Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Seefeel – Seefeel (2011; Warp Records, Reino Unido)

O Seefeel surgiu no início da década de 90 como um quarteto, formado por Mark Clifford na guitarra, Mark Van Hoen no baixo (substituído por Daren Seymour), Justin Fletcher na bateria e Sarah Peacock nas guitarras e vocais. Após três álbuns, Quique (93), Succour (95) e (CH-VOX) (96), o grupo encerra suas atividades em 1998. Até que em 2008, Mark Clifford e Sarah Peacock reformaram o Seefeel, desta vez com a contribuição de Shigeru Ishihara (aka DJ Scotch Egg) e Iida Kazuhisa (aka E-Da), ex-baterista do Boredoms. Após o EP Faults, lançado no final de 2010, o grupo chega a seu quarto álbum em 2011, pelo selo Warp. (B.O.)

* # *

É bem verdade que, no passado, o Seefeel não era mais do que um trabalho interessante, curiosamente diversificado e timbrado por selos como o Warp e o Rephlex, o que na época possuía um significado real. E talvez mais ainda nos dois primeiros discos, Quique e Succour, do que na radical incursão ambient de (CH-VOX). Mas o retorno do grupo tem mais cara de recomeço, ou ainda, de um novo começo, em nada enraizado nos discos e feitos de quase duas décadas atrás.

Seefeel, o álbum, não representa uma atualização do som que a banda fazia na década de 90. Estou certo de que boa parte desta autonomia advém da participação de Shigeru Ishihara e Iida Kazuhisa, acostumados a trabalhar com texturas intrincadas e composição de ruídos. Com eles, emerge, de forma nítida e desafiante, a seguinte inversão: a combinação perigosa de dream pop/shoegaze com incursões consistentes à ambient, ao Downtempo e ao IDM, foi como que invertida, de modo que a experimentação eletrônica, tomando para si o papel central, reforçando mais o aspecto shoegaze, do que o cancioneiro indie, demonstra a vitalidade do Seefeel.

Ao invés de domesticar os timbres sinteticamente ásperos do glitch, o grupo preferiu caminhar em direção à burilação das tramas sonoras. Faixas como “Making”, “Dead Guitars” e “Faults” demonstram também que o grupo se entregou às sonoridades contemporâneas, notadamente ao dubstep e à utilização glitches, cortesia da Raster Noton e de Burial. “Sway” e “Airless” representam o lado mais rarefeito, através de andamentos exaustivamente lentos e surpreendentes tramas de ruídos. Em alguns momentos, parece que estamos a ouvir o “hiphopcida” Expressway Yo-Yo Dieting.

Na discografia do grupo, trata-se do álbum mais enxuto e direcionado de forma consistente, bem sucedido em desenvolver uma linguagem própria, contrária ao ecletismo excessivo que o marcou em um primeiro momento, e que denotava ausência de estilo. Ao contrário, o Seefeel versão 2011 tem estilo de sobra, e este álbum o comprova de forma bastante convincente. (Bernardo Oliveira)

* # *

Quando o Seefeel apareceu, era inevitável considerá-lo como uma banda de shoegaze eletrônico. Era o começo dos anos 90, e ao passar do rock ríspido garageiro ao etéreo embaçado, o My Bloody Valentine fazia com Loveless um marco definidor da psicodelia letárgica de sua época. O Seefeel conseguiu a proeza de misturar com autoridade esse shoegaze à eletrônica experimental, traduzindo as texturas fuzzy-celestiais das paredes de guitarra do MBV em viajantes camadas de sintetizador, e com programações de bateria que afastavam o som da banda do rock orgânico e aproximavam-no daquilo que viria a ser chamado de IDM. A partir daí, a banda de Mark Clifford e Sarah Peacock se inundaria cada vez mais de eletrônica, tendendo às paisagens sonoras em cinemascope do ambient. Mas os primeiros trabalhos do Seefeel, assim como as guitarradas de Kevin Shields no My Bloody Valentine (e outros grupos que inspiraram ambas as bandas como Cocteau Twins) já não se aproveitavam da criação de atmosferas e instalavam uma espécie de devir-drone da música pop?

Depois de quase quinze anos sumidos, eles agora voltam completamente reconfigurados. Mas há um nítido fio de ligação com o que eles fazia nos idos dos anos 90. As estases hipnóticas foram reduzidas às vinhetas e a “Aug30”, mas o Seefeel 2011 permanece 100% interessado na instalação de atmosferas psicodélicas e oníricas. A banda apenas reinterpreta essa inspiração de outra forma. Em Seefeel, o que mais chama atenção são os esguichos de sons rascantes, assemelhados a chicotadas de scratchings modulados, ligeiramente parecidos com os sons extraterrenos que Markus Popp extraía sabe-se lá de onde em seu último disco como Oval. É através desses sonzinhos que a música encontra sua progressão, ancorada por andamentos de downtempo e linhas de baixo espaçadas e dubby. Como as estases, o aspecto “celestial” da banda também está presente, mas restrito às incursões de Sarah Peacock. “Dead Guitars” sintetiza perfeitamente tudo isso, equilibrando com propriedade ruído, ritmo e atmosfera etérea. O dub, psicodélico e espaçado por natureza, foi desde sempre uma das inspirações do Seefeel, mas aqui ele mostra presença determinante, sublinhado pela parca presença de índices “melódicos” e pela programação percussiva sincopada. Se “Dead Guitars” é o lado a, o lado b é definitivamente “Making”, uma explosão desarvorada de glitches brigando com santa Peacock em segundo plano, enquanto o primeiro é dominado por uma linha de baixo pesada e hipnótica. Fechando os olhos, dá para acreditar que é uma união de Kevin Martin e Oval remixando Dead Can Dance.

No próprio nome, Seefeel já é um projeto sensorial. E as composições nunca ocultavam o fato de que se buscava antes de tudo situações evocativas e viajantes. Se hoje eles parecem mais sintonizados com o trip hop dub do King Midas Sound do que com o shoegaze de tempos passados, é razão para celebrar. Está aí uma banda que não senta em cima dos louros obtidos no passado, mas que está sempre disposta a se reinventar com os sons do presente, e tirar disso novas e belas conclusões. (Ruy Gardnier)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 18 de fevereiro de 2011 por em ambient, eletrônica e marcado , , , , , , .
%d blogueiros gostam disto: