Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Moritz von Oswald Trio – Horizontal Structures (2011; Honest Jon’s, Reino Unido)

Moritz von Oswald Trio é um conjunto formado por Moritz von Oswald (Basic Channel, Rhythm & Sound), Sasu Ripatti (dos projetos Vladislav Delay, Luomo e muitos outros) e Max Loderbauer (do Sun Electric e atualmente da dupla nsi.) que se uniu para criar improvisações tomando por base fontes eletrônicas. O primeiro disco do trio foi Vertical Ascent, em 2009. No ano seguinte, lançaram o disco ao vivo Live in New York e o single Restructure 2. Horizontal Structures é o segundo álbum de estúdio do trio, que agora é aditivado por instrumentos orgânicos, com Paul St. Hilaire na guitarra e Marc Muelbauer no contrabaixo acústico. (RG)

* # *

A capa de Vertical Ascent ostentava um foguete mais ou menos na mesma configuração espacial que Horizontal Structures ostenta um osso tricolor. E a mudança é significativa de uma profunda mudança na concepção sonora do Moritz von Oswald Trio. Ali onde se via MvO e cia. utilizando seus dotes eletrônicos para fazer livre improvisação absolutamente imersa em techno, agora o grupo expande a paleta para a fusão dos eletrônicos com sons acústicos. Independente do quanto eles executam bem essa fusão, esse dado já é um certo motivo de apreensão: ao realizar essa ousada guinada, eles abandonam um terreno em que são os únicos para entrar num outro já bem mais habitado. Em todo caso, há sempre a habilidade e o talento desses músicos para criar soberbos climas evocativos, sonoridades inusitadas, timbres preciosos e equalizações suntuosas para garantir o pedigree, certo? Certo… mas também um pouco errado.

A verdade é que superficialmente Horizontal Structures parece um passo à frente de Vertical Ascent, mas é um daqueles passos que no fundo revela um relativo passo atrás. E não é tanto pela mudança do conceito, que poderia ter dado frutos formidáveis, mas pela execução. O trio aditivado por Paul St. Hilaire e Marc Muelbauer consegue momentos impressionantes, mas produziu um disco que em geral é frio, bem menos psicodélico que o disco anterior e, talvez o pior de tudo, em momentos faz renascer a famigerada vertente soft do jazz fusion.

Mas vamos primeiro ao que torna Horizontal Structures um belo disco. Aquilo que mais chama a atenção é o fantástico trabalho de espacialização realizado por Moritz von Oswald, nos efeitos e na mixagem que trabalha com incrível habilidade entre caixas direita e esquerda, dando a impressão de que somos rodeados de som por 360º. Outro grande toque de genialidade está em “Structure 2”, em que o contrabaixo acústico faz pontuações de dub e soa absurdamente pulsante e vivo. E, claro, ao longo do disco há inúmeras contribuições individuais, desde camadas de ambiência a padrões percussivos (não só pratos e caixas, mas também muitos bongôs e outros instrumentos percussivos), passando naturalmente por inserções de samples rascantes. Nos momentos mais inspirados, eles ainda são capazes de nos tirar o fôlego.

Mas o grande problema de Horizontal Structures é que ele vende fácil demais sua musicalidade. A entrada da guitarra e do contrabaixo, aliada ao uso pronunciado de samples de instrumentos acústicos, soa como um grande cineasta alternativo indo fazer um filme de época com zilhões de cenários e figurinos e se perdendo um pouco no caminho. O estilo permanece lá, mas ele flui no vazio, engessado pela moldura e impedido de vôos maiores. Há tempos atrás, Moritz von Oswald também saiu do foguete para o osso desmontando o Basic Channel para montar o Rhythm & Sound, mas com igual genialidade entre os projetos. Mas desta vez ele não foi tão bem sucedido: o disco possui pontualmente momentos de brilho, em especial nas “estruturas” 2 e 4 (a 4 em especial, com sua balbúrdia rítmica), mas a audição não causa nem metade do impacto ou do prazer de Vertical Ascent. Apenas um desvio de percurso numa genial trajetória musical, esperemos. (Ruy Gardnier)

* # *

A disposição em conferir novas estratégias e possibilidades ao dub – tomado enquanto conceito, e não como sonoridade standard – persiste na produção de Moritz Von Oswald como um elemento central. O jazz, o techno, a música africana, são apenas suportes sobre os quais Oswald cria sua complexa geografia sonora, desenvolvida ora sob o signo da liberação – o improviso –, ora sob o mais atento controle da mesa de som. Por esse motivo, convém utilizar os fones de ouvido, facilitando o acesso às nuances que compõem esse espaço sonoro. Somente deste modo se capta, de forma adequada, a beleza híbrida em cada uma das cinco “estruturas horizontais” que integram mais uma obra-prima capitaneada pelo produtor alemão.

A simbologia é clara: a dicotomia kubrickiana foguete/osso, destilada nas capas de Vertical Ascent e Horizontal Structures, remete à concepção de cada um dos álbuns do trio. Em Vertical Ascent, os músicos criaram recortes precisos com timbres eletrônicos e acústicos, resultando em uma sonoridade altamente controlada, de alguma forma amparada pela regularidade dos padrões rítmicos – no caso, o dub, o techno e uma levada minimalista ditada pelo berimbau no “Pattern 2”. O foguete servia à metáfora de uma música extra-terrestre, talhada em direção ao desconhecido e amparada pela preponderância dos timbres eletrônicos.

Por sua vez, Horizontal Structures, ao recorrer a um equilíbrio mais pronunciado entre as sonoridades eletrônicas e acústicas, traz um passeio pela geografia musical do planeta. A inclusão de Marc Muellbauer (double-bass) e Paul St. Hilaire (guitarra), tornando o trio em um quinteto, reforça o caráter presencial do trabalho, mais precisamente o aspecto terrestre do qual tentaram se desembaraçar no álbum anterior. Se o dub se configura como conceito central no trabalho do trio, a pluralidade rítmica fornece o mote particular de Horizontal Structures.

Logo na primeira estrutura se esboça uma divisão rítmica semelhante a um afoxé; depois, a música árabe, na quarta estrutura; há também a presença da música congolesa, pela inclusão de uma mbira estridente, também na primeira faixa. Na maior (e melhor) faixa do álbum, novamente a quarta estrutura, algo parecido a uma rabeca dialoga com a guitarra, as percussões acústicas e digitais, e o contrabaixo de Muellbauer, que explora de forma admirável o trastejar de seu instrumento. Destaque também para a faixa que finaliza o disco, composta a partir de ruídos e percussões diversas, formando uma intrigante miríade sonora.

Uma guitarrinha meio fajuta, presente na terceira estrutura, pode assustar o ouvinte, mas rapidamente se percebe como ela vai sendo como que diluída e alterada, em meio à volatilidade dos timbres inorgânicos que englobam a faixa. Mas é justamente aí que mora o enorme barato de Horizontal Structure: a capacidade de Oswald de interpretar o trabalho de palco, não só “corrigindo” detalhes, mas ajustando de forma sutil os volumes e os canais de forma a criar um material inteiriço e vigoroso.

Se Vertical Ascent remetia à desorientação e a instabilidade, Horizontal Structures convida o ouvinte a percorrer palmo a palmo, o amplo espectro musical da terra. Um díptico fundamental para quem quiser acessar o que de melhor a música eletrônica pode apresentar nos dias de hoje. (Bernardo Oliveira)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: