Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Peaking Lights – 936 (2011: Not Not Fun, EUA)

Peaking Lights é um do americano de rock lo-fi proveniente de Madison, Wisconsin, formado pelo casal Indra Dunis e Aaron Coyes. Na década passada, Dunis foi membro das bandas Dynasty e Numbers, enquanto Coyes parcicipou da dupla Rahdunes. Em 2008, eles lançaram os cassetes Two Songs For Ceremony, Clearvoiant e Peaking Lights, e um álbum de improvisação em conjunto com o grupo Golden Jooklo Age. No ano seguinte, o Peaking Lights teve seu primeiro álbum, Imaginary Falcons, editado pelo selo Night People. 2010 marcou a entrada da dupla no selo Not Not Fun, através de um split com o Wet Hair. Pelo mesmo selo, o Peaking Lights lança seu segundo álbum, 936. (RG)

* # *

Muitas vezes, música é uma questão de pura alquimia. Burile quanto quiser vários elementos, e eles nunca formarão um bom composto. Outros, parece que a todo tempo foram feitos para isso. E é absolutamente mágico quando alguns desses elementos sempre foram vistos como díspares entre si, jamais provocando um vislumbre de possível convivência, e, uma vez associados, parecem já ter nascido feitos um para o outro até o fim dos tempos. Só isso explica a intensa sensação de toque de magia que é a audição de 936, o disco em que finalmente os Peaking Lights encontraram totalmente seu som e fizeram um dos marcos definitivos do movimento de psicodelia dub lo-fi que domina parte da cena alternativa americana. A seu shoegaze encantatório, com a marca da programação de bateria vagabunda e gravações abafadas, eles juntaram fantásticos grooves de baixo e estruturas composicionais simplérrimas, banais até, mas que deixam um espaço soberbo para a inserção de fraseados ou licks de guitarra e teclado cheios de delay e outros efeitos, que, junto aos subgraves saturados das linhas de baixo, criam o primeiro disco de shoegaze dub de que se tem notícia.

936 é vibrante e coeso de cabo a rabo, mas duas faixas se destacam imediatamente por sua sensualidade psicodélica e uma espécie de atmosfera ritualística: “All the Sun That Shines” e “Birds of Paradise (Dub Version)”. São disparado as faixas de andamento mais rápido e groove de baixo mais insinuante, mas há nelas uma genialidade que não se resume a isso: são também as faixas que se resolvem vocalmente apenas por mantras ou slogans em irresistível modo cantar-junto ‒ “All the sun that shines shines for you” e “Run run run run along” respectivamente ‒ e que abusam de licks hipnóticos de teclado e guitarra no vasto espaço disponível que a estrutura deixa.

A combinação dos grooves de baixo com a programação de bateria eletrônica e as intervenções de Dunis e Coyes é nada menos do que majestosa, e se funciona à perfeição nessas duas faixas, também funciona muito bem nas outras, apenas em modo mais discreto. “Amazing and Wonderful”, por exemplo, é como uma faixa do Beach House em que a atmosfera é efetivamente solar, com o mesmo tipo de doçura vocal e cama simplória porém eficiente de teclado. “Sommertime” se esbalda em fazer jogos de palavras entre “Summer” e “Some are” como uma criança descobrindo um joguinho novo com objetos de uso banal.

A chave da fascinação gerada pelo Peaking Lights está na propriedade com que eles usam os elementos mais simples. É uma simplicidade depurada, definitivamente, mas sem chegar à autoconsciência que frequentemente destrói incursões desse tipo. Dunis e Coyes acabaram de descobrir uma sonoridade soberba e souberam muito bem o que fazer com ela, sem reduzir em nada a força psicodélica do movimento em que estão (queira-se ou não) inseridos, e ao mesmo tempo atribuindo a seu som um teor pop inapelável, ácido e delicioso. Fizeram dois clássicos instantâneos e um punhado de faixas-cânticos saborosas que se comportam muito bem em conjunto e que são candidatas a trilha sonora de diversas das alucinações líricas que teremos nos próximos anos. 936 é uma joia inesperada, que equaciona à perfeição uma série de percepções sonoras que estão no ar e as articula com verve e propriedade, criando uma estética singular e frontal, saturando os ouvidos e acachapando os sentidos. Um dos discos fundamentais desse ano, sem sombra de dúvida. (Ruy Gardnier)

* # *

Penso que a maior objeção que se pode fazer ao trabalho dos Peaking Lights não reside na utilização convencional da estética de “baixa qualidade” (lo-fi), nem nos maneirismos recorrentes nos trabalhos desta natureza, como o emprego de sintetizadores e o aproveitamento dos ruídos ocasionados pela utilização de gravadores de rolo ou fitas cassetes. Nesse sentido, o aspecto geral de 936 é até o de um álbum que de alguma forma cria uma atmosfera particular, se utilizando porém de um vocabulário desenvolvido nos anos 80 e 90 por bandas como Guided By Voices e o Smog de Bill Callahan.

De certo modo, 936 me lembrou a parceria entre o LA Vampires e Matrix Metals, mas rapidamente me desfiz desta ideia, lembrando que So Unreal é um disco bem humorado, quase sarcástico. Apesar de constar no cenário há mais tempo, o Peaking Lights perde se comparado ao trabalho do LA Vampires, mas também do Hype Williams, de James Ferraro e de outros representantes atuais do lo-fi. E isso porque não detém boa parte da malícia para criar nexos sonoros que justifiquem a apropriação dos maneirismos característicos desta estética.

Por exemplo, enquanto o Hype Williams trabalha nesse registro para incorporar a lógica indigesta da indústria cultural, de forma a mobilizar nosso estranhamento, a música do Peaking Lights afirma o poder estabilizador da canção. Apesar da audição prazerosa, 936 propõe uma insidiosa adesão ao universo indie: arranjos, composições e a presença ostensiva de canções, indicam a necessidade de amarrar a interessante pesquisa sonora a uma dinâmica mais palatável. E a música, é claro, paga por essa escolha. (Bernardo Oliveira)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 11 de março de 2011 por em dub, rock e marcado , , , , , .
%d blogueiros gostam disto: