Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Akron/Family – S/T II: The Cosmic Birth And Journey Of Shinju TNT (2011; Dead Ocean, EUA)

Akron/Family é um trio americano formado por Miles Seaton, Seth Olinsky e Dana Janssen, que trabalha com folk-rock experimental. Após três álbuns, duas colaborações (com o Angels of Light e o percussionista Hamid Drake), e alguns CDR’s, o Akron/Family chega a seu quarto álbum, o segundo pela gravadora Dead Oceans. (B.O.)

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Para o ouvinte acostumado à interface entre rock, folk e experimentação destilada pelo Akron/Family, a primeira audição deste álbum, batizado da forma mais estranha possível, pode assustar até mesmo o fã mais fiel. Pode-se até responsabilizar a utilização de bleeps eletrônicos e de uma inflexão noise inesperada como os principais motivos para tanto susto. Mas a beleza e a pujança do álbum não se resumem a esse fato

A verdade é que o Akron/Family participa do rol de grandes guinadas deste ano – como a do Seefeel, como a do Æthenor –, grandes não exatamente pela alteração radical (o que, em si, não diz muita coisa), mas pelo resultado estético obtido através do recurso emprestado a outras vertentes, antes consideradas distantes de suas principais referências.

Seguindo essa linha de raciocínio, The Cosmic Birth And Journey Of Shinju… surpreende não somente porque indica esta mudança, mas sobretudo porque apresenta um caráter conceitual algo superior ao reproduzido anteriormente pelo grupo. Percebe-se que, em volta do rock espacial influenciado pelo Kraut carregado nos sintetizadores, a banda sobrepõe um invólucro noise para o qual nem todos os admiradores de melodias pastorais e violões estão preparados. E, no entanto, faixas como “Fuji I (Global Dub)” mostram algo do Akron/Family anterior, mas desta vez lapidados através de uma roupagem mais rica e vigorosa.

A utilização de  sonoridades  saturadas, tanto nas faixas deliberadamente barulhentas, como “Tatsuya Neon Purple Walkby” ou “Silly Bearz”, como também nas que operam alternando volumes, como “Canopy”, demonstra que o grande trunfo do disco é o equilíbrio e a unidade entre elementos aparentemente antagônicos: elas nunca sobressaem somente pela aparência irascível, mas pela profusão de boas ideias.

O resultado apresenta um diálogo interessante com o rock psicodélico de Kawabata Makoto e seu Acid Mother Temple. Mas como que comprimindo as dezenas de minutos em que o japonês distribui sua miríade de notas, valorizando mais a intensidade dos timbres e dos volumes do que o poder da canção e das harmonias.

Atomizando o seu som, tornando-o mais intenso do que viajandão, mas sem abrir mão do direito de incluir as referências mais díspares, sim, o Akron Family pode assustar alguns ouvintes mais conservadores. Mas penso que, com este álbum, o trio abriu uma porta auspiciosa, capaz de atiçar a curiosidade de tantos outros ouvintes, cooptados somente agora. Como no meu caso.  (Bernardo Oliveira)

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Para quem conhece mesmo superficialmente o som dos discos anteriores do Akron/Family, a audição de “Silly Bears” surge como um choque. Ou melhor, surge como um amálgama de drone à Yellow Swans, tribalismo noise à Black Dice e de força etérea das asperezas à Animal Collective dos primeiros discos. Posteriormente eles revelarão mais facetas, desde o drone plácido (“Island”) à aspereza garageira tremendamente processada por filtros de power electronics. É de fato uma verdadeira reconstrução: onde antes tudo era bem definido e direcionado, aqui tudo é abstrato e impressionista, como se o Akron/Family colocasse um quadro figurativo na chuva e deixasse a água completar a o trabalho, borrando tudo e permitindo à indefinição aplicar um charme final à obra. A ironia do negócio é que o “freak” do termo freak folk nunca realmente se aplicou a eles, e agora parece fazer todo sentido (mas talvez o “folk” não mais). Mas de alguma forma parece que a crista da onda passou e o Akron/Family chegou um pouquinho depois da festa.

Não se trata, todavia, de uma questão de modismo. Não é porque a onda do freak folk “passou” que esse disco soa um pouco tresloucado e um tanto deslocado. The Cosmic Birth… faz tudo com refinamento, mas, de tudo que faz, ele quase sempre repisa território já traçado pela turma da Paw Tracks provocando o mesmo mood de sensorialidade alterada, psicodelia letárgica e um certo pendor para o pop “mágico” que faz com que o Animal Collective tenha uma interface, digamos, palatável. Colagens (a boa “Fuji I”, que depois vira um rockão com parede de power electronics), vozes distorcidas ao nível da indefinição, às vezes quase em nível Prurient (“A AAA O A WAY”), camadas e camadas de ruído adensando o caldo outrora bucólico de Akron/Family: a guinada é radical, e ainda que as soluções de arranjo e composição se pareçam por demais com água que já passou na ponte, eles soam completamente íntegros e donos de si no que estão fazendo. Quando eles acertam 100%, aparece uma “Another Sky” pulsando num noise-baião guiado por uma doce levada de quatro notas que é de fazer tremer a percepção. Mas ainda que The Cosmic Birth… seja um disco cadenciado e de audição agradável, percebe-se que o doce da abstração e do noise foi uma tentação forte demais e o Akron/Family se empanturrou de sobremesa, usando sem moderação ‒ o que não é problema ‒, mas não chegando a atmosferas muito singulares ‒ o que, definitivamente, é um problema. Brinquedinho descoberto, espera-se que no próximo disco eles possam adquirir maior intimidade, dar mais tratos à bola e afirmar melhor a nova personalidade em modo impressionista-experimental. (Ruy Gardnier)

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Um comentário em “Akron/Family – S/T II: The Cosmic Birth And Journey Of Shinju TNT (2011; Dead Ocean, EUA)

  1. babee
    30 de março de 2011

    discão

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Publicado às 18 de março de 2011 por em experimental, folk, noise, rock e marcado , .
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