Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Sidi Touré & Friends – Sahel Folk (2011; Thrill Jockey, EUA [Mali])

Nascido em 1959, em Gao, sul do Mali, Sidi Touré é um compositor, cantor e instrumentista especializado no songhaï, uma espécie de blues malinês. Inicou sua carreira na orquestra malinesa Songhaï Stars, colaborou com artistas como Bassekou Kouyaté e Kassemady Diabaté e lançou seu primeiro álbum, Hoga, em 96. Sahel Folk é seu segundo álbum, gravado com a colaboração de instrumentistas malineses. (B.O)

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Para começar a descrever os atributos deste álbum, convém enaltecer a felicidade de um encontro musical calcado na amizade, a espontaneidade dos movimentos, que no entanto encerram grande sensibilidade, grande sabedoria. Convém apreciar o quantum de conhecimento e improviso, de frescor e ciência, deleite e método, presentes em cada nota, cada modulação, cada melodia.

Sidi Touré, mestre do songhaï malinês, se junta a seus amigos Dourra Cissé (guitarra, voz), Jambala Maiga (kutigui, violão de uma só corda), Douma Maiga (kurbu, violão de três cordas), Jiba Touré e Yehiya Arby (ambos guitarra e voz). Sahel Folk encanta por sua coesão, apesar de alternar sequências de imensa delicadeza, com outras mais agitadas.

Faixas como as duas primeiras, “Bon koum” e “Adema”, e “Artiatanat” apresentam uma vertente mais bluesy do songhaï, através de repetições melódicas e uma entonação mais reflexiva e espaçada, que somada ao canto sinuoso de Touré, cria um atmosfera árida e, ao mesmo tempo, atenta. “Djarii Ber” é como uma espécie de interseção entre os momentos agitados, com seus arpejos mais velozes e repetições soltas, na qual as imprecisões conferem mais ainda mais pujança ao conjunto.

Mas é na sobreposição conflituosa do dedilhado dos diversos instrumentos, inclusive o kutigui e o kurbu malinês, que reside a magia do álbum. Em “Bera nay wassa”, a tensão entre o canto parcimonioso de Touré, com as imprecisão rítmica das cordas; em “Taray Kongo”, os ataques enérgicos das palhetas e os diversos momentos que se alternam sobre a repetição da linha de contrabaixo. Nesses dois momentos, a música adquire um conjunto que só encontra paralelo nas jams de Ali Farka e Toumani Diabaté.

Sahel Folk lembra Os Cinco Batutas, lembra os dois quintetos de Miles Davis, os grandes discos do Época de Ouro, e todos os ensembles que trouxeram à baila a questão da amizade, da afinidade, da conformidade a um propósito, mesmo que eventualmente esta conformidade se traduza em uma sonoridade conflituosa. Equilíbrio não constitui um bom adjetivo para determinar a beleza do disco, pelo contrário. É justamente nessa relação desigual entre inclinações instrumentais diversas, mas que ao mesmo tempo conseguem travar um diálogo pleno, que Sahel Folk constrói um dos mais belos diálogos musicais dos últimos tempos. (Bernardo Oliveira)

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Apesar do extremo clima de naturalidade e da beleza franca apresentada por cada uma das faixas que compõem Sahel Folk, trata-se de um disco meticulosamente estruturado a partir de alguns princípios básicos: cada faixa é um duo, um encontro com músicos afins, e cada um desses encontros contou com um dia para achar as sintonias e outro dia para fazer apenas dois takes da faixa executada, com o objetivo de manter a espontaneidade da reunião e daquele espaço-tempo específico (ou seja, o extremo oposto do perfeccionismo sem alma que infesta a maior parte das produções mainstream e que já há tempos destruiu a MPB e nosso pop hi-fi). As “obstruções” – para utilizar o vocabulário de Lars Von Trier de um filme sobre limitações auto-impostas à arte – não são artificiais ou cerebrais, portanto. Elas têm um claro direcionamento de celebrar a vibração, o feeling, a energia ainda semibruta que emana de uma reunião. Tudo isso é plenamente audível nesse segundo disco de Sidi Touré, e por si só já fornece uma incrível força na audição.

Mas a grande estrela do disco é a interação dos instrumentos de cordas nos duos. Isso não é para minimizar a força dos vocais, entoados sempre com uma pungência comovente e sempre com personalidade forte, de beleza não-talhada. Contudo, essas levadas repetitivas de violão, que ganham sempre relevo com ligeiras variações ou com irrupções em solos, são o que dão o caráter mais marcante a Sahel Folk. Sidi Touré domina definitivamente esse modo loop/não-loop de interpretação, que precisa funcionar sempre como base rítmica e melódica, mas adquire brilho de solista por algumas notas fugidias das variações que sobressaem das notas-base da levada. A estrutura é sempre sólida, mas as variantes surgidas entre as notas da estrutura fornecem sempre a sensação de algo fluido e maleável.

A faixa de destaque é “Taray Kongo”, uma faixa de dez minutos em que Sidi Touré faz dueto com Jambala Maiga, soberbo vocalista de inflexões “declamação trem-bala” e tocador de kutigui, um violão de uma corda só que soa distintamente como um banjo esquelético. Sidi Touré arruma seu violão para combinar timbristicamente com o instrumento do colega e o que surge é um verdadeiro prodígio de timing no ataque e de sobrevoos solistas e coesão de conjunto. É o momento mais inspirado de Sahel Folk, mas não representa tão bem o disco todo, em geral mais calcado num lirismo mais doce e suave, com andamentos mais lentos e envolventes, e tensões melódicas mais relaxadas. Nesse caso, “Bon Koum” e “Adema” servem como bons representantes do som geral do disco, com levadas de violão pregnantes e grooves sinuosos, além de vocalizações calorosas dos participantes. É uma oportunidade ímpar para familiarizar-se com a música songhai, tradicional da África Ocidental, mas sobretudo para conhecer o poder de instrumentista que tem Sidi Touré e o enorme vigor de interação dos violões desses notáveis músicos. As músicas dizem o resto. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 20 de março de 2011 por em música do Mali, Songhaï e marcado , , , , , .
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