talvez aí resida o parentesco mais próximo de En Form for Blå: o jazz como conceito, isto é, como criação de estruturas de improviso, de modulações improvisadas que, no entanto, é composto por habilidades individuais em franca relação entre si. Os nomes na capa expõem a individualidade, mas o azul cobre tudo, unificando as partes num todo incrivelmente coerente. O que faz deste álbum uma das audições indispensáveis de 2011. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 11 de fevereiro de 2011 por em eletrônica, improv e marcado , , , , , .
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