Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

The Streets – Cyberspace and Reds (2011; s/g, Reino Unido)

The Streets é o pseudônimo de Geoffrey Michael Skinner, rapper e cantor britânico que desde o início da década passada combina elementos do indie rock com hip hop. Em 2011, antes de lançar seu quinto álbum, Computer and Blues, Skinner disponibilizou a presente mixtape, gravada em home-studio, com participação de MCs oriundos da cena grime, como Wiley e Trim, entre outros. (B.O.)

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“Não sinto que faz parte de mim, mas do meu passado”, escreve Mike Skinner, The Streets, a respeito do gap que separa a finalização de Computer and Blues de seu lançamento, em 2011. Nota-se a necessidade de complementar o trabalho – um trabalho apenas razoável, diga-se de passagem – a partir de um ato  urgente, que traduza o atual contexto de sua produção.

Munido de apetrechos eletrônicos (Blackberry, Ipad, Kindle, gravadores, etc.), The Streets produziu, do sofá de sua casa, uma mixtape de tirar o chapéu. Trata-se de uma sobrevida no mínimo interessante, se levarmos em consideração o trip hop turbinado e bacaninha que marcou sua carreira no início da década passada. A aparentemente modorrenta “Too Numb”, com participação da novata Roxxxan, remete a esse período, mas a inclusão de um pattern de drum’n’bass, ralentado ao extremo, transforma a faixa em uma espécie de proto-dubstep.

“Came In Through The Door”, com participação do rapper Kano, é exatamente o que Skinner promete em seu manifesto confessional: “um ragga à moda do Duran Duran”. Ao passo que “4 O’Clock” e “Don’t Hide Away” assumem de cabo a rabo o dubstep e o grime, respectivamente, enquanto “Backseat Barz”, com a participação de Loudmouth, flerta com o miami revigorado que anda fazendo a graça de rappers como Raekwon e Gucci Mane. Com Cyberspace and Reds, a agressividade que Skinner reservava somente às letras, finalmente invadiu o som.

Que Skinner reserve esta alteração no espectro sonoro a uma mixtape, pode indicar que se trata de experiência pontual, passageira. Pode até ser, mas noto que, recentemente, as parcerias Gucci Mane/Sinden e Scott-Heren/Noah 23 resultaram em mixtapes ainda mais interessantes, a não ser por um aspecto: o fato de que Cybespace and Reds representa uma experiência plena com o grime e o dubstep, adaptados ao estilo conciso e eminentemente pop do artista. E lhes asseguro, ouvintes: funciona. (Bernardo Oliveira)

* # ”

Mike Skinner é um caso curioso. Seu Original Pirate Material apareceu como um divisor de águas na seara do garage/2-step, com letras de cronista, cantadas/faladas/rapeadas num estilo lento e fleugmático, absolutamente diferente do que havia até então e composições mais bem dosadas, estruturadas como canções de hip-hop em modo 2-step, porém não tão nervosas ou efusivas quanto as produções que se faziam então. Com um pouco de exagero, mas não muito, pode-se dizer que ele surgiu como uma mistura de Kinks e Mark E. Smith numa cena que não esperava nada do tipo, e ao mesmo tempo levou a cena a uma popularidade mainstream inesperada. Mas a lâmina do sucesso corta dos dois lados, e foi o mesmo aspecto observacional, “crítico do cotidiano”, que fez com que seus discos seguintes tendessem abusivamente para uma persona “reflexiva” que geralmente em música pop significa simplesmente “bobo”. Era o caso. Não à toa, Dizzee Rascal tomou a frente de Skinner como “o cara de 2-step/grime que vale a pena ouvir”.

Pelas declarações de Skinner nos últimos tempos, era possível sentir um cansaço e um desgaste com a progressão de sua carreira. Aí, junto com o lançamento oficial, por uma gravadora grande (a Atlantic), de seu último álbum, Computer and Blues, o sujeito vem, diz que já considera seu disco recente uma obra do passado e surge com uma mixtape gratuita cheia de participações especiais de MCs de grime. Onde Computers and Blues era muito certinho e num dado momento enchia o saco por composições repetitivas e refrões fracos, Cyberspace and Reds cativa pelo descompromisso com o pop, pelo caráter colaborativo e pela pronunciada maior pressão das produções. As produções cheias de pegadas chamam atenção, aliás, para algo fundamental na música de Skinner: seu estilo vocal, em especial sua forma de separar sílabas no ritmo, funciona muito melhor em faixas de andamento rápido e bem sincopadas, provocando saborosos efeitos polirrítmicos. Mas, assim como o álbum oficial, a mixtape não tem nada de brilhante. As produções são boas ou interessantes, jamais acachapantes. A audição é agradável e estimulante, as colaborações fornecem uma excelente respiração ao disco, e as variações de produção (entre batidas e loops melódicos de hip-hop tradicional, bastante frequentes, e os moldes 2-step/grime costumeiros) evitam a repetição. No entanto, no fim das contas, não há nada realmente marcante. O disco é bem-cuidado, vibrante, mas é só.

Mike Skinner fala que sua carreira como The Streets acabou. Se é verdade, o restante de sua carreira começa com o pé direito. Ele limpou a pasmaceira, recolocou seu som no caminho certo e esboçou bons passos para trabalhos futuros, quem sabe com seu próprio nome. Mas, considerado apenas como um disco, Cyberspace and Reds é um bom disco de hip-hop/grime, uma chacoalhada na poeira, mas jamais um vôo maior. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 3 de março de 2011 por em Grime, rap e marcado , , , , , , , , , , , , , , .
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